Terminei o V Capítulo destes artigos de opinião com a palavra WhatsApp.
De facto, a triangulação da informação e da partilha deste território de pertença que são as comunidades madeirenses no exterior, requere que a informação flua para as comunidades, entre as comunidades e entre estas e esta Região Autónoma.
A tarefa mais importante dos decisores, daqueles que desenham políticas para as comunidades madeirenses e que pretendem assegurar a presença da Madeira no mundo é, sem dúvida, a sua entrega total e o seu olhar atento e perspicaz à vida dos nossos conterrâneos, os que vivem e trabalham além-fronteiras, à sua História a às suas vivências diárias.
Nada, nem ninguém substitui um telefonema; um desejo de melhoras; um feliz aniversário; um simples abraço; um “saber de ti, que faz tempo e nada dizes”!
A diferença fundamental da nossa Emigração do século XVI até ao momento reside sobretudo nestes fatores: Emigração Individual e Emigração em Rede e respetivas ligações à pátria.
História da Emigração Madeirense DEFINITIVA
O PORTO DO FUNCHAL NO ÚLTIMO QUARTEL DO SÉCULO XIX
O PORTO DA MADEIRENSIDADE
UM PORTO QUE ERA UM AEROPORTO DE HOJE
Teremos de enquadrar, primeiro, as migrações internas na própria ilha que, como vimos, não conseguia” capturar” os seus nativos, quer pela excessiva pobreza, quer pelas doenças, quer pelas pragas na agricultura, quer ainda pelos aluviões que grassavam com regularidade , encostas abaixo varrendo ,da serra ao mar, tudo o que encontrassem, deixando nos naturais apenas o desejo da “fuga” das suas freguesias ,das quais, rumavam para o Funchal à espera de paquetes que as levassem para qualquer parte onde houvesse Deus e terra para lavrar ,pois nem as obras públicas lançadas para evitar a demandada, como no tempo do Governador José Silvestre Ribeiro( set 1846 a dez de 1852 ), se tornaram eficazes para os “amarrar” à ilha .
Esta segunda metade do Séc. XIX, marca um ponto de ENCONTRO na História da Emigração Madeirense porque as emigrações dos séculos passados para o Brasil, para as Américas, do Norte de do Sul, para o Mar do Caribe e para o Hawai mantinham-se e a nova emigração para as ex-colónias portuguesas e para África do Sul iniciavam-se ou ganhavam definitiva expressão.
COMO ERA, ENTÃO, O PORTO DO FUNCHAL?
No mês de janeiro de 1898, pode ler-se nos vários matutinos da época, o intenso movimento portuário:
Saídas do porto do Funchal paquetes para Inglaterra e para Southampton todos os sábados, para Liverpool, quinzenalmente, às quartas-feiras. Paquetes da Woermann Line de Hamburgo para a Madeira no dia 10 de cada mês. Paquetes da Hamburg-Südamerika-Damphechiffahrst também de Hamburgo para a Madeira nos dias, 10 e 20 de cada mês. A Srutton, Sons & C. sairia com destino a Londres com o navio “Nonpareil”. Que a Société General de Transportes Marítimes a Vapeur rumava ao Rio de Janeiro, Santos, Montevideo e Buenos Aires com o paquete “Les Alpes”. A Castle Line embarcara passageiros com destino à Inglaterra. A Woermann Line que ligava semanalmente a região a Hamburg anunciava preços competitivos. O “Tantallon Castle “comandado pelo capitão Duncan, do qual falaremos mais tarde, seria esperado vindo da Cidade do Cabo com destino a Londres. O “Scot” vindo também do Cabo, com destino final de Southampton, chegaria no fim de semana seguinte. O “Briton “com origem, igualmente, na Cidade do Cabo seguiria em direção a Southampton nos dias 24 e 25 desse mês de janeiro. A Castle Line com destino a Londres. A Woermann Line para Hamburg, A Forwood Brothers & Company para Londres. Para o Havre o vapor “Colonie” da Companhia Chargeurs Réunis que unia as duas cidades com a frequência quinzenal, etc.
Passageiros para Demerara, Berbice e Suriname. Para Barbados, Trinidad, Grenada, S. Vicente, Sta. Luzia, Dominica, Antígua e St. Kits seguiram a bordo do “Saba”. A Red Cross Line mantinha a rota para Liverpool via Lisboa. A Royal Dutch West Indias Mail mantinha como destinos Suriname, Demerara, Trindade, Barbados, Venezuela, Haiti e New-York. A Nordeutscher Lloyd para Pernambuco, Rio de Janeiro e Santos. Existiam ligações regulares para o Brasil, particularmente para S. Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais e para todo o mundo madeirense.
No D.N de outubro de 1889 pode ler-se; “É esperado neste porto nos dias 6 e 7 do próximo mês de janeiro o paquete Hermann da Companhia Lloyds Bremen a fim de receber passageiros para qualquer das províncias do Brasil. A bordo dos paquetes d’esta companhia que são de grande velocidade e lotação o tratamento dos nossos clientes é o melhor possível dando-se vinho duas vezes por dia. Dão-se passagens GRATUÍTAS a famílias de trabalhadores do campo, ou a homens sós, que queiram ir trabalhar para qualquer daquelas províncias e, nelas, se dedicarem à agricultura. Não há contrato algum; os emigrantes são completamente livres para escolherem colocação e se empregarem onde melhor lhes convier sem terem de pagar indemnização alguma. Tratar no escritório de M. A. Silva Passos, Rua das Murças 59 “
No dia D. N. do dia 14 de janeiro de 1890, pode ler-se: CONVITE – Autorizado pelo ex.mo Governador Civil do Distrito, venho por este meio, convidar os colonos que subsidiados pelo governo, tem de se seguir viagem para a Colónia de Sá da Bandeira no distrito de Moçâmedes para comparecerem no Consultório Médico Municipal situado à Praça da Constituição no edifício do Hospital da Misericórdia todos os sábados pelas 10 horas da manhã para serem vacinados “.
A fuga à “má sorte “e o início dos passaportes com base na Tese de Mestrado de Maria Cristina Martins, a Emigração Madeirense à luz das Certidões de Passaportes (1851-1861) tendo em conta as Certidões dos Regedores de Freguesia para Passaportes que a expressiva maioria (94,95%) dos requerentes de passaporte dirigiam-se à América,; “que emigravam sobretudo homens, geralmente, solteiros e adultos jovens”: e que as razões que apontavam relativamente à saída seriam, maioritariamente ,estas : “de serem chamados”, “ de irem ter com “, “ de serem pobres”.
“Já na primeira metade do século, assistiu-se ao lançamento de uma verdadeira imagem da Madeira potenciadora da sua futura vocação turística” (Benedita Câmara, Economia da Madeira 1850/1914) e eram proporcionados veleiros construídos expressamente para efetuarem o trânsito de passageiros para esta região.
A partir do final do Séc. XIX os navios correios britânicos em direção à África do Sul passaram a ter maior expressão. Por volta de 1900 saiam mensal e regularmente daquele país e em direção a esta cidade, reportando-se apenas à Castle Line e à Union C. cerca de 10 paquetes, dos quais só parte escalaria regularmente o Funchal. As próprias companhias procuravam angariar clientes entre pessoas que se encontrassem deslumbradas com as riquezas dos minérios sul-africanos. A duração da viagem era de 4 dias entre a Inglaterra e a Madeira e entre esta e a África do Sul de 8 a 10 dias.
Cartão de bagagem – Mala Dr. Francis Zino “saímos de Londres pelas 16h00 e chegávamos a Madeira, depois de percorridas 1400 milhas, pela madrugada do quarto dia de viagem”
PERIODOS DA EMIGRAÇÃO MADEIRENSE PARA A ÁFRICA DO SUL
1 – ÚLTIMO QUARTEL DE OITOCENTOS (Séc. XIX)
(A cidade do Cabo pioneira da emigração madeirense. A aventura dos navios. A instalação no Cabo. A agricultura, o comércio e a subida de comboio para o Transvaal)
2 – ANOS QUARENTA E DEPOIS DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
(Para escaparem às dificuldades da Guerra. A ajuda de D. Teodósio Clemente de Gouveia [1889-1962]. A grande fatia e a contribuição da emigração madeirense [70%] no contexto da emigração portuguesa)
3 – A DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA
(independência das ex-colónias portuguesas de Angola e Moçambique/1975)
- A caminho da Africa do Sul
PRIMEIRA EMIGRAÇÃO MADEIRENSE PARA A CIDADE DO CABO
Parecem não existirem dúvidas, pelos trabalhos académicos a que tivemos acesso, que os primeiros madeirenses terão chegado ao Cabo da Boa Esperança por alturas da Primeira e da Segunda Guerra Bóer, entre 1880/81 e 1899/1902, respetivamente e no Domínio Britânico.
Época histórica essa, que se seguiu às Colónias Britânicas e Holandesas, no tempo da “grande jornada” (Great Trek) e dos “Voortrekkers” (cujo Monumento está localizado ao sul de Tswane, antiga cidade de Pretória), à descoberta das riquezas minerais e à resistência dos Böers.
Nesse tempo, a cidade do Cabo, fundada pela Companhia Holandesa das Índias Orientais (1652) era a capital da Colónia Britânica do Cabo, depois da Guerra Anglo-Holandesa ganha pelos ingleses em 1795. Portanto, os primeiros madeirenses a chegarem à bonita Cidade do Cabo ainda antes da Fundação da União Sul-Africana (31 de maio de 1910) que incluía a Colónia do Cabo, a Colónia de Natal, a Colónia do Rio Orange e o Tranvaal.
1 – [1872 – 1900]
No Índice de passaportes emitidos, no último quartel de oitocentos, entre 1872 e 1900 (27 mil registos), verificamos que: a expressiva maioria da Emigração Madeirense dirigia-se para a Guiana Britânica (Demerara – colónia da Guiana Britânica desde 1831); para o Havai; para o Brasil; para os Estados Unidos da América e só finalmente para o Cabo da Boa Esperança. (nos navios da Union Line, fundada em 1853 antes da fusão com a Castle Shipping Line)
Como já referido, as condições de vida na Madeira eram quase desumanas, a miséria absoluta grassava. As aluviões e a penúria eram tais que nenhuma medida governamental era capaz de evitar a “fuga” das nossas gentes, nem mesmo as medidas de os trazer, gratuitamente, de volta resultaram.
[1878]
Alguns estrangeiros residentes na ilha pediram passaporte para o Cabo da Boa Esperança, como o senhor e a senhora Duncan, este comandante de navio.
Outros ingleses, também adquiriram passaporte para viajarem na UNION CASTLE LINE (South & East Africa) com destino à base naval de Simon’s Town, perto de False Bay no Cabo Ocidental.
Union Castle Line (fundada a 8 de março de 1900)
(Londres e Southampton para a cidade do Cabo) (17 dias da origem ao destino; 13/14 dias a partir da Madeira) todos tinham o nome de Castle; Cape Town Castle 1938, exemplo)
Foram nestes navios que viajaram para a Madeira, Winston Churchill e Margaret Thatcher.
(o barco de chaminé vermelha e preta, vindo de Southampton, chegaria pela manhã, ainda cercada de neblina, à cidade que dormia com as velas acesas e os candeeiros das estradas depois de três dias e meio de viagem)
(Uma viagem de 13/14 dias para cumprir cerca de 4500 milhas náuticas que, por volta de 1930 custava 2.652 escudos)
[1722]
“O primeiro verdadeiro imigrante português, desembarcou no Cabo em 1722 e entrou ao serviço da companhia Holandesas das Índias Orientais. Chamava-se Inácio Ferreira e era natural de Lisboa, sendo o ancestral dos afrikaners de apelido Ferreira.”
(Segundo nos diz o Dr. Paulo Bessa no livro a Comunidade Lusíada em Joanesburgo – maio de 2009)
[1867]
A descoberta dos diamantes
[1872]
A descoberto do ouro. Milhares de europeus confluíram para Africa do Sul.
Primeiro destino, a Cidade do Cabo, com Madeirenses, sobretudo para o setor pesqueiro, ingressando posteriormente nas províncias do Transvaal e Orange Free State, atraídos pelas riquezas minerais.
[1897]
António Pereira, natural da Fajã de Ovelha saiu rumo à cidade do Cabo neste ano de 1897 e foi o mais antigo registo que encontrei. Com datas anteriores, poderão ainda ter acontecidos embarques, mas poucos creio eu.
Em 1898, Agostinho de Ponte de Santo António, natural do Estreito da Calheta sai com destino à cidade do Cabo e, neste mesmo ano muitos outros madeirenses. Da Fajã de Ovelha, António Correia Falcão. Do Estreito da Calheta, o António Ferreira. O António José Fernandes vem de São Vicente para o Funchal à espera de embarcar para o Cabo da Boa Esperança.
[1900]
Carolina de Jesus, natural do Arco da Calheta vai para Durban: Abel Rodrigues, natural de São Martinho para o Cabo (1903); Abraão das Mercês Pita, natural do Monte sai (1904); Agostinho da Silva Relva, natural da Ponta do Sol sai em 1902 e Agostinho de Agrela, natural do Estreito da Calheta sai em 1901 rumo à mesma cidade do Cabo da Boa Esperança.
Nesta época, cerca de 80% dos emigrantes madeirenses eram naturais do concelho da Calheta (Estreito; Arco; Prazeres; Paul; Fajã da Ovelha e Ponta do Pargo).
Foram com destino ao Cabo e posteriormente a província do Transvaal.
Na toponímia desta cidade do Funchal existem várias artérias com o nome da ex.- – província do Transval: Beco do Transval; Rua Nova do Transval; 2ªTravessa do Transvaal, todas na freguesia de Santa Maria Maior
[1878-1911]
A rede diplomática diz nos que existiam, registados 2270 portugueses, mas o número das autoridades sul africanas era menor, como explicarei mais tarde.
Portugueses nas Costas de África
“This is the Island. Here you will die.”
Frase repetida aos prisoneiros políticos que lá chegavam
A 11 km da Cidade do Cabo, mar adentro, a 40 minutos de ferryboat, na Baía da Mesa (Table Mountain) lá está a pequena ilha de 5,5 km de comprimento, ROBBEN ISLAND “descoberta” por Bartolomeu Dias no ano de 1488. Ilha, que serviu de base de abastecimento de navegadores portugueses, britânicos e holandeses, mas SOBRETUDO, e recentemente, de prisão política. Também para o “MADIBA “, o advogado Rolihlahla que em Língua Xhosa significa: “o que puxa o galho da árvore “, Prémio Nobel da Paz (1993) e Presidente da República da África do Sul.
Visitei a Ilha, em várias ocasiões. Quando, o ex-Presidente da Região Autónoma da Madeira, Dr. Alberto João Jardim assinou um Acordo de Cooperação com a Província do Cabo Ocidental. A primeira vez (e merecidamente) que a Bandeira da Região foi içada na praça principal daquela cidade com honras militares. E, nessa vez, a convite do Governo da província e por amável gentileza da Força Aérea da África do Sul, fomos transportados de helicóptero militar até Robben Island. Numa segunda vez, acompanhando o Ex-Secretário Regional, Dr. Brazão de Castro, de ferryboat tendo percorrido a ilha de ponta a ponta, desde a cela do Presidente Mandela, naquele que foi o seu presídio de segurança máxima, naquela ilha Património da Humanidade desde 1999, onde se combinam os santuários naturais para muitas espécies de aves e marítimas e as pedreiras a norte onde os prisioneiros trabalhavam. As visitas eram coordenadas por antigos presos políticos e mais duas outras vezes em visitas oficiais que narrarei quando chegarmos ao capítulo da cooperação política entre a região e as várias províncias daquele país.
Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador em 1434, um dos marcos mais importantes da navegação europeia e mundial, até às expedições holandesas da Companhia das Índias Orientais (VOC) e à presença britânica na ponta mais a sul da cidade do Cabo, o “país inultrapassável “passou a tornar-se fundamental para a chegada, passagem e regresso no caminho da Índia e da Ásia em geral. Só a Companhia Holandesa das Índias Orientais, constituída em 1602, com interesses comerciais nas especiarias da Ásia e na noz-moscada e cravo da Índia, só essa, é possível que tenha efetuado mais de 5.000 deslocações e usado mais de 150 navios entre o Continente Asiático e a Holanda.
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