De 14 a 24 de Agosto, um grande incêndio, com início na Serra d’Água, percorreu as montanhas da Ribeira Brava, Câmara de Lobos, Santana e Ponta do Sol. Os madeirenses sentiram novamente o pânico do lume, desenfreado e devastador. Nos meios de comunicação, foi assunto amplamente noticiado, documentado e comentado, com projecção nacional e internacional.
Da parte do Governo Regional da Madeira, a informação sobre o combate ao incêndio revelou uma avaliação incorrecta da situação inicial, descoordenação, contradições, protelamento na ajuda externa, incertezas sobre quem tomou decisões (Governo Central ou Governo Regional?), desconhecimento, relutância em suspender as férias na ilha do Porto Santo, azedumes e sobranceria, tentativas de manipulação dos jornalistas, disputas por protagonismo na desgraça…

Muito bem estiveram os presidentes dos municípios da Ribeira Brava, Câmara de Lobos, Santana e Ponta do Sol, sempre no terreno, ao lado da população, velando pelo bem comum.
Há uma realidade que não pode ser subestimada. Um incêndio, com aquelas dimensões, carece de pronta resposta dos governantes, uma decisão política, envolvida, obviamente, por sólida componente técnica. Há uma responsabilidade política na conservação da floresta e dos recursos naturais, bem como do património rural. Como tal, é assunto para ser debatido, na vigência do problema. Erram, por conseguinte, os que pretendem adiar o debate para depois do rescaldo. Não se trata de fazer política com incêndios ou no meio das cinzas, mas acompanhar de perto e discutir, na hora precisa, a actuação dos decisores políticos, perante uma situação que afecta a comunidade. Tal não invalida um debate posterior, quando estiver disponível a respectiva avaliação técnica.
Para além da gestão política do incêndio, o Governo Regional deveria ter sempre em conta as suas fragilidades: as suspeitas que, como é público, recaem sobre o seu presidente, daí a condição de arguido, e a posição minoritária do partido que o suporta, na Assembleia Legislativa da Madeira. Face a esta situação objectiva, recomendava-se uma posição humilde, dialogante, e a consciência de que um governante foi eleito e está a ser remunerado, pelo Erário Público, para servir a população, sendo, por vezes, necessário abdicar dos prazeres das férias para responder urgentemente a circunstâncias especiais. Nada disto é extraordinário ou anormal. Está legalmente previsto. Todos os anos, tanto na administração pública como no domínio privado, há trabalhadores que, por exigências imperiosas do funcionamento do serviço ou da empresa, veem as suas férias interrompidas.
Uma fotografia do presidente a descansar na praia dourada, enquanto a Madeira arde, ou a léria de um secretário regional de que ninguém tem a ver com a sua vida privada e que foi fechar a casa, constituem, antes de tudo, faltas de respeito por quem está a sofrer na proximidade das chamas aterradoras. Uma desconsideração aos madeirenses. A falta de compromisso com um povo.
Houve quem não gostasse de ver os cidadãos a se pronunciarem sobre os incêndios nas redes sociais ou na TV. Chamou-os de «treinadores de bancada», esquecendo que muitos têm longa experiência de incêndios rurais e de percursos nas serras. Por sua vez, o Representante da República, depois de confessar a sua ignorância sobre fogos florestais, o que é natural, considerou que os resultados do combate ao incêndio «foram óptimos», realçando que não foram registadas vítimas nem habitações ardidas, e não atingiu significativamente as explorações agrícolas. (26-08-2024). Valha-nos Santo Ireneu, famoso por ter escrito ‘Contra Heresias’!
Da minha parte, confesso que não sou, nem pretendo ser, perito de nenhuma área científica, muito menos de combate a incêndios, e este texto resulta, tão somente, da análise atenta ao que a media foi divulgando. Apenas mais um exercício de cidadania, no qual as ferramentas da História estão sempre presentes. Um olhar sobre a desgraça do lume e outras desgraças.
Criticou-se a retórica do alarmismo, mas quem assim falou talvez nunca teve lume próximo de casa e, desta vez, estava a banhos na ilha vizinha. O sobressalto e a ansiedade cresceram com as falhas de comunicação e a resistência manifestada pelos governantes madeirenses, quanto a reforços para apoio no combate aos incêndios (Força Operacional Conjunta, Bombeiros dos Açores e dois aviões Canadair, de Espanha).
No dia 14 de Agosto, pelas 22:40, o caminheiro Jorge Quintal publicou no grupo ‘Ocorrências na Madeira’, do Facebook, um grito de alerta e revolta, sobre o incêndio que grassava numa encosta da Serra d’Água. Decorria o arraial de Nossa Senhora da Ajuda, padroeira da freguesia. Não havia bombeiros por perto.
Transcrevo as palavras emocionadas e corajosas deste caminheiro, provavelmente a primeira voz da indignação nesta tragédia: «Estou na Serra d’Água. Mas que povo é o nosso? A serra a arder. A festa continua. O Senhor Padre continua a dar a missa, como se nada estivesse a acontecer nesta terra. Dá-se um foguete. Pega-se lume na serra. A festa continua. É pessoas lá diante, na ponta de lá, sentadas como se nada acontecesse, a comer a sua espetada, a beber as suas bebidas e a serra, a serra está a arder. A serra está a arder. E tudo isto começou com um foguete do arraial, mas Nossa Senhora parece que não está a apagar o lume. Nem Nossa Senhora, nem os bombeiros, não conseguiram. Que povo é o nosso? Parava a festa, parava isto tudo. Deixavam o arraial da mão. Muito mais preocupante é isto que está ali em cima, isto é que é de se preocupar. O que está a acontecer aqui, isto é a galinha dos ovos de ouro a pegar lume. Onde é que está este governo? Onde está o governo? Onde está uma equipa de bombeiros aqui a apagar este lume? Sou caminheiro. Ando na serra. Estou aqui. Apetece-me chorar a ver isto. Isto apetece ficar em lágrimas. Quem vê a nossa serra a arder, para quem anda na serra! Partilhem! Isto não pode continuar nesta terra, esta pouca-vergonha. Continua-se arraiais, continua toda a gente a comer, a beber. E a serra a arder. A serra está a arder! Mas que madeirenses somos nós? Mas que madeirenses somos nós? Desculpem o meu desabafo. Eu sou caminheiro. Isto dói-me. Eu ando na serra. Isto dói-me, ver isto! Nossa Senhora não apaga o lume? O Senhor Padre que venha apagar em vez de estar ali a rezar. Isto é religião? Por causa de um foguete! Desculpem o meu desabafo. Mas ser madeirense… Somos um povo que sempre lutou pela nossa terra. E isto não pode continuar, esta pouca-vergonha. Que Deus ajude a gente, que Deus nos ajude.» https://www.facebook.com/jorge.quintal.169
Afirmar, sem provas, que foi fogo posto, quando a Polícia Judiciária está a investigar a origem do incêndio florestal, pode ser interpretado como desculpa para a negligência a vários níveis, desde a limpeza dos terrenos à reflorestação. A tão falada prevenção que, mais uma vez, não foi executada. Segundo Raimundo Quintal, «tem de existir a coragem política para alterar o coberto vegetal, especialmente entre os 300 e 800 metros de altitude, onde as espécies invasoras e pirófilas ocuparam antigos terrenos agrícolas e convivem com as habitações.» (DN, Funchal, 24-08-2024, p. 6).
É certo que as ignições não são normais. Não aparecem do nada. Mas não é admissível a queima de fogo nos arraiais do Verão, em dias com temperaturas elevadas. As queimadas estão proibidas, e bem. Por que razão não se proíbem os foguetes? O foguetório serve para quê? De certeza, que já não se usa, como antigamente, para comunicar à vizinhança o arraial da freguesia. É preciso mudar hábitos que, noutros tempos, teriam alguma justificação, mas que hoje são desnecessários e prejudiciais. Os párocos deveriam ser os primeiros a explicar aos fiéis que não há necessidade de queimar dinheiro. Deus e os santos dispensam foguetes. Mas enfim… corre muito dinheiro vivo nos arraiais madeirenses.
Nestes dias, o combate aos incêndios foi, vezes sem conta, explicado como um sucesso, devido à inexistência de mortos ou feridos e a não destruição de habitações ou infraestruturas públicas essenciais.
A evacuação da Fajã das Galinhas, pela escarpa e o acesso viário não oferecerem condições de segurança, constitui uma grande preocupação para o edil de Câmara de Lobos, já conhecida, mas que o incêndio pôs a descoberto. São cerca de 125 pessoas que necessitam de habitação, noutro lugar.
Deixar arder, não pode ser considerado um êxito. Lembro-me de, nos anos oitenta do século passado, um secretário regional da Agricultura comentar, com desdém, um incêndio na zona oeste da Madeira: «Sim, há um grande incêndio na floresta, mas ainda há muito verde por queimar.» A ignorância atrevida chegou a esse ponto!
Os decisores políticos actuais quase nada disseram sobre aquela «galinha dos ovos de ouro», de que falava o caminheiro angustiado. Quem conhece o terreno e guia turistas pelas montanhas da ilha, sabe do que está a falar.
Ardeu o coberto vegetal das ravinas. A Laurissilva foi atingida, principalmente, na Encumeada, Lombo do Urzal e na área sobranceira ao Caldeirão Verde. Arderam zonas da Rede Natura 2000 e do Parque Natural da Madeira. Mais de 5000 ha de floresta foram devorados pelo fogo. Ecossistemas destruídos. Valores da nossa diversidade vegetal e faunística desapareceram. Muitas levadas e veredas intransitáveis. Desnudaram a paisagem. E de negro a cobriram. Feia e escura até o verde regenerador de uma Primavera distante. Que não sei se chegarei a ver!
Com a chuva, o desprendimento de rochas trará maiores preocupações. Aluviões e derrocadas costumam ocorrer após os incêndios. De 2010 a 2024, conforme o investigador João Baptista, foram 41 000 ha de área ardida e reardida. (DN, Funchal, 26-08-2024, p. 29). Que consequências terá tudo isto para a ilha? E para a Economia e o Turismo? Ouvi um turista no supermercado dizer à empregada da caixa: Madeira never again. Mas também escutei, e até estranhei, o secretário da tutela afirmar que não se verificaram cancelamentos nas reservas de alojamento. As estatísticas apresentarão a sua verdade!
O CDS propôs uma Comissão Técnica Independente para avaliação dos Incêndios que eclodiram na Madeira em Agosto de 2024. À partida, trata-se de uma boa iniciativa. Miguel Albuquerque já comentou: «Não tem nenhum problema, acho que podem averiguar o que quiserem», porque as decisões foram tomadas em função da experiência da Protecção Civil e dos ditames técnicos. No entanto, segundo o que veio a público, o papel da Comissão não se limita a investigações. Deve também recomendar medidas acerca do ordenamento territorial. Mas qual será o destino dos relatórios da Comissão, se, de facto, vier a ser constituída e produzir documentos estratégicos? Um dos grandes problemas, nesta área, mas não só, é que o saber técnico é desprezado pelo poder político.
No mito da criação da Humanidade, narrado no livro do Génesis, Deus proibiu que fosse comido o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eva, incentivada pela serpente, comeu esse fruto e partilhou-o com Adão. Quando Deus quis apurar a responsabilidade da ingestão do fruto proibido, Adão passou a culpa para Eva, e a mulher confessou que a serpente a havia enganado, por isso comeu o fruto do jardim no Éden. Sendo assim, Deus castigou a serpente.
Na Madeira, quem serão os culpados dos incêndios que, mais uma vez, queimaram a ilha? Por favor, não me venham dizer que foram as lagartixas.
Agradecimentos: a todos os que combateram os incêndios; a Leandro Soares pelas fotografias que ilustram este artigo.
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