Memórias: “Vai fechar a porta!”

Rui Marote
Tenho memórias escritas que estão no congelador a aguardar saída, uma vez que esta rubrica é semanal.  Mas não faltam episódios.
A memória desta semana sai da fornalha e está bem quentinha e presta homenagem a uma instituição que faz 100 anos, a Casa de Saúde de São João de Deus, conhecida por Trapiche, local onde está situada.
Há episódios caricatos na vida de um jornalista que não se apagam. Conhecia o Trapiche principalmente pela realização do maior presépio ao vivo na Madeira.
Todos anos fotografava o mesmo e ilustrava as páginas do Jornal da Madeira.
Recordo o Irmão Pimenta com um molho de chaves, abrindo e fechando portas, e percorrendo ao longo dis corredores os “quadros” do presépio, em que os actores  eram os doentes daquela casa.
Trapiche era a “casa dos loucos”, como era conhecida. Uma simplificação das doenças mentais. Em jovem, era costume, quando alguém ficava endiabrado, dizerem jocosamente: “- Vou telefonar para o 300 e vem aí o Irmão Alminhas buscar-te…”
Quando fui deputado municipal, propus uma medalha ao médico que estava nas bocas dos madeirenses: Aníbal Faria. Era tema de conversa à hora das refeições na casa dos meus pais, havia sempre histórias. Nos anos 50 e 60, pessoas com perturbações mentais e com possibilidades monetárias elevadas deslocavam-se ao continente para consultar um psiquiatra. Acontece ao lá chegarem lá o médico que as atendia perguntava ao paciente: De onde vem ? Da Madeira… Ora, regresse porque o melhor médico está na vossa terra, respondiam.
A condecoração a este ilustre psiquiatra foi todavia chumbada pela maioria laranja.  Um dia explicarei o motivo.
O titulo desta memória é “Vais fechar a porta” por causa dum episódio caricato. Então ao serviço do DN, o ex-director Sílvio Silva incumbiu-me de tirar uma foto à Casa de Saúde de São de Deus. Não propriamente ao edifício: queria uma foto que pudesse retratar o tema de uma instituição de portas abertas.
É que nessa altura os doentes eram livres de se movimentar (exceptuando os casos problemáticos), e vinham ao Funchal, tomavam o seu café no Apolo e regressavam à hora do almoço.
Ao cumprir a tarefa de que fui incumbido, fotografei a porta de ferro meia aberta,  vendo-se o edifício através das grades, e, deixando a porta aberta, fui-me embora.
Passados uns dias, o excelente médico Dr. Saturnino, discípulo de Aníbal Faria, que conhecia bem e com quem falava sempre que me encontrava, passou por mim e exclamou: “Vais fechar a porta”.
Achei graça, mas diz o ditado para ter graça uma vez basta. E assim a frase “Vais fechar a porta” eternizou-se e repetiu-se centenas de vezes, até que cheguei ao ponto de quando o via ao longe, mudar de passeio. Porém, havia vezes que não podia evitar o contacto e ouvir a malfadada repetição “Vais fechar a porta”.
Certo dia no Porto Santo, na praia cruzei-me com o Dr. Saturnino por  debaixo das colunas do cais. Fatalmente voltou a pronunciar, irónico:  “Vais fechar a porta”.
Já farto, disse a mim mesmo: não é tarde nem é cedo. Vou enfrentar o “gigante Golias” sem funda mas com espírito de David.
E respondi, irritado: “Chega! Quando vai parar com isso?”
Inicialmente surpreso, o “gigante” amansou… E hoje continuamos a falar e a trocar conhecimentos de viagens.
Estive recentemente na Casa de Saúde de São de Deus, quando visitei o “Said”, emigrante sul africano. Não é o Trapiche que eu conheci há 40 anos: por comparação, é um “hotel” de cinco estrelas que dá vinte a zero a outras instituições.
E completa agora 100 anos. Daqui manifesto aos que lá laboram os melhores desejos. Que os seus projectos sejam um sucesso. Porque vêm ao encontro das necessidades da comunidade madeirense.

Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.