Com a sua caneta Parker 61 e, numa letra bem desenhada, o escrivão registou nos Anais da Diocese: «Nesta primeira quinta-feira do mês de Agosto do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e vinte e quatro, dia da solenidade do doutor da Igreja, Santo Afonso de Ligório, o Reverendo Bispo, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, saiu do seu Paço, pela tarde, sem batina ou outras quaisquer vestes episcopais. Trajava camisa escura de meia manga com colarinho e calças da mesma cor, devido ao calor intenso. Deslocava-se a fim de participar na cerimónia da partida do Rali».
Pensativo, interrompeu a escrita e descansou a caneta. Não se lembrava da presença de outro prelado no início de uma prova automobilística. Conhecera já cinco na sua diocese. Não, não se recordava de um bispo na rampa de partida, no meio das autoridades civis, a cumprimentar pilotos e co-pilotos. Talvez a sua memória começasse a falhar. Interrogou-se sem temer, nem alcançar certezas. No entanto, deu graças ao Senhor pelas muitas e fiéis lembranças, que a sua provecta idade conservava.
Tantas vezes escrevera ter o prelado saído em visitação «para arrancar os vícios, plantar as virtudes, conduzir os fiéis à verdadeira caridade e inocência que fazem o carácter de um cristão…» Aplicava frequentemente estas frases-modelo em outros e bem diversos contextos, para justificar expedientes da autoridade diocesana. Contudo, agora a sua mão recusava as célebres palavras de um cónego regrante de Santo Agostinho, escritas no século XVIII.
O registo ficara incompleto. Faltava esclarecer, no âmbito pastoral, o motivo da presença do bispo naquele acontecimento. Mas qual?
Não lhe parecia adequado argumentar que fora arrancar os vícios, com motores acelerados, prontos para a partida. Apesar de ser o dia do padroeiro dos Confessores, tal desígnio não se ajustava às circunstâncias. Plantar virtudes também não seria o caso. O terreno era pedregoso e cheio de espinhos e «chega Satanás e tira a palavra semeada», conforme narrou o evangelista Marcos, que também acrescentou: «os cuidados do mundo, a sedução das riquezas e as restantes ambições entram neles e sufoca a palavra, que fica infrutífera.» (Mc 4,19). Por ali, também o prelado não poderia conduzir os fiéis à verdadeira caridade nem à inocência. Eram propósitos impróprios ou inconvenientes para os presentes. Caridade já os contribuintes tinham feito ao Rali, com as mãos governamental e autárquica. Quanto à inocência dos fiéis, entendia ser matéria de confessionário, sobre a qual imperava o segredo.
Confrontado com estas dúvidas, o velho escrivão ainda procurou saber se participariam equipas do Vaticano ou de padres jovens amantes do desporto. Nada constava a esse respeito, por isso descartou a hipótese de o bispo ter ido mostrar solidariedade ao automobilismo da sua Igreja.
O escrivão era um padre com muita sabedoria e versado em História. Desdenhava a presença do bispo em inaugurações e outras cerimónias profanas, acolitando o poder político e económico. Prezava a separação da Igreja, do Estado. Considerava esses ajuntamentos e convivências como sinais da pobreza de horizontes dos episcopados. Todavia, suportava em silêncio tamanha promiscuidade. Estava incumbido da redacção dos Anais da Diocese, não da agenda do prelado.
Enquanto verbalizava em surdina esses pensamentos, veio-lhe à mente as instruções de um anónimo a D. António Jorge de Melo, escritas por volta de 1676. Tendo em conta a sua experiência, o autor da Instrução pretendia dar, ao governador recém-nomeado, linhas de actuação na sociedade, a fim de evitar conflitos, manipulações e favorecimentos. Entre muitos conselhos, recomendava um certo recato no convívio com os poderosos, evitando determinadas visitas e recusando certas prendas.
Nas numerosas vezes que o padre-escrivão mencionava a Instrução, sempre lhe diziam que tais cuidados se referiam ao século XVII e que hoje tudo era bem diferente. Com serenidade, invariavelmente respondia com voz calma: «Pois será!».
Decidido a concluir o registo que deixara inacabado, pegou na caneta e escreveu contrariado: «[…] deslocava-se a fim de participar na cerimónia da partida do Rali, por sempre agradecer a Deus os convites para se irmanar com as autoridades em eventos memoráveis, prestigiando assim a dignidade episcopal e o nome da Madre Igreja, ab initio serva e devedora de governantes e principais, magnânimos benfeitores que, na terra, enobrecem Templos e sustentam presbíteros, e, para o Céu, espelhos são da puríssima fé católica. A tão ilustres filhos, o bispado procurava corresponder, por certas razões, antes das demais ovelhas do seu rebanho, com fidelidade, amizade, compaixão, bondade, humildade e paciência, incitando todos os fiéis a proceder de acordo com estes caridosos princípios, para bem da Igreja, da concórdia e da salvação.»
Nem releu. Fechou o livro e murmurou, com desdém, Vale, a habitual despedida epistolar em latim, que aqui poderia ser traduzida por Passa bem.
Guardou a caneta no bolso da batina, levantou-se com dificuldade, arrumou a cadeira e caminhou recitando uns versículos da primeira Carta Pastoral a Timóteo: «Mas tu, ó homem de Deus, foge dessas coisas. Procura antes a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e da qual fizeste uma bela profissão na presença de muitas testemunhas.» (1 Tm 6,11-12).
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.







