Verticais e discretos

Precioso é o livro, ainda que eu não o tivesse lido. Arrumado na estante, vertical e discreto, aguarda pacientemente que alguém o descubra. Hoje vejo-o entre os vários adormecidos no tempo da espera e procuro as palavras que me são dadas com a ansiedade de quem parte para uma viagem. ViAGEM é o nome exuberante que faz parte do titulo, com o necessário realce para que seja rapidamente notado. «Livro de VIAGEM», assinado, Fernando Pessoa. E distingo a frase que me provoca, no bom sentido da inspiração: «…O que foi não é nada, e lembrar é não ver. Passa, ave, passa, e ensina-me a passar».

As viagens constituem um aliciamento irresistível e aqueles que as fazem trazem na bagagem de volta as mais variadas sensações que o acto de ver proporciona. Transportam um espólio de imagens registadas na agenda mágica do telemóvel, para que a posteridade não duvide dos relatos exaltados em breves convívios, sempre redutores, mal alinhavados, apesar das boas intenções na partilha do prazer. Tudo porém soa a um adejo, um rasto de asa que por momentos rasgou o vento e do qual nada mais resta do que a «recordação». E a recordação é o nada do que foi, segundo o pensamento pessoano, é «uma traição à Natureza», porque lembrar é não ver. Ainda ontem fui a Veneza, ainda ontem estive em Florença, ainda ontem visitei Paris, monumentais cidades alucinadas capazes de despertar grandes paixões. Assim, as montanhas e escarpas da ilha atlântica que avisto da varanda. Vejo-as, muito próximas, a Natureza está diante dos meus olhos, na terra que habito desde que nasci. Outros olhos se encantam por ela, à semelhança dos meus.

Os viajantes percorrem o mundo e vão e transportam consigo, refletidos na memória, o esplendor das paisagens, o brilho dos rios, o calor das praias, a cor das ruas, o aconchego das aldeias e caminhos serranos, a história dos povos na sua diversidade, tudo é visto com a avidez de quem procura mitigar uma míngua de espaço e horizonte.

O tempo da viagem é um tempo de fascínios, de festa, de descoberta, em que cada um parece sair de si para ser outro, em que cada um se procura na dimensão do privilégio e se transforma por momentos num habitante do sonho, pactuando com o efémero e a ilusão, chamando a isso de «felicidade» ou «epifania». São momentos em que o mundo se amplia, se multiplica, e em que a vida se apresenta nas mais variadas versões, na medida das diferenças culturais dos lugares visitados e na diversidade das paisagens oferecidas pelas várias latitudes. Fernando Pessoa viajava da janela, porque era um habitante permanente do sonho e porque era um polímato do sentimento, um ser excessivo.

Dizia de si que «tendia em todas as direções para todos os lados do espaço»…sou uma grande máquina movida por grandes correias…o resto vai para além dos astros, para além dos sóis…. Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no universo… com um lenço branco digo adeus aos meus versos que partem para a humanidade…Atravessa esta paisagem o meu sonho de um porto infinito.» Para o poeta, sentir era a sua maneira de viajar. Os livros são prolíferos contentores de memórias, onde o acto de ver se traduz em cenários onde decorre todo o tipo de ações e experiências oculares, onde a ficção adquire muitas vezes dimensões poéticas e por isso, ler é também, de certa forma, viajar. Há cenários puramente imaginados, paisagens fictícias criadas a partir da montagem de fragmentos captados de imagens fotográficas, autores que não tendo visitado certos lugares falam deles com a verdade da sua própria fantasia. Toda a experiência dos criativos pode tornar-se na realidade da obra imaginada.

«Trair a Natureza» conforme afirma Fernando Pessoa é simplesmente a forma paradoxal de consignar a sua liberdade poética e não corresponde ao sentimento de quem realiza longas viagens, bebendo da Natureza as delícias que ela lhe oferece, quer seja percorrendo as ruas duma cidade, quer seja dando a volta à sua aldeia, quer seja recordando ainda um passado de trota-mundos, trazendo ao presente as memórias que lhe terão proporcionado momentos de felicidade.

Ver, afinal, é também poder recuperar imagens doutras épocas que, em alguma vez, terão tido significado em suas vidas. Verticais e discretos aí estão livros meus esperando, na estante, que de vez em quando eu abra as suas páginas e recorde, entusiasmada, algumas voltas que dei pelo mundo e outras que apenas poderei imaginar, igualmente aliciantes e provocadoras.

Agosto, 2024 Irene Lucília Andrade


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