
*Com Pedro Encarnação, Romeu e Melissa Vieira (texto e fotos)
Susana e João Vacas é o casal que constitui a alma da Bordal e os rostos do sucesso da empresa na Madeira e no mundo. Há pouco mais de duas décadas, pegaram na empresa com 150 anos de existência, em situação de falência, sem qualquer organização e com preços de venda incorretos. Foram atrás de um sonho: agarrar do zero a empresa e com metade dos trabalhadores (eram 40), neste momento são 20 funcionários, deram a volta à empresa e os resultados da faturação subiram exponencialmente.
Ver mundo
Neste momento, contam com 400 bordadeiras de casa que trabalham à peça. De palavra fácil, olhar vivo e voz arrojada, Susana Vacas conta o segredo da reabilitação da empresa: ver mundo. Durante 10 anos, explica que visitaram no estrangeiro as feiras das casas mais importantes, encetaram contactos, trocaram impressões e encontraram clientes novos e sólidos em Nova York, Paris, Suíça e Itália, muitos deles até hoje. Outro passo decisivo: implementaram uma base de dados de controle da produção no programa acess que foi e continua a ser útil ainda hoje. Quando ainda ninguém falava de informática, a Bordal arrancou com a sua base de dados on line, fundamental para os registos comerciais, encomendas e faturação. Se hoje for à base de dados, consegue saber o cliente x que comprou o produto y há 25 anos. Há duas décadas foi uma verdadeira revolução em termos de controle de produção e de organização. Curiosamente, quando se deslocavam às feiras, há mais de 20 anos, levavam o portátil com a sua base de dados, o que na altura era atípico. Na hora, já indicavam preços de tudo e a dinâmica passou a ser outra.

Por isso, o espírito visionário deste casal tem sido a mola fundamental do crescimento da empresa e afirmação no mercado. A transformação comercial foi necessária, sobretudo com a venda de um produto muito específico. Apostaram nas encomendas dos trabalhos com uma sinalização à cabeça por parte do cliente, o que permitiu também ajudar no financiamento da produção.
A imagem de marca
Susana Vacas recorda que foi preciso pensar numa estratégia importante de divulgação de uma empresa escondida num primeiro andar. Pensaram em diversas formas de divulgar, desde atirar toalhas pela janela, até que a equipa descobriu o “ovo de Colombo”: colocar à entrada uma bordadeira. Promoção com alma. Desde então, as vendas aumentaram. Por isso, pode-se até falar de uma Bordal antes de 8 de abril – quando a bordadeira passou a estar na entrada – e depois desta data. Uma imagem de marca muito forte que atrai muita clientela.
Neste momento, a empresa continua a crescer. O setor tem vindo a diminuir mas esta empresa, que se reinventa diariamente, tem vindo a crescer. Hoje é praticamente a única fábrica ativa na cidade, embora o Sr Barreto também opere na área, mas mais por carolice. “Chegámos a ter no Funchal 100 fábrica de bordados, conforme estudos do historiador Alberto Vieiras. A crise levou ao encerramento de centenas de fábricas. A única fábrica visitável é a da Bordal, daí o grande afluxo de gente”.
O segredo deste crescimento da empresa está muito ligado a uma aposta fortíssima na inovação, coleções originais e criativas, desenhadas pela imaginação fértil de Susana Vacas. Além disso, associam-se aos eventos turísticos da cidade, como por exemplo, as mesas de Natal, há uma década. Por outro lado, passaram um ano na rua a divulgar a sua produção. Por exemplo, em Lisboa, têm um elétrico histórico bordado à mão, que demorou um ano a ser confecionado, com uma extensão de cinco metros. Algo riquíssimo, criativo e a expensas próprias da empresa. Tudo apostas na divulgação da Bordal.
Os clientes são muitos e diversos, desde alemães, americanos, italianos, ingleses, entre outros. Os americanos são um cliente com maior capacidade financeira e com gosto. Os brasileiros também compram muito.
Bordadeiras ganham mal
Susana e João Vacas estão conscientes de que as bordadeiras de casa ganham mal. Quem define o valor é o governo. Na reunião de janeiro, a Bordal sugeriu um aumento de 10 por cento. Mas ficou estipulado outro valor abaixo, no entanto, a empresa procura colmatar pagando acima da tabela ao pessoal. Por isso, o produto é caro para poderem pagar mais ao pessoal.
Além do mais, a grande dificuldade com que a empresa se defronta é com a falta de bordadeiras para dar resposta às encomendas. Os centros de interesse da população mudaram e há uma falta tremenda de mão de obra, isto é, bordadeiras comprometidas com um trabalho meticuloso e de qualidade.
Os apoios oficiais são praticamente inexistentes. Mas a Bordal não fica à espera dos subsídios oficiais para trabalhar. Recorrem aos fundos comunitários para viabilizar os seus projetos, após estudos de mercado. As Mesas de Natal, Elétrico de Lisboa em Bordado Madeira são projetos da autoria da Bordal, totalmente custeados pela empresa. Contam sim com a presença das autoridades oficiais, o que também é importante na divulgação da empresa.
Despedimo-nos dos gestores da Bordal, sendo percetível a energia e amor que dedicam a esta atividade. Simpatia e criatividade abrem portas e o desejo de inovar através do conhecimento do que os outros fazem lá fora. Um intercâmbio de saberes muito frutuoso. Pelas 15h30, turistas mexiam nos produtos ordeiramente espalhados nas mesas. Num mundo cheio de bulício e indústria padronizada, continua a haver lugar para o bordado de qualidade, o inconfundível Bordado Madeira.
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