As Forças Armadas não são reformatório nem casa de reclusão…

Esteve no falatório esta semana o nomeado Ministro da Defesa defender que o serviço militar poderia ser uma alternativa para jovens que cometem pequenos delitos, em vez de serem colocados em instituições. Isso reavivou-me a memória. Há 54 anos deixei o serviço militar obrigatório. Em 1966 aguardava no Funchal a minha entrada no curso de sargentos milicianos em Tavira. Esta escola estava com um atraso de cerca de dois anos. Resolvi alistar-me como voluntário para a Província de Moçambique. Na altura era chefe dos escuteiros do Grupo 88 no Socorro. Pedi uma audiência ao Governador da Madeira, Inocêncio Camacho de Freitas, no palácio de São Lourenço.
Apresentei-me fardado de escuteiro, na parte da tarde. Manifestei o desejo de ir para Moçambique  para cumprir serviço militar naquela ex-colónia. Porém, não tinha dinheiro para a passagem marítima. O governador gostou da minha história, telefonou para agência Blandy para saber qual seria o próximo paquete. Era “Príncipe Perfeito”. Esclareceu também qual o preço da passagem.
Camacho de Freitas retirou um quadro exposto na parede. Atrás da sua secretária onde estava um cofre de parede. Contou oito notas de 100 e colocou nas minhas mãos 800 escudos, o preço de uma viagem em 3ª classe, e disse-me: Boa viagem. Vá à agência e pague a passagem, que está reservada em seu nome.
Saudação escutista e em passe de corrida fui de imediato à Blandy.
Passagem na mão… agora só faltava dar conhecimento aos meus pais da minha aventura. Dito e feito: em vez de ir para Tavira vou para Lourenço Marques. A minha mãe não gostou muito e de imediato começou a comprar vestuário. Eram cuecas, meias, camisas… um autêntico dote.
Ao chegar a Lourenço Marques fiz a apresentação no centro de recrutamento da minha cédula de incorporação.
Deixei o meu endereço era finais de Junho e o próximo curso na Escola de Aplicação Militar de Boane era em Setembro. Fiquei dois meses e meio de praia e ambientação.
Acontece que nos fins de Agosto recebi uma carta registada do distrito de recrutamento de Lourenço Marques. Sou informado que deveria apresentar-me de imediato em Tavira. Caso não o fizesse era refratário.
Não tinha dinheiro para regressar. Avisei a minha mãe do sucedido: estava num beco sem saída. É caso para dizer primeira forma… e ainda nem tinha entrado no exército.
Na altura os meus pais e irmãos viviam na Rua Bela de São Tiago nº 30. No final da da mesma rua vivia o segundo governador militar, coronel João Carlos Sousa  a quem a minha mãe contou a história…
A solução era aguardar até Setembro para ser incorporado em Boane. Todos os dias aguardava que fosse preso. Mas na primeira semana de Setembro recebi uma carta da minha incorporação na Escola Militar.
Fiz quatro meses de recruta e mais cinco meses de especialidade de atirador. Passei o curso com a nota de 14.7 valores. Dei uma recruta a praças “indígenas” e fui mobilizado em rendição individual para o Niassa -Vila Cabral, companhia moçambicana destacada em Olivença 3ª do 20 – fronteira com o Tanzânia.
Levei três meses para chegar de Lourenço Marques de barco até Nacala e de Comboio Nacala – Nampula-Nova Freixo e de Coluna Dondo -Vila Cabral que era a sede do batalhão. Para Olivença só de Dakota da força aérea quando efectuava reabastecimentos.
Permaneci  em Vila Cabral efetuando serviços na companhia de adidos de sargento da guarda e sargento de dia. Assim passei três meses. Eles davam preferência à carga e a minha ida para o mato era  adiada. Eu representava uma saca de arroz ou uma pipa de vinho de 100 litros.
Chegou uma altura que a saca ficou e o Rui Marote finalmente arrancou. Cheguei a Olivença, um fim do mundo. Brancos na companhia eram os três alferes, o capitão Aranha o primeiro sargento. Havia dois furriéis “pretos” e um branco Rui Marote. Os praças eram todos negros.
Era um quartel cercado de arame farpado, com um aldeamento nas redondezas. Não tinha viaturas. Só um tractor. Aqui começa a história do título destas memórias. Recordo o meu primeiro serviço: levar a minha secção a capinar.
Interroguei os meus nove homens: Há quanto tempo estás cá? – Há dois anos!
-Onde estavas antes? – Na casa de reclusão em Nampula!
Outro: há quanto tempo estás cá estás?  – Há 18 meses. E onde estavas antes? – Na  Ilha Xefina (um presídio). Era idêntica a história dos restantes. Eram todos cadastrados.
Vinha para uma comissão de nove meses. Pensei: onde estou metido, quando há pessoas aqui há anos!!!
Enfim, vamos ao trabalho. Mas, com as enxadas paralisadas, falando uns com os outros e fumando, não capinavam um metro que fosse. Eu vinha com o sangue na guelra e indignei-me: -Então vamos ou não vamos? Respondem, de cigarro ao canto da boca: “Meu furriel, o Sr. chegou agora. Isto não é para se fazer para se ir fazendo”…
A minha primeira operação foi de três dias no mato com nove homens e três rações de combate 20. Bicha de “pirilau”, expressão de calão militar, onde não tirei as divisas. Era o único branco, portanto com divisas ou sem divisas, para o inimigo era sempre o comandante.
Depois de uma hora a andar verifiquei que os meus homens não transportavam nem morteiro, nem bazuca. Exclamei onde está o material?!
Responderam: “Meu furriel, ficou numa cova junto ao quartel, nunca houve problemas aqui, os turras nunca atacaram”. Fiquei parvo.
Durante a caminhada ao longo da picada ordenei uma paragem para comer e descansar. Espanto meu, quem satisfez o estômago fui apenas eu. Porque todos os outros já tinham despachado as três rações de combate no quartel (autênticos camelos) livrando-se do peso durante os trajectos como aconteceu com o morteiro e a bazuca.
Não é fácil em zona de guerra lidar com soldados que cumprem penas disciplinares.
A minha companhia era conhecida pelos” Tigres Negros do Niassa” com um destacamento no Lipoche  – lago de Metangula.
Estes homens não tinham nada a perder. Estavam desterrados e só lhes restava respeitar as regras militares ou fugir para a Tanzânia. Mas, e para comandá-los? Não era fácil…

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