O jornalismo nem sempre é fácil. A 6 de Setembro deste ano completar-se-á meio século de um dia que jamais esquecerei, quando fui barbaramente agredido
e forçado a fugir.
A notícia sobre as conclusões a que se chegara nas conversações de Lusaka, entre o Estado português e a FRELIMO (e em que Portugal acabou por reconhecer o direito de Moçambique à independência) circulava já em Lourenço Marques, desencadeando já na tarde de de 6 de Setembro de 1974 acções provocadas por “reaccionários brancos”. As mesmas causariam tumultos em toda a cidade.
Um carro passava na Avenida da República, na baixa citadina, ostentando uma grande bandeira da Frelimo, enquanto a bandeira portuguesa era arrastada no alcatrão da avenida. E, perante isto, logo se formou uma enorme multidão com predominância de brancos, a qual incitada por alguns elementos mais excitados destruiu as fotografias de Samora Machel que os ocupantes do veículo distribuíam.
As mesmas foram rasgadas, e a multidão dirigiu-se para o edifício onde funcionava o matutino Noticias e a Tribuna, e uma vez ali, partiu as vidraças do piso do rés do chão.
A notícia desses distúrbios chegou rápido aos estúdios das Actualidades de Moçambique, que funcionava na Avenida da República, num prédio onde estava instalado o Cinema Avenida, tendo ao lado o restaurante Marialva.
O meu patrão Melo Pereira deu ordens para avançar para as instalações do Notícias e Tribuna. Munido da Arriflex cine camera de 35mm que suportava um magazine de 120m de filme, pus-me em passo de corrida. Os acontecimentos distavam de mim cerca de 300 metros.
Quando arranquei não pensei no perigo e num ápice estava no meio dos manifestantes captando as imagens da multidão invadindo as instalações do matutino. O pessoal das oficinas gráficas estava em fuga enquanto os enraivecidos destruíam parte da maquinaria.
Porém, aqui o “feitiço voltou-se contra o feiticeiro”: a minha máquina de filmar é arrancada das minhas mãos e de súbito sou agredido na face. Perante a ameaça real da turba encetei um sprint para a Avenida da República tentando refugiar-me numa da lojas comerciais com alguns manifestantes no meu encalço, enquanto o filme era retirado da máquina e destruído.
Nessa altura estava preparado até para a maratona e a primeira porta que me apareceu foi a do Hotel Avenida: passei pela recepção a voar e galguei os oito andares deste hotel. Só parei no último numa altura em que uma governanta se preparava para fechar a porta. Sem rodeios pedi-lhe por favor que me deixasse entrar e fechei a porta.
Mais tarde soube que os perseguidores foram retidos no hall do hotel. Era final de tarde e em breve escurecia. Passada uma hora e já mais calmo, deixei o refúgio do hotel e tentei sair pela entrada dos funcionários, que estava em obras ao lado do café Djambu.
Ali permaneci, porém, uma vez que as manifestações na rua continuavam. Como sair dali? Estava prisioneiro neste estaleiro já há algumas horas. Pus em prática os meus conhecimentos militares. Troquei de roupa com os indígenas que dormiam no local da obra, tirei os sapatos, e na misturadora de cimento camuflei os pés e aguardei que a argamassa secasse. Coloquei na cabeça um gorro que cobria também a cara. E num saco de cimento vazio transportei os meus sapatos e parte do meu vestuário.
Na companhia de um ajudante de pedreiro, deixei o meu esconderijo até à Avenida D. Luís, nas proximidades do Jardim Vasco da Gama, mantendo entretanto um diálogo em Xichangana, um dialeto popularmente referido como “changana”.
Descalço, cheguei ao meu apartamento na Avenida Manuel de Arriaga, 3º andar. Tinha casado há cerca de um ano e a minha mulher ainda não estava bem adaptada a África. Toquei a campainha e do lado de dentro espreitava ela pelo “olho mágico”, sem perceber quem tinha pela frente. Pergunta: “Quem é?” Respondo: – “Abre a porta , sou eu, o Rui”…
Ao abrir deparou-se com minha indumentária e ficou estupefacta: “Estás louco!!”
Foram estas e outras “loucuras” que cometi durante 50 anos e que ainda arrisco de vez em quando em certas coisas, como aconteceu recentemente na minha última viagem, às Filipinas, numa inusitada altercação com um habitante local…
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