Na Madeira nada de novo

Perante as buscas e investigação judicial que está a decorrer a altas figuras do regime que governa a Madeira há quase 48 anos, as reações têm sido diversas. Há os que foram apanhados de sobreaviso, porque estavam tão anestesiados e convencidos da retidão dos seus heróis e do triunfo eterno dos mesmos; há os que, embora conhecendo a realidade política e socioeconómica da região onde vivem, colocavam o dedo na ferida de vez em quando, mas sem acreditar muito na possibilidade da queda do que afinal está a revelar-se ser um castelo de cartas ou um jogo de dominó, até porque beneficiavam de algumas migalhas que caíam da mesa do poder; há aqueles que num passado recente tiveram a coragem de dizer em alto brado que o rei ia nu, mas a falta de estruturação e organização tornou a crítica inconsequente; há ainda aqueles que ultimamente têm feito uma oposição coerente e persistente, nem sempre apoiados pelas chefias dos respetivos partidos; há ainda aqueles que querendo combater o crescimento do Partido maioritário da Oposição, acabam por vezes por fazer o jogo do poder, embora dizendo o contrário; finalmente há aqueles que até agora têm beneficiado das benesses do poder e agarram-se como lapas à pedra desta «democratura», fazendo as contorções possíveis, desdizendo num dia o que haviam afirmado no dia anterior. O PAN, traidor das próprias causas que diz defender, veio justificar o seu apoio à continuação deste regime em nome da estabilidade política da Madeira. A estabilidade não é um valor em si mesmo e essa foi durante 48 anos a justificação da Ditadura de Salazar e Marcello Caetano. Ainda bem que o MFA veio corajosamente derrubar essa estabilidade em 1974.

Mas afinal, há alguma coisa de novo neste jardim à beira-mar plantado? Não me parece. Desde 1974 que o PSD está instalado maioritariamente na Madeira, atuando da mesma forma: a partir da constituição dum ficheiro bem organizado, com os nomes dos “nossos” e dos “outros”, persegue sistematicamente os opositores, até mesmo dentro do próprio Partido, a quem chama de comunistas, traidores, colonialistas, inimigos da Madeira, só para referir os epítetos mais suaves e faz tudo para não perder o controle das várias instituições públicas e privadas. Isto sem referir o arruaceirismo e terrorismo, com que se consolidou no tempo do PREC (1974-76). Se há algo de novo é a investigação que agora parece estar a ser levada a sério, ao contrário das anteriores, que deram em nada.

A Madeira precisa, pois, de quebrar esta estabilidade. O PSD precisa duma reestruturação e duma cura, arrancando ervas daninhas e reconstituindo um partido de Direita que sempre foi, mas de Direita Democrática. A Oposição tem de estar em condições de gerar uma alternativa, para isso é preciso trabalho e quebrar egos e capelinhas. Há bons técnicos nos vários Partidos da Oposição e o exercício da governação não pode limitar-se a decisões técnicas. É preciso que a Madeira deixe de ser governada como se fosse uma quinta do partido político maioritário, é preciso acabar com esta sovietização do regime, onde Partido e Governo se confundem, é preciso acabar com esta ligação perigosa entre o público e o privado (os amigos do regime) e finalmente instaurar um regime laico, como manda a Constituição, acabando com a mancebia entre a Igreja Católica e a governação, que serve muito mais o Poder do que a Igreja.

 

 

 


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