Quem como eu acompanha de perto, há mais de cinco décadas, a realidade política, económica, social e cultural da Madeira não pode, naturalmente, ficar surpreendido com a investigação por suspeitas de corrupção activa e passiva, participação económica em negócio, prevaricação, recebimento ou oferta indevidos de vantagem, abuso de poderes e tráfico de influências que redundou, para já, na prisão de um autarca – que, entretanto, renunciou ao mandato – e de dois empresários.
E não pode, escreve-o com o à vontade de quem, neste e noutros espaços, analisando e reflectindo sobre a aludida realidade, já dera conta, bastas vezes, da existência de um regime assente na promiscuidade entre o interesse público e os interesses privados, no favorecimento de uns em detrimento de outros e no conluio entre o poder político e o poder económico.
A surpresa, quando muito, só pode ser a de porquê agora, e não há mais tempo?
E isto porque esta teia de interesses, este sistema tentacular, há muito que, aqui e agora, está instalado. Faz parte do seu ADN.
Com efeito, do ponto de vista económico, a edificação da denominada “Madeira Nova” em oposição à designada “Madeira Velha” não teve como objectivo favorecer o bem comum, a generalidade da população, mas, sobretudo, substituir os outrora donos disto tudo, o capital estrangeiro que no Estado Novo controlava a economia regional, pelos novos ricos, as empresas originárias da Madeira que, sob a protecção do poder político regional, se tornaram nos novos donos disto tudo (leia-se da economia regional e não só).
Quem não tem memória curta, nem sofre de amnésia sabe que foi dessa forma que se comportaram os sucessivos governos regionais. Que, aliás, nem o escondiam, quando proclamavam que, em primeiro lugar, procurariam defender as empresas regionais. Quem não se lembra, por exemplo, no processo de implantação das cadeias de supermercados na Madeira, da protecção que foi concedida ao grupo Sá? Ou da confissão pública do secretário da Economia relativamente ao concurso da concessão da rede de transportes rodoviários de passageiros, um dos procedimentos objecto da presente investigação judicial?
Ou seja, o que se sabe da operação agora em curso, designadamente o que vem sendo revelado na comunicação social, não constitui, de facto, novidade. De resto, o próprio ex-deputado e secretário regional, Sérgio Marques disse-o publicamente, quando se referiu a “obras inventadas, cedência a pressões e favorecimentos do Governo Regional a grupos económicos”. É esta a “escola do partido” a que aludiu Albuquerque quando foi forçado a afastar-se do lugar que ocupava. O que não significa que os visados não tenham direito à presunção de inocência, muito embora como refere o ditado popular “não há fumo sem fogo”, ou que o aparato de mais este episódio da justiça espectáculo fosse totalmente dispensável.
O que não colhe é haver quem na imprensa regional tente vender a tese de que não se deixa condicionar só porque regularmente divulga os dados da contratação pública.
O meio é o que é. Confesso que sou do tempo em que para ler o que não agradava ao poder político regional era preciso ter acesso à imprensa do território continental. E como cidadão, num meio pequeno como o nosso, confesso igualmente que não é nada confortável saber que os dois jornais diários locais estão nas mãos de dois dos “donos disto tudo”: o grupo Sousa e o grupo AFA. Quanto ao mais, basta comparar: na imprensa nacional, e não me refiro ao tablóide “Correia da Manhã”, é possível ler trabalhos de investigação, por cá não fazem parte da agenda. O que se entende, face ao exposto.
Como recordou o jornalista Daniel Oliveira na última edição do semanário “Expresso”, “desde José Sócrates que a direita adoptou a superioridade ética face ao PS como principal substracto do seu discurso”.
Em Novembro, aquando da operação “Influencer”, Luís Montenegro disse que o governo da República não tinha “nenhuma condição para continuar”. Que estava “na hora de penalizar e responsabilizar sem apelo nem agravo a reincidência de uma organização partidária que dá mostras muito facilmente de ceder a esquemas de compadrio político” – na altura, o primeiro-ministro não era sequer arguido e continua a não ser.
Agora, perante uma operação de uma dimensão incomparavelmente bem mais grave, o líder do PSD diz que se trata de uma mera “perturbação da atenção política dos portugueses” e que “as diferenças são mais que muitas” nas duas histórias. Com efeito, como escreveu Daniel Oliveira, “são duas: Costa não é arguido e Albuquerque é do PSD”.
Parafraseando Daniel Oliveira, “quem se queixa de 8 anos de um partido à frente do país deve imaginar o que são 50 anos numa ilha”! Enfim, se tudo isto, contribuir para regenerar a autonomia regional, o dia 24 de Janeiro de 2024 ficará na história.
* por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.
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