O Caminho do Trapiche

No passado dia 10 de Agosto, o presidente da Câmara Municipal do Funchal anunciou a intenção de alterar a designação do Caminho do Trapiche para Estrada de São João de Deus.

As mudanças na toponímia não deveriam ser ditadas pelo improviso, laços clientelares, subserviência ou oportunismo. Para evitar desvarios, existem as Comissões Municipais de Toponímia, órgão consultivo que o Funchal ainda não implementou.

FOTOS: © NELSON VERÍSSIMO, AGOSTO, 2023

 

O caminho recebeu o nome de Trapiche, porque servia o sítio assim denominado. Igualmente, o hospital psiquiátrico chamou-se do Trapiche, por ali estar localizado.

O topónimo Trapiche, da freguesia de Santo António, está documentado desde o início do século XVI e continua a ser popularmente conhecido. Não lhe falta antiguidade nem História, associado a um sítio povoado ou a cursos de água.

O sítio está assinalado na Carta Geo-Hidrográfica levantada em 1842, pelos oficiais do navio de guerra britânico Styx e o capitão do Corpo de Engenheiros, António Pedro de Azevedo.

Trapiche era um pequeno engenho para moer cana-de-açúcar, movido por animais. Numa carta do donatário do arquipélago da Madeira, de 17 de Agosto de 1468, reconhecia-se aos madeirenses o direito de não pagamento de «cousa alguma» ao capitão do Funchal pelas alçapremas, engenhos de água de fazer açúcar e «trapichas de bestas».

O sítio do Trapiche fazia parte da Quinta de Santo António, onde, no século XVI, cultivavam cana-de-açúcar e vinha. A ribeira próxima permitiu o regadio dos canaviais e a instalação de um engenho de açúcar que, de início, deveria ser um rudimentar trapiche.

Apesar das transformações que normalmente estão sujeitas as propriedades fundiárias, chegou ao século XX um imóvel designado Quinta do Trapiche que, por vontade da sua última proprietária, foi doado à diocese do Funchal. Foi nesta quinta que, em 1922, se instalaram os Irmãos de São João de Deus, a fim de fundarem uma Casa de Saúde para doentes mentais. Projecto que contou com o grande empenho do médico João Francisco de Almada. Em 10 de Agosto de 1924, realizou-se a inauguração oficial da Casa de Saúde de São João de Deus, que passou a ser conhecida por Casa de Saúde do Trapiche.

Assim, constata-se que o topónimo do sítio – Trapiche – logo foi ligado à Casa de Saúde. Com o tempo, caiu, na oralidade, «Casa de Saúde» e popularmente o hospital psiquiátrico vem a ser conhecido apenas como Trapiche, numa espécie de metonímia. Em simultâneo, por extensão, trapiche adquiriu conotação psiquiátrica ou referente a confusão. Diz-se: «precisa de Trapiche», «vai para o Trapiche», «um Trapiche», «só no Trapiche» ou «nem no Trapiche»…

Apesar desta carga semântica, para alguns eventualmente depreciativa, não vejo razões para alterar o topónimo Caminho do Trapiche, porquanto prevalece o nome de um sítio, com mais de quinhentos anos.

Para além da modificação trazer transtornos aos moradores, que terão de actualizar a identificação do seu domicílio em vários documentos e registos, Trapiche é, no Funchal, uma das poucas referências toponímicas históricas da época da economia açucareira, que importa preservar. Ademais São João de Deus já está homenageado na toponímia funchalense e câmara-lobense.

Em vez de querer alterar a toponímia, a Câmara do Funchal poderia entreter-se a corrigir os erros nas placas toponímicas. Por exemplo, Eira do Cerrado, que assim se deve escrever e não de outra forma, como incorrectamente se verifica há muitos anos. Ou então, e mais urgente, empenhar-se no investimento ainda necessário no Trapiche e zonas vizinhas, para prevenir tragédia semelhante à que ali ocorreu em 20 de Fevereiro de 2010, provocando nove mortes.


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