Ainda o voto a Sant’Iago

Na festa do padroeiro do Funchal, ocorrida no primeiro de Maio, surgiram diversas referências, nas redes sociais e na imprensa, ao sorteio realizado em 1521, para escolha de um protector da cidade, em tempos de peste.

Numa tentativa de repor a verdade histórica, quanto à iniciativa e local da eleição de Sant’Iago, comentei uma publicação no Facebook. O seu autor retorquiu, revelando a sua fonte: o sítio da Direcção Regional do Arquivo e Biblioteca Pública da Madeira (ABM): https://abm.madeira.gov.pt/epidemias_madeira-peste_1521/

Estranhei, pois abrigando esta instituição a documentação histórica da Madeira, acrescem responsabilidades ao autor do texto disponibilizado. Verifiquei depois que o ABM estava, lamentavelmente, a difundir informação incorrecta, apesar de ter todas as condições para não errar, a saber, as Vereações de 1521, a respectiva transcrição impressa (Funchal: SRTC-CEHA, 1998, p. 118) e o rigoroso texto de Jorge Valdemar Guerra in Funchal 500 anos: Momentos e Documentos da História da nossa Cidade (Funchal: SREC–DRAC–ARM, 2010, pp. 41-43).

Na última página da edição do passado 2 de Maio, o DN-Madeira reproduziu o mesmo erro, identificando a referida fonte.

Nesse mesmo dia, liguei três vezes para o ABM, a fim de falar com algum responsável, para alertar sobre o erro que aquela instituição governamental estava a semear. Quem atendeu o telefone registou, por três vezes, o meu nome e número de telemóvel e informou-me que seria contactado. Mas até hoje, nada. Resolvi, por isso, esclarecer publicamente, a fim de ser corrigido o erro.

Poderão pensar, à partida, que se trata de questão de somenos importância. Mas, de facto, não é, como terei ocasião de demonstrar.

Em 1521, a peste e a fome assolaram a cidade. Os primeiros casos foram assinalados em 17 de Março. O receio do contágio obrigava a rigorosas quarentenas e ao refúgio em lugares não afectados pela epidemia.

A peste era, então, vista como castigo pelos pecados cometidos, mas também ocasião para glorificar a Deus.

PROCISSÃO DE SANT’IAGO MENOR, FUNCHAL. FOTO: CMF, 2023.

Todos os que adoeciam, morriam. Diariamente, ocorriam 25 a 30 mortes. Nos primeiros meses de 1521, faleceram mais de 1600 pessoas.

Sentindo-se impotente perante o grave problema de saúde pública, a edilidade funchalense deliberou recorrer ao socorro divino em 8 de Junho de 1521. Para que Deus lhe aprouvesse e tivesse por bem levantar o mal da peste da cidade, trataram os oficiais camarários e os mesteres da eleição de um padroeiro, a partir de um rol com os nomes de Jesus, Maria, João Baptista e os doze apóstolos. Comprometiam-se a edificar uma igreja com a invocação do eleito. Mandaram vir à mesa da Câmara um menino de seis ou sete anos, de nome João, «para tirar um dos escritos». Saiu Sant’Iago Menor. Os oficiais camarários tomaram-no como intercessor e advogado junto de Deus, para que a peste se extinguisse e não houvesse mais mortes. (ABM, CMF, Vereações, n.º 1304).

Esta deliberação foi, de imediato, comunicada ao deão, Frei Nuno Cão, que, apesar da peste, nunca deixou de comparecer na Sé. A eleição do «padroeiro e rogador a Nosso Senhor por o povo da cidade» veio a ser saudada com o repique dos sinos da catedral e dos mosteiros de São Francisco e de Santa Clara.

Em suma, a eleição do padroeiro do Funchal foi uma iniciativa do poder municipal, ao qual competia zelar pela saúde no seu território, e ocorreu na Casa da Câmara, como se pode confirmar na acta da vereação da Câmara do Funchal, de 8 de Junho de 1521.

Quase dois anos depois, como continuasse a epidemia, o capitão do Funchal, oficiais da Câmara, mesteres, cidadãos, povo, deão e o cabido com toda a clerezia reuniram-se no coro da Sé. Esta assembleia ocorreu em 24 de Janeiro de 1523. Decidiram então terminar a obra da casa do protector e defensor da cidade. A falta de dinheiro havia atrasado a conclusão da igreja. Prometeram ainda, «de para sempre em cada um ano deste mundo», venerarem e festejarem o glorioso Santo no primeiro dia de Maio, com procissão solene que sairia da Catedral e dirigir-se-ia à Igreja de Sant’Iago.

Pode-se, assim, concluir que, em 24 de Janeiro de 1523, foi ratificada a devoção ao padroeiro, eleito na Câmara do Funchal em 8 de Junho de 1521.

O facto de a eleição do patrono ter sido uma deliberação da vereação funchalense, realizada na «mesa» da Câmara, conferiu aos oficiais do concelho obrigações e prerrogativas que se perpetuaram até aos tempos actuais.

Nota: Na escrita do nome do apóstolo padroeiro, seguimos o prescrito na Base analítica XXXVIII do Acordo Ortográfico de 1945 e reafirmado no n.º 1, c) da Base XVIII do Acordo Ortográfico de 1990. A grafia recomendada, como hagiónimo (nome de santo), é, pois, Sant’Iago ou Santo Iago. A unidade mórfica Santiago utiliza-se como apelido de família (Santiago Prezado), topónimo (ilha de Santiago) ou elemento de compostos onomásticos (Santiago do Cacém; Santiago de Compostela). Santiago provém da aglutinação do hagiónimo latino Sanctu Iacobu-. Como ensinou Rebelo Gonçalves, «Sant’Iago, como grafia de nome hagiológico, exclui duas outras grafias: Santiago e S. Tiago.» (Tratado de Ortografia da Língua Portuguesa, 1947, p. 270). Na documentação antiga da Câmara do Funchal sobre o padroeiro, surgem as grafias Santyago e Sãtiaguo. Hoje está popularizada a forma São Tiago (de Santiago, san-tiago), em substituição do vernáculo Iago (=Jacob).


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