Veneza, um nome singular

Foi há quarenta e oito anos, mais estes primeiros dias de Janeiro de 2023, que a conheci. Desde então, precisamente ( em 1974), percebi que estar ali era um dos acontecimentos mais significativos da minha vida.

Estar ali era um modo possível de me olhar por dentro e me encontrar fora dum tempo cronológico, quero dizer, estar num lugar de fuga, caminho de passagem para uma espécie de eternidade terrena, habitando todos os séculos e todas as dimensões. Podería sentir-me na pele de todas as personagens que povoaram Veneza nas obras dos criadores, desde a trágica Desdémona, à perturbante Dama das Camélias; desde a talentosa Tintoretta, a filósofa Elena Cornaro até ao adolescente Tázio e ao alemão Aschenbach, enamorado da beleza. As Madonas do Renascimento Primitivo saídas do misticismo medieval eram minhas familiares, por ordem de um interesse profissional que determinava parte das minhas atracções afectivas. As águas que me rodeavam eram extensões do meu envolvimento insular. Eu estava dentro do mundo e o mundo estava dentro de mim. Eu seria a eterna apaixonada dum gondoleiro mítico de quem não conhecia o rosto, nem a figura, porque apenas me tinha apossado da sua voz de tenor sulcando a tela impressionista das águas, numa noite de lanternas, tremeluzindo entre as sombras do Rialto.

Veneza era, tem sido, desde esse primeiro deslumbramento, uma fonte de inesgotáveis atracções. Observo-a como a minuciosa maquete duma obra  gigantesca, de tal modo uma cidade grande se invade de miniaturismos: pequenas pontes, vielas estreitas, pracinhas aconchegadas, recantos pitorescos, insígnias de pedra, e ao mesmo tempo a  ostentar grandes e belos palácios maneiristas que juntam, numa atmosfera arquitetónica harmoniosa, modelos bizantinos, islâmicos, renascentistas e barrocos, em profusão considerável num espaço tão reduzido. Porém, tudo se apresenta na medida certa, na proporção correcta para a percepção humana. Desde o séc V dC, estão ali os séculos todos, o passado e a modernidade. Adivinha-se entre as pessoas que passam quem são os venezianos; seguem discretos, concentrados, carregando pastas ou  pequenos volumes, às vezes um livro, um saco de víveres, ou um luxo talvez extemporâneo. Raramente se apressam, tudo está a poucos passos, a não ser para apanhar o autocarro na Praça de Roma, ou o comboio na gare de Santa Lucia, os que moram ou trabalham em Mestre. Vaporettos e traghetti transitam constantemente facilitando as deslocações no Grande canal e até aos cais mais distantes das várias ilhas da Laguna. Realizam um movimento au ralenti, cadenciado, como uma dança, sem atropelo e sem vertigem.

«Sereníssima», a esposa do Adriático é uma entidade avassaladora. Tem também seus percalços com a ameaça da erosão e as invasões das águas e de algumas multidões vorazes, mas resiste sempre, porque se sente protegida pela permanência dum opulento passado que alimenta o «ponto de vista da eternidade». Se fosse possível visualizar a Paz ela poderia ser vista na suave ondulação dos pequenos canais onde quase não transitam barcos. Um considerável cenário de séculos que mantém ainda, orgulhosamente, seu rosto e postura. Uma cidade incomparável, singular, bela e luminosa, estranhamente atraente, ao mesmo tempo sombria e assustadora.

Há uma espécie de invasores benéficos, que são os que a adoptam para ali viver e morrer. Que lhe dedicam o seu amor, as suas obras, a sua vida diária de ponte em ponte, nos cafés, bares e restaurantes, nos concertos de Vivaldi em San Vital, ou em La  Marciana,  a maior biblioteca e arquivo de Itália, que se constitui uma valiosa e amada  herança patrimonial. Stravinsky, Brodsky, Ezra Pound, Diaghilev, têm, no cemitério de San Michele, a sua última morada. Wagner habitou o Palazzo Vendramin, à beira do Grande Canal, onde a morte o surpreendeu. Hoje a Ca´ Vendramin é o grande casino de inverno de Veneza.

De vez em quando há uma figura exótica que atravessa as praças, e se encontra às várias horas do dia, porque o circuito dá sempre as mesmas voltas pelos mesmos sítios, e colhe-se a sensação duma redondeza fagueira e animada.

Assim foi que, um dia, na larga praça de San Giovani e Paolo, um homem baixinho, gorducho, com um simpático sorriso de palhaço bom, transportava um veículo estranho: Uma caixa de cartão enfaixada com larga fita adesiva, accionada por duas pequenas rodas e uma pega à maneira de mala de viagem. Seguiu em direcção incerta e deixou-me curiosa sobre o conteúdo da insólita caixa. Pouco tempo depois, de regresso à praça, voltou a perder-se pela pequena ponte dell Cavallo, sobre o rio dei Mendicanti. Por estranha associação de terminologias, julguei tratar-se dum «mendigo» engenhoso, com o respectivo apara-dádivas. Depois de algumas horas, à sombra duma árvore, no remanso do Campo de Santa Maria Nova, estava eu em pausa do meu roteiro vagabundo, e de novo surge o simpático velho da caixa de rodízios. Mendicante ? Injusto engano! De dentro do misterioso contentor, para meu espanto, o velho retira, cuidadosamente,  um bandónion e logo ali os acordes dum inesperado tango invadiram a praça de Santa Maria Nova. Uma «concertina»  argentina nas mãos hábeis dum velho simpático e risonho, que nos brinda com  um tango, em plena Veneza dos mistérios, transforma-se, de repente, numa grande ironia, para castigo e gáudio meus. No primeiro caso, pelo mau julgamento; no segundo – que me perdoe Piazzolla – pela nostálgica evocação de Gardel. Muito naturalmente, contrastes e paradoxos são óbvias concessões desta espantosa cidade.


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