Entrevista FN: Bispo confirma mudanças de sacerdotes no final deste mês e confessa que reage mal às pressões

D. Nuno Brás também recebe pressões dos leigos. Fotos Lúcia Pestana.

Solicitado pelo FN para a entrevista em vésperas de mudanças sacerdotais, o Bispo da Diocese do Funchal reage com abertura, sem restrições de questões. Sereno, mas firme na resposta e de diálogo fácil. Recebeu-nos na sede da Diocese, onde, por detrás do portão que dá para a agitada rua, espraia-se um belíssimo jardim cujo manto de silêncio só é beliscado com o cantar não menos melódico dos pássaros. Na sua sala de trabalho, abre-se ao diálogo já com o traquejo de três anos de rodagem como Bispo da Diocese do Funchal.

Desde logo, confirma que no final deste mês, anuncia as mudanças de sacerdotes nas paróquias e serviços, na sequência de um processo de auscultação, mas é categórico em salientar a ideia de que é tempo perdido a pressão mediática. Não cede.

Funchal Notícias – Mês de julho. Tradicionalmente, a Diocese procede às mudanças pastorais Este dossier já está concluído e já podemos divulgar o que vai mudar em concreto?

D. Nuno Brás – Não, até porque ainda não estão fechadas. Claro que vai haver mudanças, até porque há dois novos sacerdotes, graças a Deus, para a Diocese. Serão três sacerdotes ordenados, a 30 de julho. Portanto, haverá mudanças, mas serão publicadas ou no dia das ordenações ou no dia a seguir às ordenações.

Paço Episcopal, um espaço de trabalho mas de contemplação e presença de Deus. Foto Lúcia Pestana

FN – Como se processam as substituições? 

DNB – Habitualmente são os sacerdotes que pedem para sair. Sentem que, depois de um certo tempo numa determinada paróquia, é necessário mudar. Estar com novas pessoas, nova comunidade é sempre motivo para repensar, para voltar a ganhar algum ânimo que eventualmente terá perdido.

FN – Costuma fazer-lhes a vontade?

DNB-Procuro. Depois, há situações em que eu próprio peço aos sacerdotes para assumirem novos cargos, tendo em conta as necessidades da Diocese, das comunidades. Muitas vezes, quando é necessário providenciar um sacerdote para outro serviço, eu próprio peço a algum sacerdote se não se importa de sair. Umas vezes, a pessoa diz imediatamente sim, outros pedem para pensar um bocadinho e há altura em que o próprio sacerdote pede ao bispo para que repense um pouco na sua decisão… Uma coisa é certa: as nomeações não são feitas por pressão mediática.

FN – Os leigos pressionam?

DNB -Os leigos pressionam.

FN – É pressionável?

DNB – Sim, há pressões. Ainda hoje recebi uma carta de um leigo a dizer que aquele sacerdote não corresponde às suas expetativas. Há sim, pressões. Eu confesso que reajo muito mal às pressões. Portanto, quando me fazem pressão num determinado sentido, a minha primeira reação é ir no sentido contrário. Depois, estou sempre disponível para repensar a minha posição, se for caso disso, se for justo ou se for alguma situação objetiva. Muitas vezes, também é verdade que o Bispo não sabe tudo. Eu não tenho a pretensão de conhecer toda a Diocese, todas as pessoas, as dinâmicas, nem nada disso… Até porque estou cá há relativamente pouco tempo, três anos e qualquer coisa, dos quais, dois em confinamento ou semiconfinamento. Se cá estiver 20 anos, mesmo assim não sei se chegarei a conhecer, de facto, a Diocese. Sabe, o ser humano é muito complexo, cada vez mais estou convencido disso. Cada ser humano é único e cada ser humano é muito, muito complexo. Habitualmente o que fazemos é medir os outros a partir de como reagimos, o que é uma coisa muito má. De facto, as outras pessoas não reagem como nós reagimos necessariamente. As nossas razoes nem sempre são as razões dos outros. É muito importante sermos capazes de perceber que cada pessoa é uma pessoa diferente e que cada pessoa é muito, muito complexa. Às vezes, razões conscientes, outras vezes razões inconscientes. Agora, todos são amados por Deus, desde as pessoas luminárias, que são referência para uma sociedade, e temos várias na sociedade madeirense, até aquelas pessoas de quem nunca ninguém irá falar, mas são todas a mamadas por Deus e têm a mesma dignidade.

FN – O que é que pretende significar com isso no contexto das suas decisões?

DNB – Significa que o Bispo tem de saber discernir bem todas estas pressões, em todas as conversas que lhe fazem, o que é justo e não é justo. E isso é muito difícil. E, portanto, vamos tentando acertar.