Desigualdades que matam

No seu mais recente relatório, divulgado por ocasião do Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça, a Oxfam, uma confederação internacional de luta contra a pobreza, revelou que, durante a pandemia de covid-19, a fortuna dos multimilionários “atingiu picos estonteantes e sem precedentes”. Ou seja, “a pandemia – um tempo cheio de dor para a maioria da humanidade – tem sido um dos melhores momentos na história dos multimilionários”.

De facto, os números são impressionantes:

– nos últimos 2 anos surgiram 573 novos multimilionários, isto é, um novo milionário a cada 30 horas, 62 dos quais no sector alimentar; cinco petrolíferas lucram 2.600 dólares por segundo;

– a fortuna dos mais ricos cresceu tanto nos últimos 24 meses como nos 23 anos antes;

– os multimilionários com negócios na alimentação e na energia acrescentaram mil milhões de dólares, a cada 2 dias, à conta bancária, num total de 453 mil milhões de dólares.

Paralelamente, segundo dados divulgados em Abril, estima-se que mais cerca de 263 milhões de pessoas correm risco de pobreza extrema em 2022, ou a seja, um milhão de pobres a cada 33 horas, devido às consequências da pandemia e por causa do custo crescente da alimentação em resultado da invasão da Ucrânia pela Rússia;

– a fortuna dos 10 homens mais ricos é superior à riqueza somada dos 3.100 milhões de habitantes da Terra que constituem os 40% mais pobres da população mundial;

– os 20 mais ricos têm mais do que o PIB somado dos 46 países da África subsariana;

– um trabalhador que integre a metade mais pobre da população mundial terá de trabalhar 112 anos(!) para arrecadar o mesmo que ganha num só ano uma pessoa que faça parte dos 1% mais ricos.

Face à violência destes números, não admira que o relatório da Oxfam tenha por título “Lucrando com a Dor”, uma vez que estamos perante “o maior salto na pobreza extrema em20 anos”. Como não surpreende que se leia no mesmo: “Esta desigualdade mata. Somente os ricos estão imunes. Não só estão imunes, como beneficiam destas múltiplas crises”.

Baseando-se em estudos e indicadores diversos, incluindo do FMI, Banco Mundial, Banco Crédit Suisse e Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), a Oxfam constata que “a fortuna total dos multimilionários no planeta equivale agora a 13,9% do PIB mundial – é o triplo do que representavam (4,4%) em 2000” e acrescenta: “Isto não acontece porque eles trabalham mais ou melhor. Os trabalhadores trabalham mais, por menos salário e em condições piores. Os super-ricos armadilharam o sistema com impunidade durante décadas e agora estão a colher os benefícios”.

A profunda desigualdade global e dentro dos próprios países é por demais evidente noutros números. Por exemplo:

– pela 1ª vez, numa geração, a desigualdade entre as nações deve aumentar e também está a crescer dentro dos países;

– em 2023, o rendimento per capita provavelmente permanecerá abaixo dos níveis de 2019em 40 países em desenvolvimento, segundo o Banco Mundial;

– a desigualdade contribui para a morte de pelo menos 21.300 pessoas por dia – uma pessoa a cada 4 segundos;

– estima-se que 5,6 milhões de pessoas em países pobres morrem a cada ano devido à falta de acesso à saúde, enquanto a fome mata mais de 2,1 milhões anualmente;

– se não for controlada, a mudança climática pode levar até 132 milhões de pessoas à pobreza extrema até 2030;

– a pandemia também atrasou o progresso global em direcção à igualdade de género, uma vez que serão agora precisos quase 136 anos para que as mulheres estejam em pé de igualdade com os homens (situava-se acima dos 99 anos na pré-pandemia).

A 29 de Maio p.p., na crónica semanal que publica há 30 anos no jornal “Público”, Frei Bento Domingues O.P. questionava: “Quem poderá fechar os olhos, os ouvidos e o coração perante a vergonha descrita no último relatório da Oxfam?”.

Entretanto, a invasão da Ucrânia pela Rússia agravou de forma brutal o risco de insegurança alimentar no mundo, que, atingindo 135 milhões de pessoas durante o período pré-pandemia, deverá crescer para cerca de 275 milhões e, segundo a ONU, mesmo que a guerra acabasse agora, a sua repercussão já seria catastrófica à escala global, pois já causou o maior aumento no custo de vida numa geração. Mais de 1,6 mil milhões de pessoas em 94 países estão severamente expostos a pelo menos uma dimensão da crise, já que o aumento dos preços do milho e do trigo fez com que a família média global perdesse mais de 1,5% do seu poder de compra desde o início da guerra.

Defendendo que o mundo precisa de um “plano de salvação económico urgente que previna os danos de uma inflação galopante” e ajude “a construir um mundo mais sustentável”, a Oxfam tem vindo a propor ao FMI, ao Banco Mundial e a diversos governos a adopção de um conjunto de medidas, designadamente: “aumentar a protecção social”; “controlar preços”; “cancelar a dívida das nações mais pobres” e “introduzir um sistema de impostos mais justo”.

Neste último domínio, a Oxfam defende a aplicação de um imposto temporário de 90%  sobre lucros inesperados e excessivos de todas as indústrias (o windfall tax que o ministro da Economia e do Mar referiu, a propósito dos lucros das empresas de energia, na sua estreia no Parlamento, mas que afinal não está nas contas do governo português). E apoia a criação de um imposto extraordinário sobre novas fortunas para financiar uma transição pós-pandemia mais justa das populações mais pobres e afectadas pelos preços crescentes da alimentação. A Oxfam calcula que um imposto permanente e progressivo sobre grandes fortunas, que variasse entre os 2 e os 5 por cento como preconiza, ”poderia gerar receitas à escala mundial de 2,52 mil milhões de dólares, verba suficiente para tirar 2.300 milhões de pessoas da pobreza e produzir vacinas contra a covid-19 em número suficiente para todo o planeta, bem como garantir cuidados de saúde universais e protecção social para todos os países de rendimento baixo ou médio-baixo, onde vivem 3.600 milhóes de pessoas”.

Por outras palavras: as desigualdades, a fome, a desprotecção social não constituem realidades inultrapassáveis. Há soluções para as enfrentar. Não há, não tem havido, é determinação e empenho dos decisores políticos para pôr cobro a tão gritantes injustiças. Importa que os cidadãos do mundo se mobilizem com esses objectivos. Urge fazê-lo.

 

*  por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

Post-Scriptum:  1) Aversão/Incómodo: Desde sempre que o PPD local convive mal com a data histórica do 25 de Abril que restituiu a liberdade e a democracia aos portugueses. Não sendo por acaso que fez e faz questão em valorizar o 25 de Novembro em detrimento do 25 de Abril. A história regional está repleta de episódios em que essa aversão e incómodo foram particularmente evidentes que já não se estranha que no parlamento ou na autarquia funchalense se recorram aos mais mirabolantes argumentos para justificar o injustificável.

2) Carências: As necessidades habitacionais continuam em crescendo, sendo cada vez mais difícil comprar ou alugar casa na Madeira. E com a aposta nos vistos gold para captar investimento o panorama irá agravar-se ainda mais. Não admirando por isso que a natalidade continue a baixar com as dramáticas consequências que se avizinham.

3) Duplicação: Pode haver quem se regozije com a atribuição de uma condecoração presidencial, mas quando no espaço de 7 anos as listas de espera na área da saúde duplicaram, os sinais que esses números revelam deveriam constituir motivo de séria preocupação para quem gere o sector, em lugar de se procurar transmitir a ideia de que com o novo hospital, como que por milagre, os problemas desaparecerão.

 


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