“All the great things are simple, and many can be expressed in a single word:
freedom, justice, honor, duty, mercy, hope”
– Winston Churchill
-uma proposta de reflexão sobre a invasão da Ucrânia, pela Rússia, com a ajuda do livro A nossa época – salvar a esperança, de Adriano Moreira (2019)
Sobre o livro – esta obra de Adriano Moreira é constituída por textos independentes, na forma e no tempo, agrupados por temas diversos que se completam e consubstanciam uma linha de pensamento, de expressão de valores e de opiniões do autor sobre o mundo e o seu devir. Trata-se, assim, de uma colectânea que constitui uma matéria importante para quem gosta de reflectir sobre o que nos rodeia.
Nota de abertura –A Europa enfrenta, desde o final da segunda guerra mundial, uma das mais graves ameaças ao modo como, desde então, escolheu viver: em liberdade e democracia, organizada em Estados de Direito respeitadores dos Direitos humanos. Enquanto organização supra/transnacional, a União Europeia deixou bem vincado o desígnio da Paz cuja construção tantas vítimas produziu durante sucessivas etapas de beligerância. As gerações que viveram no pós-grandes guerras souberam elevar o trauma que o horror deixou e construir rumos pacíficos mesmo quando discordantes. Foi, desse modo, possível viver tempos de prosperidade e de plenitude política, social, económica e cultural. Foram incontáveis os avanços: na qualidade de vida, de saúde e de bem-estar, no acesso ao conhecimento, na democratização do acesso à Educação e à Cultura. A globalização impôs-se (talvez de forma demasiado acrítica) também como um sinal dessa estabilidade. Mas não só.
No momento em que escrevo este texto(12.04.2022), já aconteceu Mariupol, Borodyanka, Bucha e Kramatorsk, lugares dos quais a memória registará o sofrimento e o horror a letras de agressão e morte. Entretanto, outros massacres, noutras cidades, têm deixado, gradualmente, um rasto de temor e de destruição, de implacável desumanidade e de assassínio deliberado de jovens e crianças, as faixas etárias da esperança. Neste preciso momento, ainda não foi confirmada a utilização de armas químicas, em Mariupol, pela Rússia, cidade onde as últimas estimativas indicavam a morte de, pelo menos, dez mil pessoas. De acordo com os últimos dados cedidos pela ONU, esta guerra terá já causado a fuga de mais de onze milhões de pessoas sendo que, desse número, cerca de cinco milhões se encontram nos países vizinhos. Na Ucrânia, a UNICEF alerta para o risco em que se encontram cerca de dois milhões de crianças, sobretudo em situação de fome e de vulnerabilidade face a traficantes. As nações democráticas clamam pelo respeito pelas vidas humanas, algo que decorre dos valores fundacionais dos países livres. No entanto, os populismos, de direita e de esquerda, que o regime de Putin foi alegadamente financiando, de forma mais ou menos explícita ao longo dos últimos anos, não hesitam em apoiar a sua barbárie. Num ápice, há uma clarificação que demorava a fazer-se: a de que os extremos podem ser rigorosamente iguais, a de que os governantes autocráticos se protegem e se apoiam e a de que o longo caminho para a Liberdade de que Nelson Mandela falava (e ao qual Adriano Moreira alude, no livro referido)é, realmente, muito longo.
O Presidente Zelensky registará o seu nome nas páginas da História dedicadas à coragem e, com isto, ter-se-ia já dito muito. Tem representado a iniciativa de acção no quadro de uma difícil resposta a um país invasor que é “apenas” detentor do segundo maior poder militar no mundo. Tem sido o rosto da defesa da Democracia, da Liberdade e do Estado de Direito, ou seja, tem sido o defensor dos valores europeus. Volodomyr Zelensky representa o gesto e a voz da Resistência tal como enunciada por Éluard, Aragon ou Seghers. Hoje, não são os “maquis” franceses que congregam a revolta sustentada pela “guerra justa”, mas sim Kyiv, Kharkiv, Lviv ou Mariupol. Maïdan 2014 permanece um ideal que enuncia o primado da Liberdade sobre uma (agora mais) conhecida opressão. O Presidente ucraniano e o seu povo, a par dos heróis russos que, sabendo o seu cruel destino, não deixam de manifestar-se pela Liberdade, representam o melhor que a Humanidade pode legar-nos, aquela heroicidade que os livros dos grandes feitos narraram e aos quais, nos dias de hoje, as redes sociais (censuradas na Rússia) fazem constante referência.
Da História e das suas dinâmicas –É verdade que não se pode, com acuidade, afirmar que o planeta alguma vez viveu “um tempo de paz”, desde que há registos da presença do Homem. As dinâmicas geopolíticas, em todos os continentes, definiram a História como uma sucessão de conflitos emanados de uma vontade de “conquistar” territórios e povos. O que o Tempo nos tem legado, no que à paz diz respeito, são períodos de estabilidade, extensos na geografia e na duração. Também não podemos, com veracidade histórica, referir que a violência agora exercida, pela Rússia, sobre o povo ucraniano, é mais intensa do que outras que a História registou ou regista. A Humanidade conheceu e, infelizmente, conhece formas de violência atroz, massacres e chacinas que a envergonham e que não abonam a favor de um desejável progresso civilizacional.
A 24 de fevereiro de 2022, o som terrífico das primeiras bombas russas, em solo ucraniano, anunciava os fundamentos de uma nova ordem mundial. Não faltaram os “crentes” numa anunciada versão da Crimeia, neste caso Donbass, à qual o Ocidente condescenderia com igual hipocrisia. A verdade é que a gloriosa resistência do povo ucraniano, liderado por um Presidente que – mesmo na mais profunda solidão política – tem (repetidamente) ensinado aos poderes ocidentais o “quê” e o “como” da Democracia e da sua salvaguarda, produziram um efeito de contágio pelos valores da esperança que nos recorda os gloriosos resistentes franceses da segunda guerra mundial. Putin não escondeu o jogo durante muito tempo. Sabe que, dificilmente, será julgado por crimes de guerra (outro texto) e que, mau grado os erros estratégicos que cometeu no modo como abordou a invasão, continua a ser detentor, como supramencionado, do segundo poderio militar do mundo. A sua implacável e sórdida matança de civis, sobretudo jovens e crianças, a destruição total das cidades e vilas, têm ajudado a que o Ocidente, mesmo que de forma lenta e tímida, tenha entendido que esta já não é uma “simples” tomada de poder de um país vizinho. Trata-se de um dos muitos passos bélicos que Putin engendra, há exactamente trinta anos, no sentido da reconquista do império soviético, agora com ambições geo-estrategicamente mais alargadas. É importante que o Ocidente perceba o quanto terá participado, tacita ou explicitamente, na edificação desse projecto, quer do ponto de vista financeiro, quer mesmo da expansão de “tentáculos” de poder que, crescentemente, têm contribuído para minar as democracias, enfraquecendo-as e tornando-as vulneráveis às provocações autocráticas. Este período, tenho-o repetido, tem sido uma fase de autêntica Guerra fria, diria uma terceira Guerra-fria, já não nos mesmos moldes do imediato pós-grandes guerras, que terminaria com a queda do muro de Berlim, mas que se formou então e que se acentuou no pós-atentado das Torres Gémeas, em 2001. O Ocidente, minado pelos populismos – de extrema esquerda e de extrema direita – fomentados por Putin, não soube entender e travar, atempadamente, as raízes da sua destruição, da sua “decadência outonal” como A. Moreira a designa.
A tentativa de revisionismo histórico de Putin não aconteceu nos dias da invasão à Ucrânia, com o inusitado discurso que proferiu. Está a acontecer desde que desenhou a sua estratégia de eternização, no poder e no modo como tem jogado os peões do domínio geopolítico na Ásia, na América e, ultimamente, “taco-a-taco” com a China, em África.
Cito, a este propósito, o Posfáciodo livro de A. Moreira, redigido a 25 de Junho de 2019:
“É quando os factos exigem assumir o desafio da segurança no Atlântico Sul, que dá relevo ao Triângulo estratégico Português, que o ataque às Torres Gémeas de Nova Iorque (2001) mostrou (…) que o populismo invada o sistema político americano na linha da “traição das elites”, o que levou o jornalista Sylvain Cypel a ter considerado o “trumpismo” como um “um estilo paranóico” por ter trocado o conceito histórico americano de que “os EUA são a maior nação do mundo”, pela versão da “excepcionalidade” dos EUA e, acrescentemos, da convicção pessoal do presidente (Trump) do seu exceptional relevo histórico. As suas intervenções – Israel, Coreia do Norte, Irão, Tratado de Paris, financiamento da NATO e intervenção pregadora no Reino Unido – mostram que o valor do “atlantismo” no todo “Ocidente” tende para ser menorizado pelo ressurgir do antigo conceito americano de que a marcha em direcção ao Pacífico é o destino manifesto da Nação. (…) A circunstância tende para projetar uma imagem de triângulo em competição: China, Rússia e EUA” (pgs 453-4).
A presidência de Trump secundarizou a NATO e a União Europeia, estratégia que serviu, evidentemente, os interesses dos respectivos adversários. Apoiou, muito activamente, o Brexit e – consequentemente – uma deriva de enfraquecimento da União europeia: “o populismo trumpista que afecta a solidariedade ocidental e semeia riscos globais” (op. cit. pg 455). Joe Biden, a quem os detractores não poupam adjectivos pejorativos (que os descrevem muito mais do que ao actual Presidente) não tem a eloquência de liderança que tanto tem faltado ao Ocidente e pode, até, não ter a assertividade estratégica que colocaria Putin, mais rapidamente, no patamar de pária a que pertence. Mas, apesar das muitas falhas estratégicas (que se sucedem),situa-se no lugar certo da História e este, sabemos sem hesitações, é o da Democracia, da Liberdade e da Paz. O Ocidente democrático está a aprender – da forma mais cruel –que os autocratas nunca se satisfazem e que a sua pérfida ambição é desmedida. Este, talvez, o erro intencional ou ingénuo de Merkel. Daí que este tempo seja agora referido, com insistência, como o do retorno à geopolítica pura.
No entanto, o clamor (felizmente) generalizado, nesse mesmo espaço democrático ocidental (com as excepções referidas) não deixa de representar um sinal de vitalidade e de valorização do percurso feito por esses povos, no sentido do respeito pelos Direitos Humanos e pelas liberdades individuais, sociais e políticas. É nesse reduto de Paz e de Liberdade que reside a esperança, tema abordado no livro que nos ajuda a esta reflexão e a que o autor frequentemente alude:
“Só é difícil salvar a esperança quando se perderem os valores da esperança. Esses valores são o eixo da roda que acompanha a roda, mas não anda. O legado para os jovens é assumirem os valores dessa esperança e a vontade de lutarem pela sua salvaguarda. A regra é: nunca desistam! (Adriano Moreira, in entrevista à Rádio Renascença, 29 fevereiro 2020).
Da “decadência outonal do Ocidente” (Adriano Moreira) ao desejado revigorar da esperança –o autor utiliza esta expressão para referir-se a uma certa teleologia da desintegração do mundo ocidental e que decorre do modo como o mesmo tem evoluído desde as duas grandes guerras mundiais. Este é um dos pontos de referência da maneira como A. Moreira organiza o pensamento acerca do devir e se questiona, a par dos autores e estudos citados, sobre uma deriva “des – mundialista” que seria parte fundacional dessa teleologia. A tragédia da História não pode ser apenas uma questão de perpetuação da sua memória. Tem de ser, antes de mais, a fonte primeira da sua transformação e do seu aprimoramento. Uma dimensão não despicienda na análise das razões conducentes a este “outono” é a questão religiosa, nestes dias ausente das análises à situação de beligerância da Rússia em direcção à Ucrânia. Contudo, por mais delicado que o assunto possa ser, não deixa de representar um factor de relevo geopolítico. São conhecidas as posições do Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa que, declaradamente, apoia a invasão da Ucrânia, pela Rússia. Em menos de um mês, triplicaram os atentados contra Israel, quer surjam de forma, aparentemente, “isolada”, quer directamente emanados da Palestina. O Islamismo radical, uma das fontes de gangrena severa das democracias, cite-se o actual Afeganistão como um dos mais cruéis exemplos, tem beneficiado de uma crescente aceitabilidade junto dos poderes instituídos nas democracias ocidentais, conduzindo a um fenómeno designado como islamo-esquerdismo que não condena abusos (de natureza política ou social) e que se tem revelado permeável à condescendência para com as autocracias islâmicas ou à vigência da lei islâmica, em clara oposição à Declaração dos Direitos Humanos, nos países ocidentais. Refira-se, a título de exemplo, o caso francês, objecto de estudo no que consubstancia a existência de um Estado com dois regimes. Sobre isto, A. Moreira refere que:
“O ilustre Hans Küng, no volume que dedicou ao Islão, evidencia que as religiões de origem chinesa, o Confucionismo e o Taoismo, e as religiões de origem hindu, o Hinduísmo e o Budismo, tiveram um encontro não-conflituoso com o Cristianismo. Ao contrário, as religiões que nasceram no Médio Oriente, o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo, embora tendo uma origem participada, guiaram-se pelo princípio do inimigo”.
Um outro ponto de reflexão, mas que não ocupa a centralidade deste texto, é o facto de a União Europeia ter repetidamente aceitado, nos seus órgãos de poder, partidos e seus representantes cuja missão programática é a cessação da própria União. Este paradoxo tem contribuído para colocar no centro da decisão que deveria ser democrática, autênticos defensores de autocracias que, em muito, minaram a União por dentro e contribuíram, não só para o seu enfraquecimento, como ainda para a assunção de posições frágeis e tímidas na condenação veemente dessas mesmas autocracias. Acresce a esta dimensão, o facto de que os burocratas ao serviço desses ideais, têm comprometido, eticamente, os valores subjacentes à fundação da União Europeia, colocando, desse modo, em risco a sua sustentabilidade e a sua missão maior. É urgente repensar a aceitabilidade de partidos a quem a União paga para a destruir. Este tema terá de assumir uma vigorosa urgência, numa fase pós-guerra.
O novo medievalismo e as actuais formas de prestação de vassalagem
No capítulo intitulado “Com sacrifício e esperança” (op. cit. pg. 308, escrito em 2017) A. Moreira parece, de algum modo, prever o que aconteceria, agora em 2022, referindo-se já à ocupação da Crimeia, pela Rússia: “entrámos num século sem bússola (…) com as guerras atípicas a multiplicarem-se do Cabo ao Cairo, com os erros da intervenção americana no Iraque e da Rússia na Ucrânia, a circunstância europeia, com a área mediterrânica no turbilhão causado pela democracia inspirada no Corão, a memória que não desapareceu em Berlim, que não morreu na Rússia de Putin, que está viva nos EUA, veio inspirar o mais brutal dos desafios que se traduziu na capacidade de o fraco vencer o forte. (…) Enquanto o Ocidente, incluindo a Europa, presta vassalagem ao ‘credo de mercado’ o terrorismo da AL-Qaeda definiu um conceito estratégico onde incluiu valores religiosos, o mais determinante valor das gentes”. Esta longa, mas importante citação, remete-nos não só para a reflexão necessária sobre como as novas vassalagens geopolíticas determinam as fraquezas e as forças, em contenda, mas o papel da religião como vector de decisão geopolítica e geoestratégica, aliás invocado por Putin e secundado, como referido, pelo Patriarca da Igreja Ortodoxa Russa. É, ainda, a este propósito, de considerar a contínua manifestação de mediação por parte do Papa Francisco e a possibilidade, agora comunicada, de que este se encontre com o seu “homólogo” russo. Recorde-se, ainda, a ascendência judaica de Zelensky e o recrudescimento dos ataques a Israel, como acima referido. Uma vez mais, as religiões terão um papel definidor nas geografias políticas do mundo. Seria esta a nova ordem mundial que se anunciava?
“Os cemitérios da Normandia guardam a dor das mães americanas dos que vieram morrer para que as dores das mães europeias que sofreram esse desastre fossem menores”(op. cit. pg. 310, escrito em 2017). Substitua-se “da Normandia” por “da Ucrânia” e “americanas” por “ucranianas” e estamos em 2022.
Da esperança como fio de prumo
Apesar da referência frequente ao já citado “outono ocidental”, o livro de A. Moreira inclui, no título,“a salvação da esperança”. Assim sendo, não deixa de aludir aos “pregadores do optimismo”, em especial R. Wright que, no seu livro Non Zero. The logic of human Destiny (2001) manifesta a “convicção de que a evolução está orientada para uma meta ou, pelo menos, dirige-se a fins benéficos”. A. Moreira cita, ainda, Ilia Delio: “a História progride numa direcção previsível e aponta para um fim determinado: um mundo de crescente cooperação entre os seres humanos, em que a cobiça e o ódio já não tenham utilidade”.
É verdade que a História parece repetir-se no horror, mas também na esperança de dias felizes. São muitas as “vozes” inspiradoras do progresso, da Liberdade, da Democracia e da Paz como valores que sustentam a vontade de deixar, às gerações vindouras, um mundo melhor. O século XXI tem-se revelado “agreste” e em crescendo conflitual, em muitas geografias. A pandemia colocou uma pressão social e política em todos os países e, consequentemente, nos seus cidadãos, o que os tornou mais vulneráveis e, logo, menos resilientes. Mas a capacidade de auto-regeneração dos seres humanos também é notável e o povo ucraniano tem sido disso prova. Não poderia concluir esta reflexão sem referir, como um dos mais belos sinais de esperança, o movimento internacional de solidariedade para com o povo invadido. É uma marca muito promissora e um exemplo para as gerações mais jovens que, dessa forma, aprendem que o mundo só é melhor quando somos uns para os outros.
O que ficará da “espuma deste tempo”? A. Moreira encerra o capítulo intitulado “Vésperas de que tempo? O que fica para além dos dias?” (op. cit. pg. 306, escrito em 2018) citando Arne Westad: “Será então melhor ponderar cuidadosamente os riscos que estamos dispostos a correr para conseguir bons resultados, de modo a não replicar os atos terríveis do século XX na sua busca pela perfeição” e termina com a seguinte frase: “Por enquanto o que sabemos é que o imprevisto está sempre à espera de uma oportunidade”. Essa terrível oportunidade encontrou-a, a Rússia, no quadro de uma violação grave do Direito internacional e ofendendo os mais elementares Direitos Humanos.
Todos podemos e devemos ser a voz da esperança e essa não pode ser outra que não seja a ética da Democracia.
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