Nada será como antes

A criminosa invasão da Ucrânia, a agressão militar desencadeada por um déspota, um pária como Vladimir Putin, o ex-agente do KGB, veio, não tenhamos dúvidas, abalar os alicerces que, no velho Continente, em particular desde o fim da guerra fria, tínhamos como adquiridos – a liberdade, a segurança, a paz.

A principal vítima é obviamente a Ucrânia – cujo território e património têm sido profundamente destruídos – e os seus mais de 40 milhões de habitantes, sendo que 10 milhões já foram forçados a deslocarem-se, 4 milhões dos quais como refugiados em variadíssimos países, uma grande parte crianças, no que constitui já a maior crise humanitária desde a II Guerra Mundial. E a esta tragédia humana somam-se outras como os massacres, as atrocidades cometidas pelas tropas russas, como agora se constata em Busha, nos arredores da capital ucraniana.

Mas, a guerra no “celeiro do mundo” ameaça, sob o ponto de vista alimentar, África e o Médio Oriente. No Iémen, por exemplo, a fome já se instalou e crescem os receios de que chegue a países como o Egipto, a Tunísia ou o Líbano, cuja dependência do trigo vindo da Rússia e da Ucrânia é enorme – de acordo com as Nações Unidas 400 mil crianças iémenitas estão à beira da morte.

No número de Abril corrente, a revista “Exame” sintetizava que, independentemente do desfecho militar, há realidades que já mudaram e que marcarão os próximos anos: “energia mais cara e necessariamente mais diversificada; mais inflação; mais gastos com a defesa que terão de ser desviados de algum lado; retrocesso na globalização; escassez alimentar; uma nova política de alianças e até uma forma mais cuidada de com quem se fazem negócios”.

O preço e o peso da guerra nas vidas dos cidadãos já está se fazer sentir, e vai aumentar. Em Março, a taxa de inflação na zona euro disparou para 7,5%. Na Alemanha, no mesmo mês, subiu para 7,2%, um máximo em 40 anos; em Espanha chegou perto dos 10%, o valor mais elevado desde 1985 e em Portugal os 5,3%, o mais alto desde 1994 – num mês, no nosso país, o cabaz básico de alimentação subiu 10 euros.

Ora, como os aumentos salariais genericamente não acompanham a escalada inflacionista, assiste-se em paralelo a uma diminuição do poder de compra das populações, a um empobrecimento.

Recentemente, o comissário europeu com a pasta da Economia, o italiano Paolo Gentiloni, reconheceu que a crise terá um efeito “não negligenciável” no crescimento. Só a subida brutal do preço da energia tem um impacto tremendo nas economias europeias.

A propósito, Teresa de Sousa, jornalista do “Público”, profunda conhecedora dos meandros da política europeia e mundial, na newsletter semanal “O Mundo de hoje” que publica naquele diário, questionava há semanas atrás: “Estarão os governos europeus dispostos a enfrentar em conjunto o impacto económico e social desta guerra, como fizeram com a pandemia? Não é certo. Os mais ricos tenderão a pensar que conseguem safar-se sozinhos. Os menos ricos sofrerão maiores dificuldades”. Semanas volvidas, a experiente jornalista, colocou uma outra pergunta, cuja resposta é tão essencial como a primeira: ”Estão os europeus disponíveis para fazer alguns sacrifícios?”.

É que, não tenhamos ilusões, “vêm aí tempos difíceis”, como sublinhou o presidente da República, no final da última reunião do Conselho de Estado, efectuada já depois do início da agressão russa.

E nada garante, muito pelo contrário, que as medidas dos governos e de Bruxelas não se possam tornar impopulares. Quanto mais não seja em resultado do cansaço que se venha a verificar. Por exemplo, o aumento imparável do preço dos combustíveis está já a gerar protestos, mais ou menos violentos, em diversos países do mundo, tão distantes como em Espanha e na Austrália. A aplicação de sanções e de contra-sanções tem consequências nos dois lados do presente conflito. E na Europa, as formações políticas populistas, mais ou menos amigas de Putin, que ganharam terreno nas democracias europeias nos últimos anos, só estão à espera de encontrar de novo um terreno favorável para voltarem à ofensiva.

A guerra terá muito provavelmente uma outra consequência assaz preocupante: a crise energética ameaça fazer a Europa arrepiar caminho na descarbonização e na transição energética, adiando o tema das alterações climáticas, o que significaria arriscar perder mais uma batalha na frente ambiental. E, por outro lado, como recordou recentemente em entrevista, Ben Cramer, especialista em segurança ambiental, a militarização que se anuncia por parte de diferentes países “irá ter um impacto assombroso sobre o clima” e “o mito da paz através do comércio foi abalado” pela invasão russa da Ucrânia – registe-se que a Alemanha anunciou um investimento de 100 mil milhões de euros nas suas forças armadas  e muitos outros países europeus já anunciaram um aumento significativo nas suas despesas militares.

A percepção que esta guerra evidencia é que, em última instância, está em curso um conflito entre as democracias e as autocracias à escala mundial.

 

          *por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.

 

Post-Scriptum: 1) Hipocrisia: Ouvir o personagem que se reclamava de “único importante “cá do burgo declarar solidariedade com o povo ucraniano é manifestamente do domínio da hipocrisia. Logo ele que se fartou de proclamar: nem um tostão para Timor!

2) Propaganda/Realidade: Bem recentemente, num dia ouviu-.se o secretário regional com a tutela da saúde gabar-se de uma redução substancial nas altas problemáticas, mas, no outro, é o próprio director clínico do Sesaram a considerar que a qualidade do serviço prestado aos doentes tem “graves limitações” precisamente por causa do elevado número de camas hospitalares ocupadas por quem já teve alta clínica. Lá está: a realidade desmentiu a propaganda.

3) Manias: O ADN governamental regional gosta de reclamar pioneirismos, a propósito de tudo e de nada. O pior, é quando se percebe que há uma diferença entre fazer e fazer bem. Então, não é que os cuidadores informais na Madeira – que a Região se gabou de ter sido a 1ª a criar- recebem metade do que é pago no Continente e o apoio só é concedido a quem vive em pobreza extrema?!

4) Dívidas: Volta e meia a criatura responsável pela famigerada dívida “oculta” reclama que o Estado volte a assumir a dívida da Região, alegando, com base naquelas contas de mercearia que encomendou, que quem deve dinheiro é o Estado. Eis que, entretanto, um seu companheiro de governação aconselhou a que se calasse, classificando como “loucuras” as obras cujas contas o dito cujo reclama que o Estado pague. Ora, cá está a resposta óbvia.

5)  Sucessão ou Mudança: Com a manutenção em lugares de topo dos demissionários ex-líder, entretanto promovido a secretário de Estado, e ex-líder parlamentar, houve de facto uma mudança de liderança no PS/M ou uma sucessão?

 


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