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Se perguntarmos a alguém como desenvolvem as pessoas a imagem do mundo, como se constrói a imagem duma cidade, como pode essa imagem ser ensinada e comunicada, quais as formas adequadas para o desenvolvimento dessa mesma imagem, não estamos a pensar nada de novo, senão a repetir as perguntas do urbanista Kevin Lynch, que nos anos cinquenta partia das bases da psicologia ambiental, afirmando quanto uma cidade pode significar para a satisfação diária dos seus habitantes e de abrigo para a sua existência. Os axiomas continuam os mesmos até aos dias de hoje e, neste caso, os problemas das cidades relacionados com o seu aspecto físico, atingiram proporções preocupantes, pelo êxodo de numerosas populações das mais diversas origens, que buscam nestes espaços o lugar para viver, aspirando diferentes oportunidades e mudança de vida. A procura de habitação acelerou a indústria construtora e provocou verdadeiros surtos de expansão imobiliária, muitas vezes ocupando locais inadequados, desintegrados da orografia e configuração ambiental, perturbando a percepção que os habitantes devem ter da cidade onde vivem e da qual esperam usufruir de uma visão harmónica e confortável.
De acordo com a evolução da ciência que determinou o aparecimento da disciplina de psicologia ambiental, a percepção é um reflexo comportamental, um processo psicológico que leva à distinção duma forma sobre um fundo e desenvolve fenómenos sensoriais que oscilam entre o agrado e o desagrado, o refúgio e a hostilização.
As mutações constantes que a cidade sofre através duma construção desordenada, é bem visível em muitos casos, e as grandes volumetrias constituem sempre um perigo para as pequenas urbes.
Tudo isto se sabe, porque a informação está aberta a todos, sabe-se de alguns edifícios exageradamente volumosos, causadores de constrangimentos aos que zelam pela harmonia da paisagem urbana, e se confrontam com as propostas polémicas de alguns empreendimentos; sabe-se das queixas das próprias populações mais avisadas e daquelas cujas pequenas casas são engolidas por enormes projectos imobiliários, que muitas vezes lhes roubam o sol, restringem os espaços e toldam a visão. E todas estas circunstâncias têm reflexos no equilíbrio emocional dos seus habitantes.
Os arquitectos não ignoram as premissas que devem determinar a ordenação do planeamento urbano, não ignoram a utilização do pensamento lógico pelas grandes escolas de arquitectura, conhecem muito bem o caracter ontológico da sua profissão.
No entanto nem tudo corre bem quando alguém, à revelia destes conhecimentos primordiais, realiza seus empreendimentos de modo alheatório e desregrado.
Preocupa-me que na nossa pequena cidade, onde a imagem das formas predominantes se harmoniza com o relevo das poderosas montanhas, uma cintura de casario de cor clara e telhados vermelhos, uma ondulação natural criada pela alternância entre vales, colinas e lombadas, se tenha visto nascer, ultimamente, as manchas negras de uns edifícios de habitação completamente desintegrados dos locais, de cor inapropriada, criando na paisagem um peso inorgânico que altera por completo o equilíbrio da paisagem urbana, alheando-se das suas características. São manchas negras desafiando a claridade, opondo-se de modo agressivo à cor e às formas envolventes.
Compreende-se que a criatividade dos construtores os conduza à utilização de materiais diferenciados, mas a cor negra destes edifícios é por demais chocante, de alguns pontos de vista de onde são observados.
Temo que a proliferação destas construções, a continuar a expandir-se, não tendo em conta a sua volumetria e cuidada integração, venha descaracterizar de tal modo a teia urbana da nossa cidade, que a torne, uma qualquer igual a tantas, e sem carácter próprio.
Termino a citar o arquitecto Kevin Lynch, que no início referi. «A cidade é potencialmente o símbolo poderoso duma sociedade. Se for bem desenvolvida sob o ponto de vista óptico, pode ter um forte significado expressivo…O caos completo sem insinuação de relações nunca pode ser agradável.»
Segundo a sua conclusão no livro bem conhecido de muitos estudiosos «A imagem da cidade», a falta de observação dos sinais que designam o carácter duma cidade ou região, pode levar à perda lamentável da sua qualidade visual.
Penso que as manchas negras emergindo abruptamente da mancha clara do nosso casario, tendem a obscurece-la, e a insinuar-se de modo indesejável, perante a natural imponência das nossas montanhas.
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