Morrer com Covid-19 é algo também cheio de restrições e de custos

Rui Marote
O drama de quem morre de Covid-19 e o que passam as respectivas famílias, inclusive na Madeira, é bem ilustrado pelo exemplo que vem a seguir. Trata-se da história, por nós conhecida, de uma octogenária com outras doenças, sem ter sido vacinada, e que acabou por contrair a doença através da visita domiciliária dos serviços de segurança social à utente.
Entrou nos serviços de urgência com senha amarela e após despistagem, verificou-se que era portadora do novo coronavírus. Foi encaminhada para a ala Covid-19 do Hospital Dr. Nélio Mendonça, onde iniciou tratamento respiratório com oxigénio; começou com 2 litros diários e faleceu a consumir 15 litros. E quando morreu, não figurava nos números dos doentes dos cuidados intensivos. Aparentemente isto não é considerado merecedor da classificação de “cuidado intensivo”.
Três dias antes da sua morte, a família recebeu um telefonema a dizer que a mesma estava curada no domicílio e já poderia abandonar a quarentena.
Caso caricato, uma vez que a paciente estava internada no Hospital. A informação, obviamente, era errada e muito surpreendeu os familiares. Porém, a voz do outro lado do telefone dizia aos mesmos que, tanto quanto se sabia, a paciente não constava da lista dos internados no Hospital. Prometeu-se averiguar o erro. Passaram três dias de silêncio e ao quarto dia os familiares foram então informados do falecimento do ente querido, e de que poderiam começar a tratar do funeral.
Aqui começou uma odisseia para se concretizar o enterro.
As pessoas que morrem com Covid-19 podem ser cremadas ou enterradas. Não têm, no entanto, direito a ocupar as chamadas “gavetas”, uma ordem dos serviços municipais.
Como a falecida iria ser sepultada na terra, tal aconteceria nas alas destinadas aos doentes de Covid-19, existentes no cemitério de São Martinho.
Quem morre de Covid-19 também não pode ser sepultado com as suas vestes.
Os mortos são colocados em sacos especiais, e ficam em camara frigorífica, até que os agentes funerários tratem das burocracias .
Curiosamente, há sacerdotes que recusam efectuar as exéquias a doentes Covid-19 e os mortos vão a sepultar sem cerimónia.
Os agentes funerários colocam no caixão o defunto, envolvido num saco, sem possibilidade de ser vestido, como é habitual. E aos custos do funeral, que ronda os 3000 euros, vem um acréscimo de 100 euros para os fatos especiais de dois funcionários, para colocarem o morto no caixão, que fica encerrado definitivamente.
Morrer de Covid-19, além de ser desagradável por vários motivos, gera confusão e sai caro…