A ilha na lapinha

Armar a rochinha pela Festa é recriar a ilha. Transmuda-se Belém com espontânea ingenuidade e apego genuíno a uma tradição sem preceitos, porque anualmente engenhada.

A arte efémera do presépio inspira-se nas paisagens próximas e nas vivências do lugar.

O Menino-Deus quer-se nascido na região que o acolhe e aconchega. Bem perto de nós. Abrigado.

Com papel pintado, troncos ou cascas de árvores e pedras constroem-se serras e vales. Concebem-se ribeiras e fajãs. Projectam-se quedas de água, levadas, lagoas e riachos. Arquitectam-se pontes e moinhos. Abrem-se caminhos que conduzem à gruta da Natividade.

Enfeita-se profusamente com alegra-campo, cabrinhas, musgo, junquilhos, sapatinhos, ensaião e outras ramagens. As searinhas são dádivas seculares, em cada ano renovadas. O verde da ilha matiza a rochinha.

PORMENOR DO PRESÉPIO DO LARGO DA RESTAURAÇÃO, FUNCHAL. FOTO: NELSON VERÍSSIMO

Para a lapa, dirigem-se pastores com os seus rebanhos. Mais ao longe, já se avistam os Magos do Oriente. Nos cumes, debruçam-se anjos sorridentes em poses adejantes e encarrapitam-se galos que cantam antes do Sol nascer. Pelas encostas, casinhas de colmo e de quatro águas, cobertas com telha de canudo. A Matriz também lá está, com o vigário no adro, junto ao coreto.

Aproxima-se a banda de música e a confraria do Santíssimo. Por aqui e por ali mostra-se a gente de ofício, com os seus utensílios e mercadorias. Homens e mulheres caminham carregando à cabeça ou aos ombros molhos de lenha ou cestos de fruta e hortaliças. Alguns vendedores deixaram tendas e mercados e andam por ali, entre veículos de tracção animal e automóveis.

A função do porco já decorre. O braseiro está pronto para a espetada. Os tocadores não desistem do despique. Afina-se a garganta com um cálice de aguardente.

PORMENOR DE UMA ROCHINHA , FUNCHAL. FOTO: JORGE DINIZ.

Do forno, saem pães e bolos. O lagar fica próximo da vinha, mesmo ao lado dos poios, onde o agricultor cuida das semilheiras e das couves.

Renques de lâmpadas multicores iluminam caminhos e vales. À entrada da gruta, uma lamparina tremeluzente compõe sombras que se movem.

O quotidiano de antigamente e o de hoje ficam bem retratados, sem preocupações com o espaço ou o tempo do nascimento mais celebrado na História da Humanidade. A visão de proximidade ultrapassa o anacronismo e a paisagem descontextualizada. O lugar natal gerou a rochinha para representação da Natividade.

Até onde a criatividade consentir, a ilha está ali, na lapinha do recanto da casa, da igreja, do adro ou da praça. O Menino, afinal, nasceu entre nós.