Arraialando

Os senhores, com as camisas irrepreensivelmente engomadas, olhavam, com orgulho não disfarçado os seus rapazes com os sapatos que brilhavam como espelhos.

As senhoras desfilavam com os seus vestidos novos, comprados para a ocasião, de mão dada com as suas meninas que levavam os seus maiores e mais vistosos laços nos longos cabelos.

Os vizinhos encontravam-se e continuavam as conversas interrompidas no dia anterior. Os primos distantes, que já não se viam há um ano, voltavam a conversar como se o tivessem feito no dia anterior. Os que vinham de férias, da Venezuela ou de Jersey, falavam como se tivessem partido no dia anterior. Mesmo que com palavras novas à mistura.

Ao fundo, a Banda tocava. Os músicos, todos encolhidos no coreto do adro da igreja, tocavam as músicas populares. Depois, vinham os conjuntos, a tocar os últimos êxitos internacionais. Mesmo que às vezes custasse reconhecer Elton John na voz de um Élio João.

As barracas dos brinquedos, a sandes de carne de vinho-e-alhos. O ocasional gelado.

A noite principiava e eu lembro-me que voltava para casa feliz.

Assim eram os arraiais da minha infância.

As primeiras vezes que fui ao arraial de São Vicente, já não uma criança, ainda se subia e descia a Encumeada para lá chegar. Era só numa rua e o Ferro Velho era o centro nevrálgico. A música era perfeita para acompanhar a plenos pulmões e o ambiente nunca voltou a ser tão bom.

As barracas de cerveja, o bolo do caco. O ocasional gelado.

A noite avançava e eu lembro-me que voltava para casa feliz.

Assim era o arraial da minha adolescência.

Cresci. Os arraiais também.

Em tamanho, programas e importância. De repente, o Verão era um verdeiro périplo deles.

O dos Lameiros abria as hostilidades, o do Seixal fazia o aquecimento e acabava em grande com o de São Vicente. A logística já era outra, onde ficar ou quem levava carro. Os modelitos eram escolhidos a dedo, comprados para a ocasião. As memórias e as histórias perduram até hoje.

A música dos dj’s da moda já não deixava conversar, só abanar-se ao som do eletrónico. Sempre com os braços bem no ar.

Ao percorrer as muitas ruas dos arraiais, cada ano eram mais, encontrava-se toda a gente. Os vizinhos do Jam ou do Marginal, os primos distantes, os primos dos primos e os que vinham de férias, do Continente, de Inglaterra ou de Espanha.

As barracas de tudo-e-mais-alguma coisa, o cachorro quente. Nada de gelado.

A manhã despontava e eu lembro-me que voltava para casa feliz.

Assim eram os arraiais da minha juventude.

Quando era mais pequena, a minha filha mais velha adorava os carrinhos elétricos dos arraiais. E de passear debaixo das flores de plástico.

Depois do almoço, lá ia eu com ela pela mão, com orgulho não disfarçado, com o laço a prender a mecha teimosa do seu cabelo curto.

As barracas de brinquedos, o algodão doce. O obrigatório gelado.

A tarde estendia-se e lembro-me que voltava para casa feliz.

Assim eram os arraiais de mãe.

Descobri há pouco tempo, quase por acaso e com uma ajudinha do meu pai, os arraiais de São Roque. E agora não quero outros. Mais madeirense, divertido e genuíno será difícil.

E pelo segundo ano consecutivo, nada. Compreensivelmente. Obrigatoriamente.

Mas raios, as saudades que tenho de um arraial.

Assim são os meus arraiais pós-Covid.

Não vejo a hora de dizer isto.


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