Ricardo Salgado, “A justiça tarda, mas não falha!!!”

Como o país teve oportunidade de ver e pasmar-se “incontidamente”, sobretudo os lesados do BES, depois de ter sido dispensado de ir a tribunal, Ricardo Salgado foi passar as suas merecidíssimas férias na Sardenha com a família, beneficiando (“gozando” será talvez mais adequado) da lei que permite aos arguidos com mais de 70 anos não marcarem presença em tribunal, devido aos riscos associados à pandemia.

Certo, não está em causa o direito a férias. Deixá-lo, coitado!

Certo, a ausência do arguido das audiências do julgamento tem enquadramento legal, como foi confirmado pelo Tribunal”, permitindo-lhe não comparecer.

Errado, Salgado não comparece em tribunal, alegando (convenientemente) os riscos pandémicos, mas logo que o mesmo lhe deu “carta branca” para sair do país (não fosse, só por acaso, Salgado o “colarinho branco” DDT), e lá foi o dito cujo, destemido, qual terraplanista Trump ou negacionista Bolsonaro, desafiar o “resfriadinho” para a Sardenha, que, neste momento, “apenas” regista uma média de 230 casos, a sete dias, e está numa nova fase crescente da pandemia.

Além do mais, uma deslocação de carro preto ao tribunal em Lisboa é, de longe, mais arriscada do que uma viagem de iate particular à Sardenha, palavra.

Não é preciso ter um curso em epidemiologia ou ser virologista para saber que assim é, pronto.

Assim como assim, há quem diga que a escolha turística e profilática mais indicada seria a ilha da Sicília… Confesso que não percebo o porquê? Nem eu nem milhões de portugueses indignados, embora não surpreendidos com o estado a que chegou a justiça em Portugal.

Conforme se sabe, o ainda DDT, de 77 anos, está em Porto Cervo e terá ido com a esposa e um outro casal visitar a filha e a neta. Nada de estranho até aqui, não fosse dar-se o caso de não haver consistência com os riscos que o dispensavam de sentar o distinto traseiro em tribunal, ou seja, não combina o respetivo com as calças, pois, como se vê, o suposto medo preventivo da pandemia que sustentava as ausências a tribunal deu subitamente em destemor turístico!!! “Mais rápido que uma bala! Mais forte que uma locomotiva! É um pássaro? É um avião?” Não. É o Super-Salgado a passear-se pela Sardenha, dispensando esse inútil costume plebeu dos comuns mortais, com as “cenas maradas” das máscaras e distanciamento social.

Enfim, coisas de “povo”, “tá a ver”?

Consta “para os autos” que o ilustre super-herói será potencial candidato a imortalização no “Panteão”. Será? É a brincar, claro, mas a verdade é que já estivemos mais longe de surrealismos tais.

Num “país de brandos costumes”, para “gente de valor”, “Ricardo Salgado, tal como na vacinação, já pode autoagendar a audição em tribunal”, como profetiza o “Inimigo Público” ou, digo eu, em “Open day”.

Não é de admirar, de todo. Afinal, na “silly season”, não poderia faltar o circo da justiça e do processo legal, as suas figuras de palhaço pobre, a rebaldaria, e o seu galopante descrédito.

Se algo se prova, mais uma vez, é que o dinheiro a rodos (sobretudo o oculto) e a influência certa e cirúrgica permanecem, quase invariavelmente, isentos de consequências para condutas criminosas, com a complacência das autoridades judiciais, bem à vista de todos!

À vista de todos, esta “coisa” a que ainda se chama “justiça” tem todo o ar de um inventário de ruínas e águas paradas. “Dias sem fim, a fazer tricô, no seu sono de pedra”, citando José Cardoso Pires.

Pois é, a justiça é cega. Infelizmente, não na aceção que se lhe atribui comummente, mas no sentido de que o maior cego é o que não quer ver e, pior ainda, atuar.

Enterrar no lodo é, reza a evidência, para a miuçalha de peixes. Para robalos, digo. Para baleias e tubarões, nem telescopicamente. Como diz António Costa, há “casos” e casinhos”, essa é que é essa!

Já para não falar da garantia de Cavaco Silva de que o BES estava sólido.

Palavras “sábias” de homens que alumiam os nossos passos e nos guiam no caminho da verdade e da transparência. Quase um regresso à pureza do líquido amniótico!

Logo, será que alguma vez vamos poder confiar que “a justiça vai fazer o seu caminho” ou que à justiça ficará o que é da justiça, sem antes temermos que os princípios tenham aparência de ficção romântica citada à exaustão, com dificílima correspondência na realidade?

Afinal, há que tomar fôlego entre adiamentos, travagens, correrias e tropeções em alçapões legais, desorientação entre os seus labirintos e, finalmente, a salvífica meta da prescrição! Sem tirar nem pôr.

A sério, haverá ainda algum juiz aprumado que não se sinta humilhado com estes e outros atentados inqualificáveis à justiça perpetrados pelos Salgados desta vida?

A avaliar pela realidade esdrúxula a que se assiste há décadas na justiça comatosa deste país, com a cumplicidade ou promoção legislativa de políticos e respetivas políticas de todos os quadrantes, haverá sempre lugar a gargalhadas trocistas de Berardos, a pobrezinhas garagens, a franciscanos palheiros, a melhores amigos milionários, a zelosos sobrinhos com contas na Suíça, a generosas mães com domésticos cofres. No fundo, justiça ou justiçinha à medida de quem tiver posses para a comprar.

A continuar assim, “assobiem-lhe às botas” e tirem daí o sentido. Tem barbas, a história. Trabalho perdido.

Dizem-me aqui “as cartas” que, quando vier de férias, o ainda “Dono Disto Tudo” voltará a estar receoso do vírus e, parecendo que não, invocará, sem hesitações, os riscos da pandemia para se baldar de novo ao tribunal.

Para os que ainda acreditam na cegonha, veremos o quão certeiro será o ditado: “Quem faz a cama deita-se nela”…

Ou não!