A Primavera da Vida

Não posso dizer que goste de olhar para as fotos, que por aí circulam, da noite na Rua das Fontes, na Zona Velha, no Bairro Alto e de outros que tal.

Não posso dizer que quando as vejo brado com deliciada satisfação, ah que lindos, fazem muito bem!

Mas também não posso dizer que não compreendo.

Compreendo.

Não deixa de estar errado, de ser um incumprimento grosseiro das regras sanitárias, de uma irresponsabilidade, de falta de civismo e tudo mais que queiram.

Mas compreendo.

Se formos a olhar bem para as fotos, a maior parte dos que lá estão, ou são adolescentes ou jovens que, mesmo já não adolescentes, ainda há pouco o eram.

Eu, apesar do calendário e do espelho contarem uma história diferente, também ainda há pouco era adolescente.

E lembro-me do turbilhão hormonal. Da montanha russa emocional. Da comoção da descoberta, de tudo ser novo e novidade. De querer ver, fazer mais. E sobretudo dos amigos, da importância dos amigos e do grupo. Elementos que quase nos definem nestas idades.

De sair à noite. Sempre adorei a noite. Poderia até dizer que dei o primeiro pontapé na barriga da minha mãe numa discoteca ou que, aos oito anos, chorava porque só queria voltar para casa de manhã. Mas os tempos agora são outros e já não parece nada bem. Por isso não vou dizer.

Sair à noite é um dos privilégios que vem com a adolescência. Um evento luminoso aguardado avidamente, com os dias até lá a serem contados com a mesma excitação como, ainda ontem, contavam os dias para chegar o Pai Natal.

E agora temos a adolescência COVID.

O mesmo turbilhão, a mesma comoção. Mas também a mesma sede de descoberta, de ver e fazer, a mesma importância dos amigos, do grupo. Da noite.

Tudo proibido.

Miúdos que foram privados de tanto. Das aulas presenciais, das conversas do pátio da escola, do desporto, da convivência, do toque. Da normalidade. Da liberdade.

Em vez disso foi-lhes impingida, ainda mais, a tecnologia, como única forma de aprender. Pior, de socializar.

Não sei. Penso que não pode ainda ninguém avaliar as consequências desta maldita pandemia, do distanciamento necessário e do medo inerente que passaram a fazer parte das regras de convivência (as)social, nestas tenras personalidades que ainda se estão a formar. Mas não auguro nada de muito bom.

Um pouco exagerado? Talvez.

É só um ano. Ou dois ou três, ou sabe-se lá quantos. Mas um ano de adolescente é tão intenso, tão vivido, que é quase um ano de cão. Em todos os sentidos. E, como bem me diziam hoje, as vivências dos quinze já não são as dos dezasseis ou dos dezassete. Tudo tem o seu lugar e o seu ritmo. Estes miúdos perdem experiências únicas que são tristemente irrepetíveis.

É preciso relativizar. Claro que sim. Antes uma adolescência COVID que uma adolescência em qualquer uma das Guerras Mundiais. Em toda a Idade Média. Basicamente, em toda a História que nos antecedeu.

Certíssimo. E vejo isso claramente. Mas isso sou eu, do alto da tranquilidade dos meus “entas”. Infelizmente as coisas não são tão lineares ou percetíveis nos anos em que Não Há Estrelas no Céu a dourar o caminho acneico.

E é difícil. Difícil para os miúdos e imagino que também incrivelmente difícil para os pais. Porque as portas devem bater ainda mais vezes e com mais força lá em casa. Porque a frustração e o desequilíbrio encantadores da idade devem ser levados a expoentes inimagináveis.

Porque os pais ainda têm de dizer mais vezes que não.

Porque sabem que dizer não é o mais correto, o mais responsável, mas que é também privá-los de todas aquelas experiências deliciosas que eles, pais, enquanto adolescentes, tiveram. Até daquelas que fingem que não tiveram.

É verdade que as coisas podem ser feitas pelo meio termo, de forma mais responsável, sem aqueles ajuntamentos.

É verdade que está errado e que não pode acontecer.

Mas se compreendo? Compreendo.

Só não compreenderá aquele nunca cometeu uma loucura, um qualquer ato insano, na sua juventude e que agora, como adulto, tem cumprido todas as normas à risca sem falhar uma única.

Não conheço ninguém assim.

Sinceramente, nem gostaria de conhecer.