É para Inglês ver?

 

Depois da vergonha de Alvalade, e de mais um inquérito-fantasma, com apuramento-fantasma de responsáveis e responsabilidades, tão prioritário para o IGAI que já vai para um mês de ruidoso silêncio, eis que surge mais uma irrefutável prova de que temos um governo em confinamento, gravemente infetado pelo vírus da incompetência e do desnorte, uma DGS nos cuidados intensivos, um Secretário de Estado do Desporto, em estado de choque, a tecer loas ao comportamento exemplar dentro do Dragão, à honrosa iniciativa da Champions e ao milagre económico trazido por milhares de grunhos ingleses sem bilhete que se juntaram nas esplanadas e cafés para esgotar o stock de “bebes e bebes”, reanimando transitoriamente o setor da restauração, hotelaria e afins, ainda em respiração assistida.

Quem pode dizer que a tradição não é uma coisa linda? Admitir o hooliganismo, sacudir a água do capote, preservar o solteirismo da culpa, exibir sem pudor o agachismo do governo português ao Reino Unido e aos presentes envenenados da milionária e astuciosa UEFA não serão, afinal, património cultural e histórico a preservar, sobretudo num país que é tomado, mais uma vez como “o caixote de lixo da Europa”?  Se assim é, que vergonha tenho de ser português. Que vergonha tenho de ser representado por governantes sem espinha.

Marcelo Rebelo de Sousa até colocou o ar severo n.º 5 e, como “professor uma vez, professor toda a vida”, não deixou de dar um corretivo puxão de orelhas aos “baldas da turma” da governação: “Não se pode dizer que temos que obedecer às regras, fixa-se um limite e depois o limite já não é esse, é outro”; “não é possível dizer que [os adeptos] vêm em bolha para assistir a um espetáculo desportivo e depois não vêm em bolha, não é possível”.

E não é que o senhor Presidente tem carradas de razão, mas, lá está, Marcelo há muito que sabe a regra básica de que em política nada é impossível, nem sequer fazer desaparecer uma pacífica “bolha”, deixando-a transformar-se numa vergonhosa “bulha” de primatas hooligans? Apesar de saber tão bem como o governo que o resultado seria exatamente o que foi, Marcelo, como lhe competia, fez o seu papel pedagógico perante o comportamento medíocre dos incorrigíveis “delegados” da turma governativa: “Aí ou há um discurso ou há outro, tem de haver um discurso”, sustentando que “aquilo que tem de ser o discurso a fazer perante uma situação tem que bater certo com a realidade”. “Porque se de repente há coisas que não batem certo com a realidade há uma perturbação e há uma crítica das pessoas”, alertou.

Depois do providencial Conselho de Ministros de 13 de Maio (por dois dias não calhava a uma sexta-feira, mas que foi dia aziago, lá isso foi), a Ministra Mariana Vieira da Silva veio garantir que estava “definido um conjunto de regras”, assegurando que “As pessoas que vierem à final, virão e regressarão no mesmo dia, com teste feito, em situação de bolha. Ou seja, em voos charter, com deslocações para uma zona de espera.” Mais afiançou que estariam “em território nacional menos de 24 horas, nesta permanência em bolha”.

A garantia viria rapidamente a ser reproduzida pelo Secretário de Estado do Desporto, mas como reza o velho ditado: “Mais feio que mentir é mentir para quem já sabe da verdade” e da verdade todos sabiam, começando pelo governo, Presidente da República, Presidente da Câmara do Porto, entidades desportivas, forças da autoridade e todos os cidadãos maiores de um ano.  Em bolha? Mas qual bolha, qual carapuça?

Mais vale nos determos em definições porventura mais objetivas e menos circenses.

Comecemos pela definição económica de bolha: “Situação, geralmente ilusória ou efémera, em que há crescimento de uma variável ou aumento do valor de um bem sem sustentação real (ex.: bolha especulativa; bolha imobiliária; bolha inflacionária)”. Em bom rigor, o que ali se passou, economicamente falando, pouco dista da definição antes dicionarizada.

Já no sentido informal, figurado, bolha representa apego excessivo ou obsessivo a uma ideia ou intenção, fixação, mania, telha. E, por falar em telha, houve muita “telha corrida”.

Segundo António Costa, acompanhado do habitual riso escarninho de atrapalhação e “desculpas de mau pagador”, o looping da CMTV é que fez parecer que havia desacatos e desrespeito por todas as regras sanitárias. Como todos tiveram oportunidade de ver, tudo não passou de um amistoso e muito agradável encontro de escuteiros que acabou de mãos dadas, numa “roda do jogo do lenço”, tendo o prejuízo ficado por uma caixa de garrafas de leite achocolatado escaqueirada e duas ou três cadeirinhas para reparar na carpintaria camarária.

Resumindo, o governo não falhou. Apenas reuniu as condições logísticas e grunhísticas para que se repetissem as boçalidades em Lisboa nos festejos do Sporting. Ainda assim, ficou para a posteridade uma “pérola” política de António Costa: “Quem me dera que o meu problema fosse o ministro da Administração Interna. Significa que não tenho um problema porque tenho um excelente ministro”. Disse e nem se riu!!! Ah, valente!!!

Já sei, dir-me-ão que Cavaco Silva também não avisou. Não digo que não. Tivesse ele avisado e, quem sabe, nada disto aconteceria, como nada aconteceu à solidez do BES.

O Presidente da Câmara do Porto, aproveitando o palco, veio publicamente garantir, de forma olímpica: “Nós temos absoluta certeza que não vamos ter aquilo que aconteceu em Lisboa, que foi absolutamente dramático.” Porém, já no dia do jogo, Rui Moreira procedia a uma “ligeiríssima” inflexão discursiva: “Recordo que quando temos competições internacionais (e os britânicos são particularmente de alguma maneira propensos a este tipo de atividade) aquilo que acontece sempre é haver aqui e ali escaramuças.”

Por outras palavras, o homem que tinha absoluta certeza de que os incidentes de Lisboa não se repetiriam, passou em face das evidências que negara para a certeza de que a desordem e o caos eram mais que previsíveis. Ora, quem cospe para o ar…”.

O Presidente do Futebol Clube do Porto, também se mostrou cheio de absolutas certezas que, mais tarde, viriam a desabar como castelos de areia: “É importante para o FC Porto, para o futebol português, para a cidade, e para o próprio país. Demonstra que em Portugal se consegue realizar grandes eventos mesmo em pandemia, e depois da vergonha que se assistiu em Lisboa há dois dias, é necessário desmanchar essa má imagem que Portugal deu, que as autoridades em Lisboa deram, pois permitiram que houvesse aquela cena degradante em termos de defesa da saúde pública.” Ora, quem cospe para o ar…”.

Para a omnipotente UEFA, que veio fazer do Portugal dos agachados, sedentos de protagonismo e outros proventos, o seu “quintal”, a final da Liga dos Campeões no Estádio do Dragão, no Porto, foi um “grande sucesso”, referindo que a “esmagadora maioria dos adeptos” cumpriu as “diretrizes estabelecidas”.

Nada mais “verdadeiro” e “motivador do orgulho” de todos os portugueses, sobretudo daqueles que obedecem a todas as regras sanitárias impostas pelo governo e pela DGS, acatando restrições, condicionamentos, confinamentos, repressão de liberdades e direitos, sob pena de sofrer penalizações de toda a ordem e dureza, sendo ainda forçados a assistir com indignação, náusea e revolta a uma invasão absolutamente arrogante, bronca, sanitariamente irresponsável, nas barbas de molho de um executivo politicamente incompetente e despudoradamente subserviente.

Depois destes inqualificáveis exemplos de desrespeito por toda a política de sensibilização, prevenção, medidas restritivas, desvalorizando a gravidade das consequências inerentes a todos os níveis, urge perguntar como reagirão os portugueses a regras, interdições e sanções, não apenas os amantes do chamado Desporto-Rei, mas, e sobretudo, os que não são particularmente aficionados.

Será que a expressão idiomática “é para inglês ver”, designando normas que não passam de letra morta para muitos turistas e locais negacionistas, inconscientes ou deliberada e criminosamente nas “tintas para a saúde pública” não passará, nos tempos mais próximos, à reprodução de desobediência civil do “é para português ver” ou será que teremos de agir como estrangeiros num insuportável “Sorry, I don`t understand you?”

Se alguns podem es(cabrita)r, porque não podemos es(cabrita)r todos e sermos todos igualmente Excelentes?