Efemérides e História

Todos os anos, o calendário assinala datas especiais que podem servir para a divulgação da História e afirmação da identidade de uma comunidade. A História não vive de efemérides, mas a elas não deve o historiador ficar alheio. Constituem boas oportunidades para divulgar o conhecimento, lembrar factos e personalidades e promover a cidadania com diversas iniciativas culturais e recreativas.

Este ano, a Madeira tem a possibilidade de invocar, por duas vezes, um período relevante da sua História.

Comemora-se o Quinto Centenário da escolha do Padroeiro do Funchal, São Tiago Menor, realizada na vereação de 8 de Junho de 1521. A Diocese do Funchal apresentou, em devido tempo, o programa comemorativo. Mas da parte da Câmara Municipal do Funchal nada se conhece. Trata-se, na verdade, de um voto do município, ao qual depois se associaram as autoridades religiosas, o capitão do Funchal e demais entidades do concelho.

D. MANUEL, JARDIM DA PRAÇA DE TENERIFE, FUNCHAL. FOTO: N. V.

Hoje o poder é laico. A crença na intercessão de São Tiago Menor não constitui dever nem obrigação dos edis. Contudo, compete-lhes honrar o voto dos antepassados, em circunstâncias adversas, e fazer desta promessa um momento particular do quotidiano da cidade, celebrado com elevação e grandeza. Sempre será mais genuína uma memória com quinhentos anos do que outras iniciativas, ditas tradicionais, mas nascidas num passado recente, para comércio ou propaganda. Até para fins turísticos, poderia o Funchal tirar partido da celebração do seu padroeiro, a exemplo do que se faz em muitas cidades, nas datas históricas que obrigam manifestações de carácter religioso.

Outra efeméride do presente ano é o Quinto Centenário da morte do rei D. Manuel. Faleceu em 13 de Dezembro de 1521 e está sepultado no Mosteiro dos Jerónimos. Foi o quinto e último donatário do arquipélago da Madeira. Depois de ascender ao trono de Portugal, incorporou o arquipélago da Madeira na Coroa, em 1497. Extinguiu, por conseguinte, a figura do duque-donatário, existente desde 1433 na administração insular.

Ainda antes de sonhar vir a ser rei, D. Manuel, como Senhor do arquipélago da Madeira, delineou, em 1485, um plano para o desenvolvimento urbano do Funchal, ao doar ao concelho um terreno para construção de uma igreja, um adro, uma praça e um edifício para a Câmara.

Perante a prosperidade da cultura da cana sacarina e a riqueza gerada com o comércio do açúcar, o duque-donatário pretendia elevar a vila do Funchal à categoria de cidade e nela instituir uma diocese, o que, de facto, veio a acontecer.

Em 1508, o Funchal tornou-se cidade. Neste ano, a Igreja grande (futura Sé), começada a construir em 1493, era benzida. Em 1514, foi instituída a diocese do Funchal, que abrangia vastos territórios ultramarinos do império português.

Bem sei que há determinadas pessoas que da História, nomeadamente das relações entre o donatário ou o rei e o arquipélago, têm uma visão anacrónica, que lhes tolhe o discernimento, e tudo reduzem ao deve e ao haver. Recusam, por isso, a lembrança ou homenagens conotadas com o poder central. Foi assim nas comemorações do Sexto Centenário do Descobrimento do Porto Santo e da Madeira, nas quais quase foi esquecido o feito dos navegadores e povoadores portugueses. No entanto, a análise histórica séria, e sem complexos, permite reconhecer o importante papel do duque e depois rei D. Manuel no desenvolvimento da Madeira.

No jardim da Praça de Tenerife, existe um “busto” de D. Manuel, da autoria de Nicolau Viana (2001), colocado sobre um plinto inestético e inadequado. De certa forma, esta escultura revela, pela sua concepção e localização, como a memória do Rei Venturoso foi subestimada e como a arte pública é encarada no nosso meio.

Lembrar o Quinto Centenário da morte de D. Manuel poderá constituir ocasião propícia para estudar e compreender melhor a sua acção, em prol de uma ilha que começava a ser conhecida na Europa e assinalada nas rotas do comércio internacional, devido à excelência do açúcar aqui produzido.