Faz hoje 515 anos que milhares de judeus foram massacrados em Lisboa

Foto Rui Marote

Hoje completam-se 515 anos sobre o famigerado “Massacre de Lisboa”, triste efeméride que recorda a morte violenta de mais de quatro mil pessoas, quase todas os chamados cristãos-novos, às mãos de uma turba que deu livre curso ao seu ódio anti-semita na capital portuguesa do séc. XVI. Até então, os judeus em Portugal tinham estado relativamente tranquilos em Portugal, mas tudo isso acabou há mais de cinco séculos, neste dia.

19 de Abril de 1506 foi um domingo de Pascoela, o domingo a seguir à Páscoa. E na capela do Convento de S. Domingos alguém declarou que um crucifixo brilhava de forma estranha, numa “luz milagrosa” cuja notícia se espalhou, atraindo muitos crentes ao templo. Um indivíduo, alegadamente um cristão-novo, teve a infelicidade de referir que se tratava apenas do reflexo de uma vela acesa… o que resultou logo no seu espancamento, no exterior da igreja, o que logo foi aproveitado por dois frades para incitar ao assassinato dos cristãos-novos (judeus recentemente convertidos à fé cristã). Segundo os frades, eram os cristãos-novos os culpados da fome e da peste que assolavam a urbe. Os corpos dos massacrados foram queimados no Rossio.

Durante três dias consecutivos turbas desenfreadas deram livre curso aos seus maus instintos, tendo-se juntado às mesmas marinheiros de navios que estavam ancorados no porto. Quem pôde, fugiu. Mas muitos foram mortos. O horror só terminou quando já não havia cristãos-novos em Lisboa.

Só então o Rei D. Manuel castigou vários dos responsáveis, inclusive retirando alguns privilégios à cidade.

O episódio serve de pano de fundo a um romance notável, “O Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler. Na altura da sua publicação, a crítica do jornal “Público” referiu o seguinte: “Zimler usa a literatura para lembrar as terríveis abominações que levam o ser humano a destruir e a humilhar outros seres humanos […] e para apontar um caminho de redenção, de expiação e de ação jubilatória”.