José Manuel Rodrigues: de jornalista a político

Rui Marote
Dando continuidade às minhas recordações de acontecimentos do passado iniciadas numa anterior crónica, nesta conto a história de um jovem estudante do Liceu Jaime Moniz, que nos finais de tarde colaborava na redacção do Jornal da Madeira. Éramos vizinhos de porta na Rua Bela de Santiago, números 28 e 30, em frente do primeiro edifício da Universidade. A Redacção do JM funcionava então a meio gás até às 5 horas da tarde, quando chegavam os velhos redactores, professor Eleutério, Ernesto Rodrigues, Gilberto Teixeira, António Jorge Andrade, José António Gonçalves, Filipe Malheiro, Caires, Danilo Gouveia, eu próprio e o director Alberto João Jardim. Na secção de Desporto, José Manuel Silva, colaboradores Duarte Azevedo e Henrique Correia.
O jovem José Manuel Rodrigues fazia então “escola” com pequenas notícias, dando os primeiros passos no jornalismo.
Em 1980, decorre na ilha de Tenerife, no Hotel Botânico, a primeira reunião das regiões periféricas com presença do presidente Jardim.
O Jornal não tinha verbas para a deslocação de uma equipa de reportagem ao arquipélago. Incuti, pois, no meu vizinho de porta a ideia de nos deslocarmos a expensas próprias, para a cobertura desse evento. Sabíamos que a RTP e RDP Madeira e Diário não estariam presente, somente a agência de notícias ANOP. Era cobertura jornalística garantida, uma vez que a informação só iria chegar através da agência espanhola EFE e a más horas. Antes da partida falei com Armindo Abreu, responsável pelo noticiário da Estação Rádio Madeira, que nos solicitou também o envio da reportagem dos acontecimentos.
Tivemos o privilégio de conhecer pela primeira vez uma sala de imprensa com telefones à disposição, sem limites.
Aqui começou o jovem José Manuel a dar “banho noticioso” do que se ia passando no Hotel Botânico, e a rádio Madeira a pôr no ar as notícias, “calando” a televisão e a RDP. O sucesso foi de tal ordem, que Armindo Abreu ficou surpreendido pela positiva e o jovem iniciante no jornalismo é convidado para fazer programas ao vivo no Café Golden Gate. Mais tarde Maria Virgínia convida José Manuel a integrar o quadro da ANOP no Funchal.
Anos depois, com a ida de Maria Virgínia para a televisão, Armindo Abreu leva José Manuel consigo. Permaneceria na RTP até enveredar na política a tempo inteiro. Hoje ocupa o lugar de 1ª figura da Governação Madeirense, dando 10 a zero aos antecessores, em termos de protagonismo público. Chegou aonde ambicionava…
Como líder do CDS, teve períodos bons e maus. Destacamos o ponto alto, quando o CDS consegue a maior votação de sempre, e ser o segundo maior partido da região. Teve um opositor, Rui Barreto, que na segunda reunião da comissão política realizada no Porto Bay, exigiu a “cabeça do presidente” numa bandeja, como fosse João Baptista… Começou um cisma, com a troca de Barreto para Lisboa e José Manuel para a Madeira.
Houve um ano de vacas gordas, o número de deputados na Assembleia traduziu-se em maiores proventos, que fizeram os cofres do partido esbanjar nas campanhas eleitorais como se fosse um supermercado, oferecendo bens alimentares e medicamentos distribuídos por uma empresa do Diário. As paragens dos autocarros são ocupadas com grandes cartazes, o presidente contrata uma equipa do continente para estruturar a campanha e a imagem do líder em estúdio fotográfico. Hoje o CDS é o único partido que não tem sede própria, e anda à procura de um espaço, uma vez que o edifício da Rua da Mouraria não oferece condições e as reuniões políticas são em salas de hotéis. Atravessa um período de vacas magras.
Assisti a várias campanhas eleitorais, em que o CDS foi sempre o “caixote do lixo” do PSD, indo buscar os descontentes daquele partido. Recordo nomes de topo do PSD, presidentes de câmaras, que em alturas de campanha vestiram a camisola do CDS em desespero, com a garantia de ganhar, e os resultados foram um desastre.
Foi assim com o primeiro presidente de Santana, Manuel Agostinho (“o Barreiro), Egídio Pita na Ponta de Sol, Fausto Pereira em Câmara de Lobos (ex-deputado do PPD), e Antero Vasconcelos, na Calheta. Hoje o CDS é “muleta” do PSD, que faz coligações onde lhe interessa, e os centristas prestam-se a tudo.
Hoje, para José Manuel Rodrigues, o destino do CDS provavelmente é agora indiferente. Já conseguiu alcandorar-se ao cargo mais relevante da Região. Quanto ao partido, cujo futuro se mostra incerto, está dependente de muitas variáveis. Mas há um limite de tempo para se ser “muleta” de outros…