Sem Capital Humano não existia Teletrabalho  

Ao longo dos tempos, muitas têm sido as mudanças dentro das estruturas das várias organizações que compõem o tecido empresarial mundial. Com a globalização, as empresas passaram a estar ligadas a um vasto mundo de oportunidades agregando-se por clusters de rede, o que potenciou uma troca de sinergias entre empresas, culturas e continentes. A revolução tecnológica teve um papel fulcral e decisivo nestas mudanças estruturais e organizacionais, todavia para manusear as máquinas será necessário o motor de combustão de todas as organizações: O Capital Humano!

Numa época em que o teletrabalho impera e quando o próprio Sr. Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, promulga o decreto em que prolonga o teletrabalho obrigatório até ao final do ano, é necessário reflectir sobre o papel do capital humano nas organizações e quais os prós e os contras do teletrabalho nas carreiras profissionais.

No nosso país, o teletrabalho impera há praticamente um ano, um ano de profunda transformação das rotinas diárias, de um tremendo ajustamento de horários laborais à vida familiar, de uma nova dinâmica de contacto digital, de um novo espaço de trabalho e um vestuário mais compatível com um estilo de vida mais descontraído e modesto.

Na questão da adaptação ao teletrabalho é necessário distinguir dois tipos de famílias: as famílias com dependentes directos e as famílias sem dependentes associados. Numa família em que os membros sejam todos adultos, a gestão do teletrabalho torna-se mais fluída, pois podem se focar no seu próprio trabalho e efectuar uma gestão mais equilibrada entre o seu trabalho e os afazeres domésticos. Uma família que tenha dependentes menores associados, a gestão do teletrabalho torna-se um desafio complexo, pois os menores necessitam sempre de mais assistência e acompanhado. Estas evidências são a prova da capacidade de resiliência e de dedicação de todos aqueles que apesar das adversidades dão o litro pelo amor à camisola.

Outro ponto que acho que é importante referir, onde acho que Portugal ainda se encontra muito atrás, é a questão da gestão de talento interno, sobretudo em contexto de teletrabalho. Muitas empresas continuam a olhar para os funcionários como meros números de tabelas de excel. Muitos analisam o revenue que cada um traz à organização em termos financeiros, mas onde fica o conhecimento e o know-how?

Acho importante as empresas terem índices de tabelas salariais e mapas de progressão de carreira, mas mais do que isso é terem a capacidade de olhar para o colaborador como parte integrada da estratégia de sucesso da organização e valorizar o seu empenho consoante a obtenção de objectivos quantitativos, mas também qualitativos. Os colaboradores por estarem em teletrabalho, não deixam de estar ao serviço, não deixam de continuar dia após dia a colaborar para o sucesso das organizações e precisam de se sentir envolvidos e motivados. Este é outro dos sucessos de uma organização, a capacidade de manter motivado o seu capital humano.

Entrando num ponto mais sensível e indo ao cerne da questão temos que um dos maiores problemas que tem vindo a ser debatidos nos últimos meses pandémicos é a questão dos custos que o funcionário tem com o teletrabalho. A título de exemplo, existe uma empresa de grande dimensão no Reino Unido, que atribuiu um voucher a todos os seus funcionários por forma a que estes pudessem comprar equipamentos, que pudessem tornar o teletrabalho mais cómodo. (cadeiras, mesas, teclados, ratos, monitores etc)

No nosso país, o próprio Governo já veio a público alegar que apesar de a lei do teletrabalho não ser explícita exaustivamente nessa matéria, a interpretação que é feita é que cabe à entidade patronal pagar as despesas de internet e de telefone, excluindo a factura da eletricidade e água. A meu ver, o que deveria ser praticado por todas as empresas que têm funcionários em regime de teletrabalho, era atribuírem um subsídio fixo mensal, uma espécie de despesas de deslocação, mas com o efeito ao contrário, onde nessa bolsa fixa mensal tivesse acautelado um valor suficientemente razoável para colmatar todas as despesas que os colaboradores pudessem ter.

É importante referir que já existe estudos de impacto em fases avançadas um pouco por todo o mundo, de tornar o regime de teletrabalho algo permanente, podendo assim diminuir os custos de arrendamento, electricidade, de equipamentos físicos o que levará a poupanças consideráveis por parte das empresas, sobretudo aquelas que dispõem de escritórios localizados nos centros das cidades, onde o preço de arrendamento por metro quadrado é dos mais caros.

A pandemia veio dar um avanço forçado para a entrada na era digital a muitas empresas, no entanto há que ser justos, as empresas continuam a ser feitas de pessoas, seja presencialmente ou à distância, o sucesso de qualquer organização reside na capacidade de inovação, resiliência, criatividade, espírito de sacrífico, entrega, motivação e empenho. A tecnologia é apenas um navio que para chegar a bom porto tem sempre por detrás um qualificado capital humano.

 

* O autor escreve segundo a antiga ortografia da língua oficial portuguesa*