Adius, de Vasco Gato

Leonor Coelho, docente da Universidade da Madeira, investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa.

 

Vasco Gato estreou-se na poesia com o livro Um Mover de Mão, publicado pela Assírio & Alvim, em 2000. A coletânea Contra Mim Falo impressa, em 2016, pela editora Plural reúne onze livros do autor. Tradutor de Anthony Burgess, Charles Dickens, Wirginia Woolf, Charles Bukowski, entre outros, Vasco Gato enveredou ainda pelo teatro, ao publicar, em 2016, Daqui ninguém entra. À poesia e ao (micro) texto dramático segue-se, agora, a escrita de ficção.

Publicado pela editora Abysmo em 2020, o livro Adius desdobra-se em torno da vida do escritor Viriato Alves, da mãe, do padrasto Ernesto e da sua “irmã emprestada” (p. 36). Com ilustrações de Carolina Moscoso, a citação de Teixeira de Pascoaes que figura na página da ficha técnica dá o mote à narrativa: “Na palavra abysmo, é a forma do y/que lhe dá profundidade, escuridão, mistério…/Escrevê-la com i latino é fechar a boca do abysmo, /é transformá-lo numa superfície banal”.

Para quem conhece a escrita de Vasco Gato sabe que não há nada de banal nas páginas dos seus livros. Inquietante, simultaneamente lúdico e corrosivo, Adius permite uma viagem pelos meandros da incerteza e da incompletude da vida, captando, deste modo, a atenção do leitor. A trama do primeiro romance de Vasco Gato revela que os relacionamentos vividos ao sabor de códigos sociais são fraturantes porque insistem na singularidade de um quotidiano preso a convenções.

Este romance apresenta-se ao leitor sob o signo da morte e da perda. Através de uma mise en abyme, um excerto da narrativa de Viriato Alves inscreve-se no incipt de Adius, tipograficamente destacado do texto de Vasco Gato. Um livro dentro do livro vindo de certo modo a sustentar que a vida e ficção, por vezes, se sobrepõem, sem que por isso a ficção seja ditada por acontecimentos biográficos, como defende o próprio autor da ficção inicial.

Na verdade, do romance que marca a estreia de Viriato Alves na literatura pouco mais será revelado. Os pais do menino, vítima aos dois anos de morte súbita, separaram-se pouco tempo depois da criança nascer. A mãe não conseguiu encarar a avassaladora missão da maternidade, partindo para o Oriente para se reencontrar. Ao pai resta-lhe o dilema aquando da morte da criança: procurar esta mãe ou enfrentar uma caminhada solitária que se segue a um luto.

Através de inúmeros ‘retalhos da vida de um escritor’, em particular os que se inscrevem nos sonhos que assolam Viriato Alves, desfiando as lembranças do pai que perdeu na infância ou desdobrando outras que (re)criam diferentes possibilidades de entendimento familiar, o texto ensaia renovados sentidos existenciais e sublinha que a encruzilhada que se engendrou à sua volta deve ser clarificada.

Ao longo da narrativa de Vasco Gato, o leitor segue a reinterpretação permanente de uma família que se reconstruiu no luto, ora através das interpelações luminosas que marcam a mãe de Viriato Alves e Ernesto, ora através das tensões mais sombrias que definem os desafios colocados a Sara e a Viriato. O leitor poderá sobretudo acompanhar os territórios ambíguos que vincam os afetos do protagonista. Apresentado como “um incapaz emocional” (p. 46), Viriato procura lidar com “amores extemporâneos” (p. 50) e com o valor que Sara dá à sua vida. Ao longo das páginas, desdobra-se, ainda, a vida agitada de uma “irmã emprestada” que, na voragem do quotidiano, procura lidar com a perda da mãe e com um casamento sem sentido. Nos seis capítulos do romance, o leitor poderá seguir a reorganização das vozes do texto que aos quarenta anos enfrentam um dos grandes desafios das suas existências.

Se a morte está presente ao longo da ficção é para sustentar que as personagens podem reinventar-se, ao modificar o rumo dos seus destinos.  Ernesto e a mãe “foram os dois capazes de conservar a vida do coração” (p. 37). Em sentido contrário, a vida de Sara exemplifica que a “insatisfação, a angústia, a ruina interior, nascem da inépcia em identificar a coloração do tempo” (p. 83). Urge, por isso, romper com a banalidade das relações que encenam o modelo de uma “família completa” (p. 46), apesar de infeliz. Trata-se, portanto, de aceitar “as ilhas de estranheza” (p. 102) que habitam os protagonistas e comprovar que o ser humano deve reajustar geografias familiares e afetivas.  Mas nem só de falências emocionais vive o texto de Vasco Gato.

Em Adius, o leitor encontrará múltiplas questões que estão na ordem do dia: para que serve a literatura? O que permitem as palestras nas universidades? Como se comporta o mercado do livro? Como se processa a questão editorial? O que se segue ao sucesso de um primeiro livro? Como lidar com o reconhecimento, quer na esfera pública, quer na esfera privada?

A estas reflexões meta-literárias, que se desdobram no decorrer da narrativa, o leitor é convidado a mergulhar em imagens obsessivas, em colorações labirínticas, em vidas desajustadas. Vidas que ficaram suspensas para que a mãe e Ernesto se refizessem da dor de outras perdas. Para todas as personagens, trata-se de acompanhar a (re)construção de um “mundo por via verbal” (p. 63), mesmo sabendo que a vida “não é uma cartografia, mas um movimento” (p. 64). Para Viriato e Sara, em particular, há que seguir os trilhos do desassossego e, nas múltiplas bifurcações que acentuam a dissonância, ter a ousadia de pôr termo às amarras do convencionalismo. Como refere Viriato Alves, a possibilidade de editar a nossa vida está nas nossas mãos, bastando para isso “esgatanhar uma vírgula num ponto final e seguir com o texto” (p. 36). O romance propõe que se combata estereótipos culturais, incentiva o leitor a não passar pela vida “sem a ler” (p. 21), defende que o amor não seja uma fraude. A narrativa de Vasco Gato sublinha, sobretudo, que não devemos estagnar em vidas sem sentido.