A Lua da Rita Pereira

A Rita Pereira publicou esta semana uma foto de um mergulho, na piscina da sua suite do Savoy, que dizia ser à luz da Lua. Afinal eram os holofotes do Estádio do Nacional.

Fartei-me de rir. Com a situação, com as piadas que foram feitas, de algumas tiradas com muita graça e de outras com menos. Engraçado.

Que não. Que afinal não se pode rir disso. Que ela veio cá passar férias e fazer publicidade à Madeira e ainda é assim ridicularizada, achincalhada. Um horror, uma falta de respeito, uma ingratidão.

Ora, pois eu ri e voltaria a rir. Mesmo que ela já tenha vindo, pelos vistos, explicar que não era a isso que se referia. E mesmo que tenha sido verdade. O que seria mais verosímil, que aquela luz fosse da Lua ou de um estádio no meio das montanhas? Quem se lembraria que poderia haver um estádio no meio das montanhas?

Ri porque teve graça. Porque, mesmo a ser verdade, era uma coisa inócua, um disparate que não faz mal a ninguém.

Da mesma forma que rio sempre que me lembro que achava que os póneis cresciam até serem cavalos. É verdade que achava. Uma idiotice pegada e absurda.

Ou como rio duma conversa com um amigo dos tempos de faculdade, aluno do Técnico, culto e cosmopolita, mas que insistia comigo que havia, na língua portuguesa, o verbo “lamber” e o verbo “lember”. Lamber era para pessoas. Lember era para os cães.  Uma estupidez que, de tão crassa, tem piada. Ainda hoje nos rimos disso.

Se não soubermos rir de nós próprios, está o caldo entornado. Só uma pessoa de mal com a sua vida é incapaz de o fazer. Além de saudável, é verdadeiramente libertador.

Este episódio com a Rita Pereira levou-me, provavelmente num momento de tédio, até à página onde partilhou a tal foto.

Não sigo páginas de figuras públicas – pelo menos não que me lembre – por isso não sei é habitual o que vi.  Os comentários. Para além de ter centenas de pessoas a dizer-lhe que as luzes eram do estádio, de todas as formas e feitios, como se ela não soubesse ler à primeira, as coisas que lhe diziam. Nessa e noutras fotos.

Que ela parecia ter uma anca fraturada, que tem as pernas tortas, como é que viaja em confinamento, que deve estar aí à conta e tantas outras. Claro que estas eram uma evidente minoria, entre muitas coisas boas e bonitas.

Mas mesmo assim.

Quantas vezes vemos fotos daquele amigo ou daquela amiga que nos faz pensar onde raio estaria com a cabeça para publicar aquilo – quem nunca? – mas ninguém se põe a dizer este tipo de coisas. É tacitamente aceite que só há três coisas possíveis a fazer, mentir, nada dizer ou ignorar que parece não dormir há três dias e não ver um pente há quatro e dizer “que lindo cenário”.

Mas, pelos vistos, quando se é figura pública essa regra de cortesia eclipsa-se. Pensa, escreve. Sem filtros.

Enquanto escrevo, estou a ver a entrevista da Meghan e do Harry com a Oprah. Não vou fingir que está por acaso a passar na televisão. Não. Esperei mesmo que um programa qualquer de cozinha que parecia interminável acabasse para ver a entrevista. Li tanto sobre isso, em várias línguas e em tantos órgãos de comunicação, desde os mais ligeiros aos mais sérios que fiquei curiosa.

Dizia esta semana que não tinha opinião sobre o Megxit. Não conheço o suficiente do assunto, não preciso, nem quero. Continuo sem opinião sobre isso.

Agora, há algo inegável, estar sob o escrutínio público como esteve a Meghan Markle e sofrer os violentos ataques que sofreu não foi, com certeza, pera doce. Vi um título de um qualquer tabloide britânico que falava no filho deles, ainda não nascido, e como se ia parecer com um chimpanzé. Um chimpanzé.

Mas o que é isto? Não há o mínimo de decência?

Quando era miúda imaginava como seria ser princesa, viver num palácio, ser rica, ir a bailes e dançar toda a noite com o meu vestido mágico.

Quando era adolescente imaginava como seria ser uma atriz famosa, representar papéis arrebatadores em grandes produções Hollywoodescas, ser rica e ir às melhores festas com o meu deslumbrante vestido Ellie Saab.

Quando cresci percebi que o anonimato, a normalidade, o poder viver uma vida livre, longe dos olhares que tudo vêm e tudo julgam, é um luxo que não poderia ter se fosse qualquer uma daquelas coisas.

Mudei rapidamente de ideias. O preço é alto demais.

Agora só me entretenho a imaginar como seria ser rica.

De fato de banho no mar tépido das Maldivas. Sem ninguém a ver.