Um livro e uma varanda

“Tout est dans un flux continuel sur la terre. Rien n’y garde une forme constante et arrêtée, et nos affections qui s’attachent aux choses extérieures passent et changent nécessairement comme elles.”(1)

in Les rêveries d’un promeneur solitaire

Jean-Jacques Rousseau

 

Sete pássaros sobre a Laguna, é a mais recente publicação de Irene Lucília Andrade. Da minha declaração de intenções deve decorrer, em primeiro lugar, que esta não é uma análise literária à mesma e, em segundo, que espero vivamente transpor, para estas linhas, a minha amizade e a minha admiração pela pessoa, pela poetisa e pela sua incorrigível (e ainda bem) sensata sobriedade.

O livro irrompeu na minha (frequente) releitura da obra póstuma de Rousseau, referida em epígrafe, que me acompanha desde os meus tempos de Faculdade e à qual recorro, qual porto de abrigo literário e filosófico, sobretudo nos tempos em que falham referências e a Ética parece enleada num novelo de liças. Neste momento, em que a solidão da cidade fantasma, das ruas vazias, das janelas fechadas e dos sorrisos escondidos, nos remete para o silêncio existencial, pareceu-me bem viajar com Irene Lucília e deixar-me re-enamorar por Veneza. Li o livro como quem conversa com a poetisa/escritora, escutei, atentamente, as suas palavras e deixei-me guiar na viagem que nos propõe pela cidade que soube eternizar o amor.

No “Prelúdio”, Irene Lucília dá-nos a saber que o livro foi escrito durante os primeiros meses da vigência desta abominável pandemia. Em Junho passado, a autora tinha uma re-visita agendada a esta sua cidade de eleição, viagem que viu ser anulada devido à situação pandémica. Decidiu, então, recorrer à escrita, então e sempre, como uma forma de salvação, de “superar o tempo do espanto, do medo e da incerteza” (p.12) e, desse modo, desafiar os leitores à companhia, à empatia de que só a Literatura é capaz, no secreto sossego que torna possível a relação íntima entre texto e leitor. Esta obra, nesta época e pelas razões que a escritora evoca, não deixa de tornar Veneza numa metáfora, mobilizadora de desejos e certezas de amanhãs melhores. Mas há mais razões para que o estilo literário, cuidado a cada palavra, se empenhe em cativar-nos, em especial aos leitores das ilhas, esse cativeiro de liberdade que Irene Lucília tão bem sabe enunciar.

Uns golos de chá e logo a autora tinha partido em micro-viagens, pelos espaços vividos e sonhados das ilhas venezianas, dos canais e das pontes que, nesta outra, se malogram.

Não sei se este será (deixo a análise para quem à mesma se habilitar) o melhor livro de todos os que a autora nos legou. Arrisco, neste canto da amizade, a escrever que é o mais maduro, filosófica e literariamente exigente. A sua prosa (sempre o foi) é poética, recheada de reflexões sobre a vida e o mundo, transportando-nos – qual reminiscência Proustiana – para um passado onírico, paradisíaco e puro.

Continuo a conversa com a certeza de que “de acordo com a sua crença, Deus cooperava com os vivos, estava em todas as coisas e em qualquer lugar. Faltava procura-Lo, em Veneza, a cidade qua abalou as suas convicções, que o prendeu irresistivelmente e onde correu o risco de se perder no labirinto da dúvida e das emoções” (p.49). “Aproprio-me” das personagens para cumprir o desejo de me perder, eu também, na geografia da escrita e percorrer a Laguna no mistério das suas brumas e das suas lendas.

Irene Lucília povoou o seu livro com referências históricas e literárias que se diluem numa convocatória permanente à descoberta dos laços que tece e entretece. Durante a amena e riquíssima cavaqueira diz que já está a ir longe demais, que devemos regressar ao que estávamos a falar. Continuamos a tomar o chá na varanda que estende a vista até ao Funchal: “Para sobreviver aos limites do tédio, vou escrevendo. Atirando palavras para um vácuo, porque, entretanto, enquanto algumas delas ganharam viço, muitas outras perderam sentido e interlocutores.” (p. 89).

A varanda, a mesma à qual a autora alude no capítulo “Périplo (em modo de posfácio)”: “A minha casa é uma varanda sobre o Atlântico. Um espaço eclético situado a meia encosta da colina de São Martinho, na ilha da Madeira” (p.97), representa, neste momento, a epítome da sua “raiz insular” (p.97), “o ponto zero onde começa infinito” (p.98). Continuamos a cavaquear, celebramos a amizade e deixamo-nos envolver pelos mistérios das muitas ilhas que nos mimetizam no espaço deste planeta e nos tornam pertença. Recordo o dia em que a ouvi cantar, deixando-me maravilhar pela sua interpretação do “Coro dos escravos” (Va pensiero sull’ali dorate – vai pensamento sobre as asas douradas), terceiro Acto da Ópera de Verdi escrita durante a ocupação do norte de Itália pelos austríacos. Será coincidência?

“Nessa Veneza de braços estendidos à Laguna aparo o leve abalo de coração que saudosamente me prende às líquidas paisagens, como se as pontes da Sereníssima fossem caminhos de passagem entre todos os lugares e a varanda onde decorrem os meus dias. Um modo de reprimir a estase do tempo reprimido” (p. 98).

Já é noite e as luzes da cidade confundem as lágrimas que a saudade evoca. O oceano confunde-se com estes brilhos. Não é impossível que encubra uma ponte, a do desejo de partir.

 

Sete pássaros sobre a Laguna, de Irene Lucília Andrade foi publicado pela Âncora Editora

 

(1) “Tudo está num fluxo contínuo na terra. Nada ali mantém a forma constante e fixa e as nossas afeiçoes que se ligam às coisas externas, necessariamente passam e mudam como elas”