Conversas dos dias de hoje

 

 

 

“Give me knowledge, so I may have kindness for all”

(Dê-me conhecimento para que eu tenha bondade para com todos)

– Provérbio índio

 

 

Making-of (realização)

  1. a educação de Billie Eilish,
  2. a “viralização” do pensamento de Edgar Morin
  3. a 5ª Sinfonia de Mozart

E, depois?

 

Alínea a) de acordo com as biografias disponibilizadas, numa simples pesquisa Google, Billie Eilish nasceu em 2001, é cantora e compositora, tendo ganho cinco prémios Grammy, dois American Music Awards e três MTV Video Music Awards. Isto é, aparentemente, importante no mundo da música. Também é mencionado, nas biografias disponíveis, que é a primeira mulher, e a mais jovem, a vencer as quatro principais categorias do Grammy, no mesmo ano. É, por isso tudo também, uma das jovens mais idolatradas no mundo, pelos seus pares em idade e não só, sendo considerada uma das mais relevantes influenciadoras do século XXI (e ainda vamos no ano vinte e um). Billie Eilish é, igualmente, um produto comercial que envolve larguíssimos milhões, o que justifica que a sua marca valha muitas fortunas no mercado globalizado.  Em 2019, numa entrevista (1), desencadeou uma polémica “bipolar” (como são quase todas as polémicas) ao afirmar que nem ela, nem o seu irmão tinham frequentado a escola. Ainda bem que não são portugueses, senão os pais já estariam, muito provavelmente, presos. Nos Estados Unidos, todavia, a liberdade de escolha existe e a “homeschooling” (educação em casa) é uma opção entre muitas. Dessa entrevista, ficámos a saber e cito: “Eu nunca fui à escola. Cresci educada em casa, permaneci educada em casa, nunca fui outra coisa que não educada em casa. Mas mesmo assim, tipo, aprendi alguma coisa. Aprendi, na vida, sabe, aprendi tipo como fazer matemática a cozinhar com a minha mãe e vendo quantas metades fazem uma certa quantidade… Se dobrarmos a receita, quantos temos de pôr na tigela. Foi assim que aprendi matemática”. Durante a entrevista, a cantora e compositora evidenciou um vocabulário muito reduzido, constituído por muitos impropérios, usou a expressão like (o português tipo) à média de tês vezes por cada três palavras e não foi capaz de produzir uma frase que se possa considerar gramaticalmente complexa. Fiquei a saber, através de algumas publicações que deram eco ao facto de nunca ter ido à escola, que os pais quiseram manter os filhos afastados “dos perigos das escolas”, da falta de segurança e da facilidade com que as crianças começam a consumir drogas, uma vez estando nas escolas (ainda bem que aprendeu aquele “chorrilho” de palavrões em casa porque, afinal, já era uma lista tão negativa para a escola, só faltava que lá se aprendessem palavrões). Numa entrevista à revista Vogue, creio que em 2020, afirmou: “Acho que é isso que se está a passar – que eu nunca soube que tinha alguma coisa a seguir. Ninguém me disse essa “merda”, então eu fiz o que queria”.  Quer Billie Eilish, quer o irmão, mas sobretudo este, são porta-vozes do movimento “Homeschooling”, nos Estados Unidos e a sua influência tem contribuído para o crescimento exponencial do mesmo. As suas letras podem ser, de acordo com os media especializados, consideradas “dark pop” com mensagens intrigantes, não raras vezes “nihilistas”, desistentes, com referências implícitas e, também, explícitas ao consumo de drogas. Estaremos diante de uma enunciação musical/estética (se considerarmos a conjugação música-vídeo) do fatum?

Alínea b) tornou-se viral, nos últimos dias, na rede social Facebook, um texto do nonagenário Edgar Morin, um dos grandes pensadores da complexidade. Para Morin, “esta crise tem todas as características da crise, ou seja, de um lado gera imaginação criativa, por outro suscita medos e regressões mentais (…) a crise promove as forças mais contrárias”. O pensador refere, ainda, que “há vinte anos começou um processo de degradação do mundo” e que “a crise da democracia não é só na América Latina, mas também nos países europeus”. Já em 2019, Morin referia que a crise actual (a pré-pandémica) era uma “crise de civilização, das relações humanas”. Acrescentava, ainda, que se tratava de uma “crise de mentalidades, (…) porque a Globalização (…) não fez uma compreensão das culturas”. Morin entende, ainda, que estes problemas precisam de ser integrados na Educação, que “as identidades, etnias, religiões e nações” deveriam ser temas integrantes da Educação e que esta “precisa ensinar essa consciência de pertença à Humanidade”.

Alínea c) graças à sua primeira célula rítmica, no primeiro movimento, Allegro com brio, a 5ª Sinfonia de Beethoven tornou-se uma das mais célebres composições da Música clássica. Não é possível confirmar a veracidade de uma frase com a qual Beethoven caracterizava esta entrada “Assim, o destino bate à porta”. Entendida, desde sempre, como a sinfonia “do destino”/fatum, a 5ª pode, assim, ser entendida como uma espécie de alegoria musical a esta crise, com a violência do seu começo, a serenidade cúmplice do medo, os sobressaltos, enfim. Ao escutá-la, na sua versão original, ou até na versão “metal”, pelo grupo Metallica (2), não é difícil experimentar os diferentes estados de alma que a perplexidade de um mundo em mudança, demasiado veloz, nos provoca. O paradoxo com que os sentimentos de força e de fragilidade se deixam desnudar nas notas musicais desta sinfonia, não deixa de enunciar as contradições que nos afligem, deixando sobressair a melancólica nostalgia de “um mundo de antes” que, por mais imperfeito, seria sempre melhor. São estes, os tempos distópicos da 5ª.

E, depois? A Educação, enquanto parente sinonímico de instrução pública, de escolarização intencional e organizada, é relativamente recente na História do reduto geográfico ocidental. Enquanto instrumento do Estado e, segundo Althusser, um dos “aparelhos ideológicos” do mesmo, só pode ser assim considerada, após o surgimento e consolidação desta entidade política. Antes disso, e desde que há registos, havia ensino, aprendizagem, escola, academia, todos com o propósito da transmissão/discussão/amplificação do conhecimento.

Desde o início da pandemia, e segundo dados da UNICEF (3), o número de crianças/jovens que estão arredados de qualquer contacto com a Escola é, actualmente, de 500 milhões. A este número, acresce o dos que têm uma escolaridade “precária” devido a uma crescente situação de pobreza e, ainda, os que não frequentam, de todo, a Escola por imposição parental (motivos culturais, étnicos e/ou religiosos). Dos que foram afectados pela crise pandémica e não dispõem de meios tecnológicos para dar continuidade à aprendizagem, uma significativa parte, de acordo com a UNESCO, não regressará. Nestes números não está incluída, creio, a percentagem de jovens que estão em regime de “homeschooling”. Uma análise, apressada, a estes dados, permite-nos, desde logo, concluir que o factor económico continua a ser determinante na escolarização das crianças, provoca e acentua clivagens sociais profundas e instaura uma nivelação social que contraria todas as ideias de progresso da Humanidade. As classes sociais com um relevante poder económico que concedem, ao saber e ao conhecimento, um importante papel na construção das personalidades dos seus filhos, educam-nos em colégios/instituições privadas e/ou através de tutores particulares altamente qualificados.  Uma outra classe social (mesmo que seja redutor incluir todos neste “saco”, serve o propósito ilustrativo que pretendo) educa, supostamente, os seus filhos em casa não sendo, sempre, possível aferir o grau de instrução proporcionado dado que, à semelhança do exemplo que citámos (Billie Eilish) a meta é que os jovens, desde muito cedo, exerçam profissões “influenciadoras” no mundo do espectáculo (sobretudo), da moda e, também do desporto. Não raras vezes, ou melhor, frequentemente, o “êxito” é assegurado na condição de serem porta-vozes de uma determinada visão do mundo, da vida e das sociedades, visões distópicas e catastrofistas, “influenciando” os mais jovens a assumir o papel de “ecos”, repetidores abúlicos de mensagens que não questionam, de serem tomados como “activistas” sem empreenderem qualquer tipo de acção. Billie Eilish é, assim, a epítome de uma liderança mundial que se instala e que abisma o fosso entre os poderosos e os que serão, na ausência de outras ferramentas, os cada vez mais seus “novos escravos”.

 

Do púlpito da nova massificação, destroem-se valores fundadores e fundamentais na edificação das sociedades ditas ocidentais e debitam-se monstruosidades com a mesma facilidade com que se solta uma nota musical. Não se trata aqui, de exprimir um gosto musical ou descartar certas bandeiras. Trata-se da urgência em dotar estes milhões de crianças (que estão ausentes de ferramentas fundamentais de acesso ao saber) de utensílios de exercício crítico relativamente ao mundo, da possibilidade libertadora de aceder à Educação.

 

É preciso re-embalar as crianças e os jovens em sonhos e utopias, em possibilidades de construir um mundo melhor, é urgente voltar a contagiar com esperança. Capacitar não é expor à desistência, à abulia e à inacção. Capacitar é contagiar com a chama do entusiasmo, para que não cedamos à tentação do abandono. São tantos os alertas que emanam de credenciados institutos no sentido de chamar à atenção relativamente ao perigo do aumento de doenças como a depressão. É urgente inscrever no ADN das crianças a palavra esperança. Só esta conduz à acção transformadora das sociedades porque é a única capaz de revoluções!

 

Ser revolucionário, hoje, continua a ser possível: rejeitar totalitarismos e ideias massificadoras que facilmente transformam os homens em escravos, contrariar o neo-catastrofismo e agir em vez de “activar” (militar). É urgente não deixar que outros, de longe, nos verguem às vozes dos seus donos. É imperativo retomar a consciência de Humanidade como nos relembra, sempre, Morin.

 

E, depois? … é urgente a Educação.