Os Perseguidores (2020), de Ana Teresa Pereira

Leonor Coelho, docente na Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira e investigadora no Centro de Estudos Comparatistas da Universidade de Lisboa

 

Publicado em dezembro de 2020 pela Editora Relógio d’Água, o livro Os Perseguidores de Ana Teresa Pereira desdobra-se em três narrativas distintas, subordinadas, contudo, a denominadores comuns. O imaginário labiríntico da escritora e o rico intertexto que perpassa nesta proposta editorial acentua o caráter obsessivo da sua escrita. A leitura dinâmica e transemiótica da narrativa pereiriana permite estabelecer o diálogo entre múltiplas linguagens e sublinha os fenómenos composicionais do livro. Para destacar a vertente nebulosa e o efeito de estranhamento que se espraia neste artefacto literário, a autora recorre, por exemplo, ao cinema, à música e à pintura.

O dispositivo textual projeta três cenários diferentes, todos relacionados com o universo anglófono que, regra geral, atravessa a obra da escritora. Ora em jeito mais insólito, ora em jeito a roçar o fantástico, os textos de Ana Teresa Pereira exploram os meandros de vidas incompletas, duplas ou em metamorfose constante. É o que acontece em “A Firefly Hour”, “A Lagoa” e “Os Perseguidores”, que dá título ao volume. Neste tríptico, as experiências sumárias e periclitantes das personagens salientam a ferida, a ausência e a deformidade das suas existências. Os corpos que surgem nas narrativas pereirianas anunciam, de modo recorrente, identidades descentradas e comportamentos obsessivos. Tudo é, de facto, deriva, fragmento e indefinição.

Em “A Firefly Hour”, Dóris, bailarina na Dance Academy, e Tom, escritor de narrativas policiais publicadas numa revista pulp, não viverão felizes, para sempre, na cidade de Nova Iorque. O jazz e o blues que Dóris ouve no início da narrativa sugere um final disfórico para a protagonista. A relação vivida no quotidiano com Tom não será um conto de fadas. A separação do casal evidencia-se nas narrativas escritas por Tom, apresentadas pela jovem, em jeito sinóptico, na própria diegese. Em todas as histórias surgem “algumas imagens (…) recorrentes e obsessivas” (p. 29). Lembram, como acontece nas ficções de Ana Teresa Pereira, universos obscuros e inquietantes: nevoeiro, morte, máscaras, pássaros empalhados, garras, água escura, caves sombrias e peixes viscosos. O tom desarmónico do final do conto será relevado com a imagem do filme de Alfred Hitchcock. Tal como no filme “Os pássaros” (1963), a protagonista será perseguida vindo a enclausurar-se na cave da casa. Nesse espaço sombrio, o mundo obscuro e viscoso reforça a atmosfera inquietante que atravessa a narrativa.

“A Lagoa” revela o modo como duas irmãs se envolvem num jogo de dualidade e de perseguições pelo homem amado. Em Londres, as vidas incertas das vozes do texto declinam-se em torno do desaparecimento de April antes do seu casamento, do ressurgimento misterioso, anos mais tarde, em casa da irmã, da rivalidade, desde cedo, entre as protagonistas e do chamamento encantatório de uma lagoa de águas gélidas e sombrias. Como William Turner, a narradora procura transfigurar os cenários observados. A impressão da paisagem, dos objetos, de Tom e de April é apresentada em camadas sobrepostas porque importa expor o que permanece, subtilmente, escondido. Tom, nome recorrente na obra de Ana Teresa Pereira, trabalha para uma editora e trocará a mulher por April, com quem namorou. Ao regressar amnésica de um mundo obscuro que ninguém conseguiu desvendar, cheirando a “lama e lodo” (p. 63), pronta para ocupar o lugar que era dela, ela adensa o mistério. A lagoa situada “no centro da clareira” (p. 54) ditará, naturalmente, uma solução.  Ao convocar Turner e ao aludir à pintura dos pré-rafaelitas, o conto estabelece um notório diálogo interartes. Contudo, não são rostos angelicais nem paisagens harmoniosas que se apresentam ao leitor. Também a música, que marca presença na história deste trio, acentuará a metamorfose das personagens. Ao encontrar Tom e April ouvindo, muito próximos, “maybe I’m amazed at the way I really need you” (p. 59), de Paul McCartney, a narradora sabe que “a canção deles” (p. 59) marca o fim da sua relação com o marido. O efeito intertextual que se estabelece com o livro de Lewis Carroll vem, por sua vez, revelar que, nesse jogo de espelhos invertidos, a barroquização dos sentidos retira a magia à relação para imprimir uma distorção fantasmagórica nos amores dos protagonistas.

Em “Os Perseguidores”, a obsessão pela relação afetiva incompleta ou conflituosa é sinalizada nos desajustes amorosos da narradora, de Alan e de Stella. Deixam de ser “três crianças a brincarem às escondidas no nevoeiro” (p. 71) para encetarem, anos mais tarde, um renovado jogo de xadrez. Todos caminham por entre sombras, traições e denúncias. Sob o signo do duplo, a narrativa pereiriana vai mostrar a vida de Alan com Stella, a sua ligação à protagonista, a substituição da mulher pela amante e o modo como as diferenças entre as duas mulheres são captadas. A referência ao drama dirigido por Krysztof Kieslowski, significativamente intitulado La Double Vie de Véronique (1991), não é um mero acaso. Tal como no filme, trata-se de captar planos paralelos para melhor exibir a ambiguidade e o mistério destas vidas. Como na narrativa anterior, um lago gelado dita o desaparecimento de Stella, permanecendo em suspenso a causa da sua morte. É, sobretudo, a arte cinematográfica que vai marcar a relação amorosa entre Alan e a pintora. Ao referir os filmes Green Mansions (1959) e Breakfast at Tiffany’s (1961), nos quais Audrey Hepburn desempenha o papel principal, e Unforgiven (1992), dirigido por Clint Eastwood, a escrita de Ana Teresa Pereira acentua o drama das aventuras amorosas contrariadas. Apesar do excipit do conto apresentar uma nota solar, o que leva a narradora a observar que o seu coração se suaviza assim que regressa, todos os dias, para junto de Alan, a última frase explora a dúvida e o enigma. Nos meandros deste labirinto, a escrita de Ana Teresa Pereira funde múltiplas linguagens artísticas para revelar esboços de vidas humanas que se perdem no mundo da (des)ilusão.

 


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.