Os bons e os maus

Dividir a sociedade ou uma organização em bons e maus é comportamento antidemocrático de quem não sabe conviver com a diferença, nem respeita o pluralismo. Essa postura autoritária e prepotente não é perfilhada exclusivamente pelos partidários do totalitarismo político. Seguem-na também medíocres investidos em cargos de chefia, inclusive de somenos importância, que, com o seu rebanho amestrado, arranjam votos e assinaturas para legitimarem malévolos intentos.

Não há palavra na língua portuguesa que melhor caracterize esses indivíduos sem escrúpulos, gananciosos do poder e com uma vaidade superior à de Narciso, do que o nome patife. Parafraseando o Vasquinho da Canção de Lisboa, pode-se também dizer que «Patifes há muitos…»

Ao longo da História, a divisão entre bons e maus ocorreu com frequência, nem sempre logrando a Humanidade progressos civilizacionais. Recorde-se: na ‘democracia’ ateniense, os cidadãos e os ‘estrangeiros’ ou metecos; romanos e bárbaros; cristãos e pagãos; fiéis e infiéis; hereges e ortodoxos; cristãos e judeus; absolutistas e liberais; fascistas e democratas; salazaristas e os do reviralho; arianos e judeus; estalinistas e opositores… negros e brancos, cientistas e negacionistas…

A tradição atribui a Clístenes a lei do ostracismo, no século VI a. C.  De início, acreditava-se ser um meio eficaz para o funcionamento da democracia, na medida em que excluía os tiranos da sociedade ateniense. Essa lei permitia exilar, por dez anos, um cidadão cuja influência fosse considerada perigosa. O processo de exclusão fazia-se através de escrutínio de uma assembleia, reunida na ágora. Sobre um total de 6000 votos, era obrigado a abandonar a cidade aquele cujo nome mais vezes se repetisse.

Cedo se tomou consciência de que a aplicação da lei do ostracismo satisfazia interesses de grupos, eliminando os opositores. Aristóteles afirmou, a propósito, que teria sido preferível que o legislador «concebesse um regime que não carecesse de tal remédio», admitindo, porém, o ostracismo em situações excepcionais. No entanto, reconheceu que «na realidade não é isto que tem sido aplicado; em vez de considerar o interesse do próprio regime, recorre-se ao ostracismo com intuito faccioso.» (Política, III, 13)

O ostracismo tornou-se uma prática para eliminar adversários políticos, reais ou imaginados, na qual a intriga constituía estratégia relevante. Até Péricles receou o ostracismo, tendo, por isso, optado, numa primeira fase, pela carreira militar.

No discurso político e na comunicação democrática, a palavra ostracismo adquiriu, entretanto, um sentido pejorativo. Trata-se de um processo, muito comum nos meios antidemocráticos, para afastar os que discordam ou fazem sombra: os maus, no entender dos que se proclamam bons.

Hoje o ostracismo dispensa escrutínio. Basta a intriga. A falsidade. Às claras ou na penumbra, condenam-se livres ou não-alinhados ao afastamento e ao desterro. Há quem não consiga aguentar a crueldade e se suicide. Nada, porém, demove os patifes da marcha destrutiva. Pela calada da pandemia, agora a nave dos loucos trama insólita viagem. A vingança vai ao leme! Os ostracizados partirão borda fora. No cais, ecoam entrechos do dramalhão. Não há risos nem pranto. Nem palmas nem pateada. Os desgraçados actores parecem dar-se conta do fiasco da peça e do seu desempenho, mas disfarçam nos bastidores. A faca em riste impede a debandada. Desculpe-se a sonhada viagem com a fadiga pandémica. Ares jamais venceu Atena no regresso atribulado de Ulisses.

Neste tempo de desvarios, recorde-se, acerca do que deve ser a liderança, a lucidez do Presidente da República recentemente eleito, com a esperança de que as suas palavras cheguem à recôndita caverna dos agrilhoados e possam servir de lição para os que pretendem libertar-se:

“Quem recebe o mandato tem de continuar a ser um Presidente de todos e de cada um dos portugueses. Um presidente próximo, um presidente que estabilize, um presidente que una, que não seja de uns, os bons, contra os outros, os maus. Que não seja um Presidente de facção. Um Presidente que respeite o pluralismo e a diferença.” (24-01-2021)