Carta do outro mundo para presidente da mesa nº 21021

Martins Júnior

 

Paciente Presidente

Se alguém lhe disser que os mortos votaram, apresento-me eu própria para confirmar. Ao consultar em 24 de Janeiro de 2021 o caderno eleitoral, há-de encontrar o meu nome, mas não a minha pessoa. Já saí desse planeta. Todavia, o meu voto vai aparecer na contagem final. Saberá porquê.

Quero, antes de tudo,  agradecer-lhe  a si e aos seus coadjuvantes mesários a coragem de terdes aceite esse enorme sacrifício, mais a mais, em tempo dessa pegajosa cólera chamada Covid/19. Contributo inestimável para a consolidação da Democracia que, segundo ouvi dizer neste reino da estratosfera, o novo líder dos Estados Unidos da América definiu como “preciosa, mas frágil”!

Neste estreito apartamento, feito para mim desde a criação do mundo e onde durmo e sonho, longe da barafunda desse minúsculo ‘ilhéu’  que os homens baptizaram de Terra, vejo tudo com uma luz diáfana, calma como num dia de verão mediterrânico. Vejo-me agora, para ironia de mim mesma, quantos dias, meses e anos perdidos aos encontrões nesse mundo redondo e achatado que, umas vezes, parece-se com um formigueiro, outras um vespeiro, outras ainda uma selva e quase sempre um antro onde, por fatalismo coincidente, se exercita a mais requintada antropofagia.

Vejo tudo mais límpido e transparente. Em cá chegando, confirmei o que estava já gravado nas estrelas: que as rédeas do meu país voltariam a ser entregues a quem deu uma nova face – humanista, quase familiar – ao amurado e assombrado palácio que da Belém de outrora só tinha o nome. Por isso, agora descanso em paz., aqui.

Aumenta a minha quietude ver que, na abertura do palácio ao país, um enorme arco-íris de sete vistosas cores acercou-se das suas torres: sete notas do mesmo luso acorde, todas com sete virtudes e sete pecados capitais, enfim, o numerário bíblico da diversidade perfeita, os setes dias da semana, os sete braços do candelabro do Templo. Todos se acham com passaporte para lá entrar, desde as mãos empedradas das calçadas antigas até aos lapidados diamantes com que as sociedades se enfeitam e crescem.

Paciente Presidente

Se esta eleitora (morta para o mundo, mas viva nas actas da vossa Mesa) ainda não tivesse votado, ser-me-ia vedado fazer-lhe este meu desabafo: de entre o variegado septeto presidenciável (excepcionado o já premonitório eleito) vejo apenas dois hemisférios distintos, mais definidamente, a eterna dicotomia de géneros ou, consoante as preferências, a imemorial “guerra dos sexos”. Embora em minoria quantitativa,  é o hemisfério feminino que  contracena com o homólogo masculino e, daí, leva a palma da vitória.

Dos quatro exemplares do quadrante comumente denominado “o mais  forte”, analisei-os cuidadosamente e concluí que o que os movia era um de dois alvos: promoção pessoal ou promoção do partido. Já nem me lembro do grotesco mini-drácula que, umas vezes, era general, outras herdeiro de um líder a quem voltou as costas e, ainda – o cúmulo! – o Cavaleiro Negro-Claro na luta pré-histórica entre o Bem e o Mal. Só falta comparar-se a Jesus Cristo… ou a Belzebu… Tanto se lhe faz.

Na outra ala, a mais atenta e sensível, ainda que a designem de “a mais fraca” – coração de mulher e olhar arguto – vi  o meu país acarinhado, cuidado, amado, como um filho nos braços de sua mãe. As mulheres à esquerda, que é onde bate o coração!

Das duas mulheres, porém, escolhi aquela que não está a soldo de nenhuma empresa partidária nem dependente de nenhum outro cheque político-cambiário.

Mãe e Avó (como eu) mas nimbada pelo brilho de uma corajosa juventude “de antes quebrar que torcer” perante as injustiças da ‘Justiça’, quer em Portugal, quer em Bruxelas, quer na Indonésia em defesa do Povo de Timor,  diplomata-estadista entre estadistas internacionais, promotora do genuíno  Espírito Europeu, enfim, Mulher de visão planetária.

Paciente Presidente

Alonguei-me, reconheço, porque aqui vivo num tempo sem tempo. Se alguém lhe disser que os mortos votaram, responda ‘correcto e afirmativo’, porque eu já votei antecipadamente.

E por aqui me fico, aguardando em paz o futuro desse meu país, nas mãos do premonitório vencedor. Neste meu apartamento, também me fico sonhando que, daqui a cinco anos,  será vencedora aquela que aí em baixo escolhi, digna do escol das grandes mulheres condutoras da História, ao lado de Ângela Merkel, Úrsula von der Leyen e da ontem proclamada Vice dos EUA,

Kamala Harris!

Vale. Valete!

Eleitora nº 21212121