Primeiro acidente de aviação de 2021 e acentuada derrocada tecnológica aeronáutica

A pandemia não trouxe mais segurança nos ares. O primeiro grande infortúnio de 2021 veio da Indonésia. A indonésia Lion Air havia brindado da FAA com uma saída de pista alagada – em táxi desta vez – fechando 2020 e a Sriwijaya Air marcou janeiro de forma mais gravosa. Um Boeing 737-500 desfez-se no mar de Java após descolar de Jakarta.  O nome Sriwijaya evoca um antigo império malaio da ilha de Sumatra, no sudeste asiático, parte da presente Indonésia.

Há cinco anos fomos a Timor Leste, via Heathrow, Kuala Lumpur e Bali. A última perna teria de ser feita sempre de Bali, de Singapura, ou da Austrália, únicas proveniências de voos para Dili. De Denpasar havia duas hipóteses, a low cost da Garuda, City Link, ou a Sriwijaya Air. Escolhemos a última porque se fazia uma leg na sua subsidiária Kam Air, o que acabou por ser alterado para dois voos no mesmo B.737-800, PK-CMT. A City Link ficou conhecida pouco depois pelo vídeo que passou cá na TV, do comandante embriagado expulso do cockpit de um A320.  Ambos voos da Sriwijaya Air foram feitos com o PK-CMT, duas horas de voo ao longo do Equador, passando sobre autênticos paraísos ilhéus.

Sriwijaya Air em Denpasar (Crédito: José Freitas)

A Sriwijaya Air não nos convenceu de todo. Na asa direita viam-se vários rebites a faltar e um painel levantado. Ainda se considerou apontar o facto à tripulação, mas era mais realista assumir que estariam a par, e que a entidade patronal praticaria a manutenção em alinhamento com o típico naquela geografia. Aterrámos no modesto, mas simpático Aeroporto Internacional Presidente Nicolau Lobato. Foi o primeiro presidente de Timor Leste, não sancionado porque Portugal nunca concedeu formalmente independência seja a quem for, e foi rapidamente martirizado pelas tropas invasoras. Os balcões de check-in do aeroporto são os de plástico creme que tínhamos cá no aeroporto da Madeira no início dos anos 90. Prova era o autocolante com as cores da Região no símbolo da Junta Autónoma de Aeroportos da Madeira.

Com impacto a prazo mais longo verifica-se uma acentuada derrocada tecnológica aeronáutica. A Airbus tinha abrandando a investigação e desenvolvimento no ano passado, desistindo de uma nacelle de motor para o A320NEO, optando por não competir com um fornecedor. O projeto NMA (“New Midsize Aircraft”) da Boeing, resposta ao A321NEO, já está adiado há um ano. O futuro da Boeing é prosseguir a entrega dos 8000 737-7/8/9/10 (antigos 737MAX) encomendados e os Dreamliners. Os 767 só carga, e o 777-9 arrisca ser um flop total. O Dreamliner deixou de ser produzido em Seattle, tendo sido anunciado o encerramento da linha de Everett no ano passado, e atualmente brota apenas da fábrica de Charleston, na Carolina do Sul. Na semana passada encerrou o centro de I&D de compósitos de Seattle. Foi chave no desenvolvimento do 787. Existe outro em Skolkovo, nos arredores de Moscovo.

A Rolls Royce pausou o programa de desenvolvimento do motor UltraFan, após 500 milhões de libras investidos. Seria o maior motor de sempre e iria competir com o GE90 da General Electric. Só com o lançamento de um novo modelo de avião é que a RR reverterá esta decisão. É pena porque ia introduzir 25% de eficiência, graças e uma fantástica inovação: pás de passo variável. Significa que dificilmente haverá grandes avanços tecnológicos nas maiores aeronaves de longo curso, nos próximos 10-15 anos.

Motor UltraFan (Crédito: Rolls Royce)