Engenheiro Danilo Matos “arrasa” ponte do arquitecto Paulo David

Foto Rui Marote
O engenheiro Danilo Matos, que tem sido bastante interveniente nos últimos anos na cena pública regional em questões relacionadas com o património edificado da cidade do Funchal, positivamente arrasou hoje numa publicação na sua página pessoal na rede social Facebook a ponte da autoria do arquitecto Paulo David, situada logo abaixo da ponte do Bazar do Povo, e que pretende de alguma forma ressuscitar a memória da antiga “Ponte da Cadeia”, que ali se situava antigamente. Paulo David tem-na defendido com grandes argumentações teóricas, inclusive ocupando grande espaço na comunicação social, mas Danilo Matos não hesita em classificar como “pindérica” a nova ponte, considerando-a um produto da vaidade e do mau planeamento.
“Uma ponte pedonal, a meu ver pindérica, pretensamente original, está a ser montada na Ribeira de Santa Luzia, no troço da ribeira entre as pontes do Bettencourt e D. Manuel cujas obras, passados 11 anos, foram finalmente executadas e concluídas, numa terceira versão que foi escolhida e que eu denunciei e vou recordar mais à frente, dadas as agressões patrimoniais, ambientais e estéticas que foram praticadas e que convém recordar e contestar”, refere o engenheiro.
“Disseram-me que era uma passadeira metálica, projectada pelo ‘arquitecto da Casa das Mudas’, para unir as duas margens da Ribeira de Santa Luzia. Pensei logo, Paulo David enganou-se no lugar, o “Lugar” de que tanto fala nas suas palestras como elemento marcante e determinante nas opções suas e de muitos arquitectos. Não é possível. Garantiram-me que sim e eu fui lá ver. Já fizeram tantas javardices e crimes que eu já não choro. Mas este foi contido, e este é um dos textos mais tristes e também mais raivoso que escrevo sobre a minha cidade”, diz Danilo Matos, questionando-se: “Como é possível tanta vaidade embrulhada em burrice!?”
Classificando de “ideia peregrina” a intenção de criar uma passagem pedonal naquele local, ideia essa de que diz já ter tido conhecimento, tendo opinado sobre tal ideia, a pedido, a qual “chegou a ser abandonada”, o autor do texto descreve:
“Subia-se uma rampa de acesso do lado da 5 de Outubro, com 8% de inclinação que ocupava metade da rua, duas vigas de betão pré-fabricado ligavam as duas margens. Eu chamei-lhe na altura, quando me permitiram ver os projectos, de ponte pindérica. Em conversas que tive com gente responsável sugeri, na brincadeira, que podia ser aproveitada para a Serra De Água, dava jeito, ali não. Pelos vistos houve outros interesses, insistiram e chamaram Paulo David para fazer o frete pretensamente modernista que está à vista”, acusa.
“Não há outro termo: frete, porque um arquitecto com o curriculum de Paulo David não pode branquear os crimes patrimoniais e culturais onde a passadeira ia ser construída, isso não vale. Não é só o Lugar, que é preciso respeitar quando se projecta, estamos a falar de um lugar com muita história, que emprestou à cidade uma Alma própria que não pode ser, como foi, apunhalada com uma pretensa modernidade de meter ao bolso”, prossegue o engenheiro.
Danilo Matos refere que “aquela passadeira não está muito longe da outra a que chamei de pindérica mesmo que fosse coberta a ouro em vez de cobre, mas é mais grave, porque não cumpre as normas mais elementares de segurança. Segurança que começa a ser violada exactamente pelo dono da obra, o Governo Regional. Recordo que se baixou o leito da ribeira para uma cota média das águas do mar com uma laje de betão armado, com problemas de salinidade previsíveis; que se betonou muralhas classificadas como património; tudo em nome do caudal e da secção de vazão que tinha de ser cumprido”.
Prosseguindo nas críticas, Danilo Matos aponta que aqui, é o governo que manda apoiar uma ponte metálica directamente nas muralhas das duas margens ao nível dos pavimentos. Na margem direita, reduz a altura de vazão precisamente no local onde historicamente, Outubro de 1993 e 20 de Fevereiro de 2010, as águas galgaram e romperam os muros de guarda e criaram um ‘rio’ violento que desceu a rua dos Tanoeiros, espalhou-se pela rua da Alfândega até a marginal”. E aponta que “a passadeira não é para todos, não cumpre as normas europeias das cidades no que respeita aos cidadãos com mobilidade condicionada ou reduzida”.
“Vejamos o argumento utilizado pelos defensores da passadeira – o Governo Regional e pelos vistos também a Câmara Municipal. Os comerciantes querem!”, relembra. Mas esse argumento não o convence.
“Preocupam-se com a rua Direita, mas mais grave é o que o Governo Regional mantém no Largo do Pelourinho, com obras há cerca de 8 anos e ninguém se atreve a andar por ali. Aliás, ainda há poucos dias, estavam a ser aplicados herbicidas, um material proibido, por trabalhadores do governo para queimar o pasto de erva que lá existe”, denuncia.
Danilo Matos deixa uma pergunta muito directa: “Quem pagou a “passadeira” e o que acrescenta este investimento à segurança da cidade? É uma pergunta que vai ser colocada à respectiva Comissária. O dinheiro aqui esbanjado nesta brincadeira dava para corrigir algumas linhas de água que aguardam há anos e que Câmara muito tem reclamado”.
Questiona ainda se “este modelo de passadeira cobreada, numa manifestação de novo riquismo que o governo encomendou, tem a ver com o Hotel que o grupo AFA vai construir no Largo do Pelourinho, no edifício da Insular?”
“Passarei a chamar-lhe a passadeira da vergonha, indigna de quem projectou a casa das Mudas, mas esta, a passadeira, pode sair em qualquer altura, o uso assim vai decidir e os pombos vão ajudar; é uma passadeira que está de passagem, não veio para ficar. Não precisa de ser bombardeada, a não ser verbalmente. O resto fica; o resto, o que vai continuar a ver-se da ponte, os crimes patrimoniais e culturais à vista de todos ficam para contar no futuro às novas gerações que os vândalos da cultura passaram por aqui. Que LUGAR ESTRANHO, pensarão alguns dos nossos visitantes. Foi o que eu pensei quando hoje lá fui para escrever esta dorida crónica”, refere.
“A minha ideia utópica, lançada em 2016, que Paulo Cafôfo conhecia e Paulo David também, porque chegou a fazer parte do programa do Gabinete da Cidade, de criar ali, entre as duas pontes o “Passeio Oudinot”, com um Memorial às vítimas das aluviões, e outros pormenores que já não interessam para aqui, passou. Aquele era o LUGAR. As utopias podem ser ignoradas ou adiadas, mas não podem ser enterradas. Voltam sempre. Fica para memória futura, isto que pouca gente sabia”, acrescenta.
“O que ainda resta da herança de Oudinot está na ribeira de João Gomes, entre as pontes do Mercado e do Campo da Barca. O bairro de Santa Maria que foi o bairro mártir da aluvião de 09 de Outubro de 1803, com cerca de 600 mortos, está ali ao lado. Foi a primeira visita que fez quando cá desembarcou e a que deu mais atenção e urgência aos trabalhos, mobilizou grande parte das suas tropas e começou a erguer as suas fortalezas com pedra e cal para enfrentar o primeiro inverno pós desastre. Chegou à Madeira a 19 de Fevereiro de 1804, morreu no seu posto a 11 de Fevereiro de 1807, faz em breve 214 anos. Foram 3 anos decisivos na defesa da cidade e das suas gentes. Ele será para mim, de todas as personalidades que por cá passaram, aquela a quem mais devemos…Não vamos deixar que a ambição de uns e a vaidade de outros impeçam de cumprirmos a nossa dívida histórica”, continua.
“A Câmara Municipal do Funchal é a fiel depositária do que resta da herança Reinaldo Oudinot. Tem uma candidatura do Funchal a Capital Europeia da Cultura. Tem aqui a oportunidade de fazer o que ainda não foi feito. Assuma, de uma vez por todas, que a cidade tem um governo”, desafia Danilo Matos.