Ordem dos Arquitectos na RAM “arrasa” obras no hotel Quinta do Sol

A Ordem dos Arquitectos na Madeira reagiu às polémicas obras no hotel Quinta do Sol, que têm gerado muita discussão entre historiadores, artistas plásticos e demais personalidades ligadas à Cultura regional, conforme o Funchal Notícias oportunamente deu conta. Assim, “dando cumprimento às suas obrigações estatutárias em defesa do património edificado”, a OA informa hoje em comunicado assinado pelo vice-presidente da sua secção na RAM, Miguel Mallaguerra, que “discorda por completo da forma como os trabalhos de renovação das fachadas do edifício “Hotel Quinta do Sol” estão fundamentados pois considera que a intervenção em causa desvirtuou de forma permanente algumas das características fundamentais da arquitetura e do valor cultural e identitário do edifício, um dos mais emblemáticos e mais belos da obra do arquiteto Raúl Chorão Ramalho”.

Assim e dando conta da sua posição face ao sucedido, a Ordem dos Arquitectos escreveu duas cartas abertas, uma dirigida ao edil funchalense, Miguel Silva Gouveia, “apelando a que sejam tomadas medidas de maior proteção do património edificado e cuja qualidade arquitectónica tem o devido merecimento mas não se encontra ainda
classificado nem como Imóvel de Interesse Público nem como Imóvel de Interesse Municipal”, e uma outra carta aberta dirigida ao empresário Estevão Neves, proprietário do hotel Quinta do Sol, “igualmente dando conta do desagrado pela forma como foi desrespeitada a obra de Raúl Chorão Ramalho, destacada figura da geração de arquitetos modernistas portugueses”.

Dado o interesse público de que se revestem as ditas missivas, o Funchal Notícias optou por publicá-las na íntegra. Esta é a que é dirigida ao presidente da Câmara Municipal do Funchal:

Carta aberta ao Senhor Presidente da Câmara Municipal do Funchal
Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara Municipal do Funchal,
Engenheiro Miguel Silva Gouveia,
A Ordem dos Arquitectos, dando cumprimento das suas obrigações estatutárias em
defesa do património edificado, vem pela presente carta solicitar a maior atenção de Vossa
Excelência, como representante máximo do órgão executivo colegial do Município do Funchal,
para a seguinte informação e subsequentes apelos.
Perdeu‐se um dos melhores valores arquitetónicos fundamentais do edifício “Hotel
Quinta do Sol” e que tão bem caracteriza a obra do arquiteto Raúl Chorão Ramalho na
Madeira: a relação da composição material dos planos de fachada em contraste com os
elementos de estrutura em betão aparente. Este tipo de composição que evoca uma das mais
importantes características da arquitectura vernacular, identificado pelo uso das cantarias de
pedra em formação e guarnecimento dos vãos, em que a relação entre os elementos
estruturais das janelas e portas sobressaía em contraste com os planos lisos de fachada então
enriquecidos por pintura. Uma clara e distinta separação entre os elementos criavam o
contraste necessário e enobreciam o conjunto.
No edifício “Hotel Quinta do Sol” essa fundamental característica de evocação de um
passado reconhecido e reequacionado com mestria por Chorão Ramalho, onde se acentuava
uma verdadeira aposta nas potencialidades do betão armado, comparando‐o em expressão à
alvenaria de pedra e texturizando‐o com a leitura dos veios dos elementos de cofragem,
perdeu‐se agora totalmente. A fragilidade de uma expressão rica em textura, tonalidade e
compromisso com a ação da Natureza, dado por uma patine que só o tempo pode enobrecer,
foi literalmente arrasada por uma ação mal estudada e negligente.
O promotor, numa ação de remodelação do hotel, imbuído de uma perspetiva
economicista, mais não fez do que retirar ao edifício valor arquitectónico, empobrecendo‐o e
vulgarizando‐o, sem entender a essência da obra em causa, agindo sem qualquer respeito pelo
autor, Raúl Chorão Ramalho, destacada figura da geração de arquitetos modernistas
portugueses.
Aquilo que poderia ser um benefício traduziu‐se em profundo prejuízo: para o próprio
hotel, para a hotelaria madeirense, para a cidade do Funchal, para o Município e para todos os
cidadãos que como nós vivenciam esta Ilha.
Como presidente da Edilidade, vimos apelar‐lhe que proceda à confirmação das
condições legais em que esta obra foi feita e aferir que medidas de salvaguarda foram
tomadas no sentido de garantir que o referido património arquitetónico não perdesse uma das
características fundamentais que o colocavam como um dos mais importantes valores
construídos da cidade do Funchal e da Ilha da Madeira.
Apelamos igualmente a que intervenções desta natureza tenham sempre supervisão
de ações para uma assertiva identificação dos valores arquitetónicos patentes, com a
incorporação de arquitetos nas equipas de trabalho respetivas.
Por último, consideramos imprescindível e urgente que se proceda à elaboração de uma
listagem do património relevante sensível e suscetível de vir a sofrer alterações danosas e
irreversíveis e que ainda não é objeto de qualquer classificação de interesse Municipal. Deverá
esse registo identificar os respetivos aspetos arquitetónicos a salvaguardar e valorizar. Nesta
medida, a Ordem dos Arquitectos, através da Secção Regional da Madeira, disponibiliza‐se a
contribuir ativamente para a elaboração desse inventário, em estreita colaboração com a
Câmara Municipal do Funchal.
Usemos este caso como exemplo único destinado a evitar outros, futuros, que por ventura
venham a estar sujeitos à perda de valor identitário, arquitetónico e cultural.
Pela defesa do nosso património e em representação da Ordem dos Arquitectos,
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Miguel Mallaguerra
O Vice‐presidente da Secção Regional da Madeira da Ordem dos Arquitectos

E esta é aquela que a Ordem dos Arquitectos na Madeira endereça ao empresário Estêvão Neves:

Carta aberta ao Senhor Estevão Neves
Excelentíssimo Senhor Estevão Neves,
Em representação da Ordem dos Arquitectos e em cumprimento das suas obrigações
estatutárias na defesa do património edificado, venho pela presente carta transmitir‐lhe a
nossa estupefação e desagrado pela forma como o Grupo Enotel procedeu às obras de
renovação das fachadas do edifício “Hotel Quinta do Sol”.
Com essa intervenção, constata‐se que se perdeu um dos melhores e fundamentais
valores arquitetónicos do edifício: a relação da composição material da estrutura em betão
aparente em franco contraste com os planos de alvenaria pintada. Esta clara e distinta
separação entre os dois elementos criavam o contraste necessário e enobreciam o conjunto e
são uma das características fundamentais da obra do arquiteto Raúl Chorão Ramalho na
Madeira.
Desta intervenção perdeu‐se a expressão da textura da cofragem de forma e, ainda
pior, perdeu‐se a tonalidade do patinado que o tempo lhe conferiu e que lhe dava um
compromisso com a ação da Natureza. Era também esta a razão porque ao olharmos o edifício
ele tão bem se enquadrava com a montanha e toda a vegetação envolvente.
Lamenta‐se que existindo tecnologia avançada para se proceder à recuperação e
consolidação do betão armado se tenha optado pela pintura integral, apagando uma das
principais riquezas do edifício.
Aquilo que poderia ser um benefício traduziu‐se em profundo prejuízo: para o próprio
hotel, para a hotelaria madeirense, para a cidade do Funchal, para o Município e para todos os
cidadãos que como nós vivenciam esta Ilha.
Pena que a Enotel, que tão ativamente contribui para o desenvolvimento económico
da nossa Ilha não tenha tido a devida assessoria nesta intervenção tão delicada.
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Miguel Mallaguerra,
Vice‐presidente da Secção Regional da Madeira da Ordem dos Arquitectos