Custos da desmemorização coletiva

Não há fascismo bom, nem fascismo moderado.  O fascismo é um fenómeno político opressor e criminoso que não pode ser branqueado.

Recordar os horrores do fascismo e a luta pela liberdade é imperativo ético e moral, por mais que custe a alguns herdeiros beneficiários do fascismo e aos seus saudosistas e, na Madeira, há gente assim. A verdade histórica sobre as crueldades das ditaduras é para ser contada, para avivar as memórias adormecidas e para ser transmitida às novas gerações.

A historiadora Emília Viotti Costa disse que um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.

Ora, apagar a história da resistência ao fascismo é apagar a memória da luta pela liberdade, pela democracia e pela dignidade das pessoas. É deixar a porta aberta à desmemorização coletiva e ao branqueamento dos crimes contra a pátria e ao seu povo. É deixar a porta aberta aos oportunistas que se aproveitam da fraca cultura histórica, das situações de crise e da fragilidade emocional das pessoas para as iludir, com discursos de circunstância, que incitam  o ódio, a intolerância, a segregação, social e ética, e a violência, física e psicológica.

Apagar a memória da resistência ao fascismo é branquear os horrores perpetrados pelos fascistas contra a humanidade, a liberdade e a dignidade humana. E, como disse, o filósofo Rob Riemen, é gerar um vazio espiritual no qual o fascismo pode crescer, outra vez.

Rob Riemen diz em relação à Europa que a crise global está a afetar a qualidade das democracias europeias sem, praticamente, qualquer reação inteligente dos seus dirigentes.

De facto, se olharmos à nossa volta, vemos os reacionários a parasitarem a democracia para se instalarem no poder e roubam-nos os direitos de cidadania, as liberdades conquistadas e a dignidade de ‘Ser Humano’. Se olharmos à nossa volta, vemos os reacionários a se acomodarem nos parlamentos democráticos, com discursos de natureza nacionalista, xenófoba e neonazista.

E, tudo isto acontece, sem, praticamente, haver uma reação inteligente dos poderes democraticamente eleitos e, há que dizer, também das organizações civis, económicas, religiosas e políticas.

Tudo isto acontece sem uma consciência individual e coletiva das nefastas consequências de se viver sem liberdade e sem direitos democráticos, como os nossos antepassados.

Exemplos não faltam neste mundo, no passado e no presente, de comunidades que elegem, imprudentemente, movimentos fascizantes no poder.

Elegem os reacionários com discursos populistas de pendor neonazi, mas quando se apercebem, ja é tarde. Já são reféns de um regime que lhes nega a liberdade de escolher e de eleger livremente os seus representantes.

Perdem a democracia e a sua capacidade para restituir esses valiosos valores democráticos.

E, para quem julga que isto só atinge os outros, está enganado. Estamos todos a perder direitos de cidadania global, de cidadania europeia e direitos constitucionais. No fim de tudo, todos nós, com culpa, ou sem ela, somos vítimas.

Atualmente, assistimos, na Europa e no mundo, a ascensão de partidos de extrema-direita e de neonazis que estão a pôr em causa as conquistas civilizacionais e humanas, os direitos humanos, as organizações para a paz e, na Europa, estão a desmantelar o projeto da União Europeia.