Virtudes e perigos das ficções -Quem foi Arnaldo Louro de Almeida-

Repor a verdade faz parte dos processos necessários à descodificação das ficções. As ficções inerentes à literatura são métodos lícitos de criar na escrita o aliciamento que ela requer, para que, esteticamente, se imponha a quem a lê e espera dessa leitura a «velha» catarse que liberta o espírito e eleva a natureza do prazer. Porém, a escrita de investigação, que traz ao conhecimento dos leitores e estudiosos matérias delicadas sobre autorias e obras de criadores, não deve cair na indigência de referir-se levianamente aos seus perfis, porque as tentações da ficção podem induzi-los em erros lamentáveis de falta de objectividade e rigor.

Isto vem a propósito dum alerta que surgiu da parte dum leitor, sobre as afirmações constantes numa Tese de Mestrado intitulada Artes Plásticas na Madeira(1910 – 1990) – CONJUNTURAS, FACTOS E PROTAGONISTAS DO PANORAMA ARTÍSTICO REGIONAL NO SEC. XX – VOLUME 1 -1999.

Ao longo deste trabalho de investigação surgem algumas imprecisões, entre as quais aquela que saliento aqui. Deixo contudo o benefício da dúvida sobre a eventual exiguidade de «fontes» registada nessa época.

Na página 106, no 2º parágrafo da referida Tese, o autor escreve: …[ Louro de Almeida, em 1968, pintou uma «Última Ceia» constituída por um grupo de crianças que representam a diversidade étnico-cultural das colónias – tipicamente idealizada no imaginário salazarista de «Deus, Pátria e Família…»]. Erro crasso, este, de uma afirmação visivelmente nascida  da obsessão generalizada de que, quem terá nascido e vivido antes de 1974, inclusive os artistas, seriam, todos, gente conotada com o sistema retrógrado e falido do período salazarista. Infelizmente, muitas destas atitudes foram produto duma verdadeira tacanhez de espírito.

A obra «Última Ceia» de Arnaldo Louro de Almeida nasceu da experiência afectiva que ele soube criar com os alunos da Academia de Belas Ates da Madeira onde foi professor e director e com os colegas da antiga Escola Industrial e Comercial do Funchal, hoje Escola Secundária Francisco Franco, que foram modelos para as figuras desse friso. A diversidade étnico-cultural referida, através da representação de rostos oriundos de outros continentes, são o testemunho do ecletismo e sentido humanista que presidiu sempre ao comportamento de Mestre Louro de Almeida. Além disso, lembro que entre  os docentes da ESFF havia uma professora cabo-verdiana e alunos de origem africana.

Em 2009, dez anos depois da publicação da Tese acima referida, foi realizada no Forte de Santiago, então Museu de Arte Contemporânea, uma exposição designada Preâmbulo, que salientou a memória da AMBAM em cujo catálogo se lê, no capítulo intitulado Tributo: «… Mestre pintor Arnaldo Louro de Almeida que neste momento queremos afirmar, cuja personalidade precisamos de referir num justo tributo de reconhecimento ao seu perfil de professor e artista. Homem Universal no sentido dialético do termo ,manifestou-se pelo pensamento e pelo saber que nunca impôs, mas inteligentemente insinuou, revolucionou a prática das artes nesta ilha, herdeira da tradição do romantismo, trazendo ao conhecimento dos frequentadores da AMBAM toda a movimentação da Arte Contemporânea, os seus manifestos na literatura ,na música e na ciência, com reflexos nas Artes Plásticas, conceptualismos e velocidades que marcaram a liberalização do pensamento, na transição do sec. XIX para o séc. XX. Resulta ainda do currículo desta escola o acesso a práticas nobres, com recurso às técnicas clássicas do Vitral ,Encáustica, Cinzelagem, Têmpera, Fresco, Mosaico, Cerâmica, Gravura e Medalhística…» cadeiras que, na época, faziam parte dos currículos das escolas de B.A.do Porto e de Lisboa. Refiro ainda, entre outras, as disciplinas teóricas de História da Arte, Estética e Teorias da Arte, Anatomia Artística, além de Desenho de Estátua, Desenho Arquitectónico e Geometria Descritiva. O «Academismo» destas práticas, contra a opinião de alguns néscios, valorizava sobremaneira a preparação global dos alunos, cuja prestação foi sempre reconhecida pelos Mestres de Lisboa e do Porto. O conhecimento das técnicas clássicas proporcionava saberes que facilitavam a compreensão do processo das Artes Plásticas através de toda a sua História.

A terminar, para quem tiver dúvidas sobre este assunto, recomendo a leitura do opusculo Preâmbulo – Exposição, Museu de Arte Contemporânea, Forte de São Tiago, Funchal,2009. Recomendo também o site da internet Arnaldo Louro de Almeida (19262008)  Antifascistas da Resistência.  Saliento o facto elucidativo duma obra de Louro de Almeida presente na Exposição Geral de Artes Plásticas em 1947, na Sociedade Nacional de Belas Artes, ter sido apreendida pela PIDE, entre outras onze, em que se conta O Trolha de Júlio Pomar. Essa obra está hoje patente no Museu do Fado.

Recorro, por fim, ao primeiro parágrafo deste escrito a justificar o seu título, no sentido de alertar para a necessidade do rigor de informação que deve creditar o trabalho dos investigadores, afim de ser evitada a tentação das ficções, pela leviana falta de rigor com que muitas vezes se apresentam.