Colocada

Há inevitabilidades. Isso não quer dizer que seja fácil lidar com elas.

O ano era 1997. O mês Setembro. Sabia que iria estudar Direito em Lisboa. Sabia desde que tinha sete anos.

Mas saber mesmo, saber que estava colocada, saber que tinha cinco dias para deixar toda a vida que conhecia, isso era outra coisa. E não era coisa fácil.

Havia deles que estavam em pulgas para ver a Madeira por um canudo. Queriam liberdade.

Havia deles que tinham medo de partir para o desconhecido. Queriam a sua casa.

Eu sempre tivera liberdade. E gostava muito de casa. Mas ia. Ia porque era assim.

Fiz as malas e fui. Acompanhada da tia madrinha. Ela também tinha estudado em Lisboa. Ficaria com uma amiga de infância na casa de um outro tio que não lá vivia. Ele também tinha estudado em Lisboa.

Os meus pais foram uns dias depois. Tive toda uma entourage. Estava com uma amiga. Numa casa conhecida. Sempre tinha sido independente e despachada. Responsável única dos meus afazeres académicos.

Tinha tudo para dar certo.

Deu tudo errado.

Dois meses depois estava de volta a casa. Só no ano seguinte é que regressei.

Não estava preparada. Achava mesmo que estava.

Foi a primeira grande dificuldade da minha vida. A segunda. A primeira foi voltar ao Colégio no dia a seguir a ter feito umas gotinhas pelas pernas abaixo de tanto rir. A vergonha. E tentar que acreditassem que afinal tinha, inadvertidamente, pisado uma poça de Bongo.

Mas esta foi a primeira grande rutura numa vida que decorrera na previsibilidade, no conforto. Custou-me ser fraca.

À minha mãe também custou muito a separação. Isso só soube anos depois. Na verdade, estava tão ocupada com o que sentia nessa altura, que nem por um momento pensei o que aquele poço sem fim de força sentiria.

Agora estou deste lado da barricada. Ainda falta muito tempo, eu sei. Mas o tempo é aquela coisa. Fugaz. Esvai-se.

E vejo amigas, colegas, conhecidas, passarem por isto. Felizes com as colocações. Orgulhosas dos feitos dos seus rebentos. Com razão. Com esperança no futuro. Com razão. Mas com o coração do tamanho de uma noz. Ainda mais neste contexto. Com razão.

E vejo os seus bebés que peguei ao colo, de quem vi fotos com as suas perninhas gordas, a desfilar no primeiro dia de escola ou na bênção das capas, a passar por isto. Por onde eu já passei.

Miguel Albuquerque anunciava o reforço dos testes COVID neste período em que os alunos vão para as faculdades e os pais vão acompanhá-los. Incluindo os que são professores.

Muito bem, disse eu. Muito bem, disse o marido. Mas porque é que os miúdos não vão sós, acrescentou ele, para minha estupefação.

Ele foi só. Não lhe passava pela cabeça ser de outra forma.

Alguns que foram estudar na minha altura também. Como tantos o foram alguns anos antes de mim. Como todos iam muitos anos antes.

Esses não desistiram passado dois meses.

Talvez faça falta. Miúdos que saibam desenvencilhar-se em qualquer situação. Resilientes. Autónomos.

Não é para aí que caminhamos. E talvez devesse ser, dei por mim a pensar.

Mas é tão fácil falar. Teorizar.

Falei sobre isto com imensas pessoas. Gosto de sentir o pulso das coisas. Mesmo sendo inconveniente.

Nem aquelas que se fizeram ao mundo universitário a solo, quer por falta de possibilidade, quer por opção, têm qualquer intenção de fazer o mesmo com os filhos.

Porque deve custar muito. Ainda mais. Porque depois tudo se compõe. Mas na altura custa.

Eu sei que, quando for a vez das minhas, eu vou. O marido, esse, até se atrela à asa do avião, se for preciso.

É tão fácil falar. Teorizar.