O Outono da aviação

Em breve acabará o Verão mais quente, e no entanto mais gélido da aviação. Agitação sentida no retomar da operacionalidade numa época de desconfinamento, e busca de financiamentos para manter sanidade na tesouraria. Algumas airlines, em posição de força, por via da dimensão, número de empregos e pertinência das rotas, conseguiram apoios significativos dos estados dos quais ostentam a bandeira. É o caso da TAP Air Portugal. As que ostentam matrículas da UE mas são apátridas, tal como a Ryanair, viram-se alheadas dos curativos monetários do erário público. Protestarão, com alguma razão, mas em contra ao que praticaram, e não havendo “pão” para todos os “filhos da casa” terão de desenvincilhar-se, enquanto submetem protestos em Bruxelas. A endemicamente falida Alitalia mais uma vez safa-se com injeção de dinheiros do estado d’a Bota, quando a espada de Damocles pairava perto das fuselagens – com matrículas irlandesas, pasme-se o leitor.

A brisa dos grandes ventos de mudança já sopra. A pugna por aeronaves mais eficientes ganha novo ritmo. No mínimo apostar já na geração NEO da Airbus, como a TAP Air Portugal fez. A Magnix “electricizou” uma aeronave Cessna Grand Caravan muito usada na América do Norte. Fez um voo de 30 minutos recorrendo exclusivamente a dois motores a hélice alimentados por baterias. Tem capacidade de seis lugares, e estima-se que terá uma redução de custos de 40%-70% face ao Jet A1, embora com alcance penalizado. Talvez “mais pequeno” seja a solução para o novo mercado, e se venha a acelerar a transição para aeronaves comerciais sem piloto. Em 1939 todo o transporte de passageiros era feito em aeronaves não-pressurizadas a pistão, muitas delas hidroaviões. À data do armistício havia já bombardeiros a jato (Arado alemão). Em 1948 voou pela primeira um jato de passageiros (DeHavilland Comet), que entrou ao serviço em 1952.

Airbus A320 da geração NEO da TAP Air Portugal (crédito: José Freitas)

A pressão para redução de rotas aéreas regionais teve eco imediato. É o caso da Lauda austríaca. A Áustria bloqueou os voos internos, o que levou a dona Ryanair a encerrar a base de Viena, e mover todas as aeronaves para a nova Lauda maltesa. No final deste ano não haverá mais Lauda austríaca. Uma retoma económica passará sempre pelo verter de verbas públicas massivas em infraestrutura. O maior candidato será o comboio de alta velocidade, acérrimo do competidor do avião em deslocações inferiores a 600 quilómetros.

Este outono será decisivo para o futuro do transporte aéreo. Ir-se-á aferir se o aumento do tráfego do Verão significa a base para um crescimento, que poderá ser mais lento ou mais rápido, ou se representou o suspiro final da era antiga. Poderá haver uma retoma gradual que restaure o negócio até 2023, com cifras de 2019. Isto com o turismo a sustentar-se, com retoma do poder económico dos passageiros, e a medicina e farmacêutica a devolver a confiança nos destinos, proporcionando-se as atrações sem preocupações com saúde. E o tráfego de negócios também, mais timidamente, a desenvolver-se à medida que identifiquem deficiências inultrapassáveis no tratamento com clientes e parceiros por via online, e se reorganizem os congressos e feiras. As vaiáveis são muitas e menos previsíveis que as do turismo. A videoconferência não substitui o sol e a praia, e o objetivo do turista é sair de casa. O tráfego aéreo de negócios vive de permitir obter mais lucros investindo em viagens, hotéis e ajudas de custo. Tempo é dinheiro, Caso se conclua que a relação custo-benefício não justifica voar, a indústria do transporte aéreo tem um problema, de ordem genética. Há imensa gente que detesta voar, e o tempo perdido em trânsito também é quantificável em dinheiro. Outra grande incógnita são os fluxos migratórios, e qual o impacto que terá nos grandes hubs, e na fortaleza das grandes alianças.

Muita gente esteve privada de voar durante meses. Mal as linhas aéreas reabriram, fizeram as viagens que necessitavam (regresso a casa, visita à família, compromissos profissionais antes contratualizados) ou que já estavam pagas. E mesmo assim não se assistiu a um boom. Portugal experiencia uma situação caótica com o Reino Unido, que ora abre, ora fecha os corredores aéreos. Muitas empresas fizeram os funcionários tirar as férias até finais de setembro. Mas isso sairá à custa das férias de Natal, e citybreaks em que aproveitavam fins-de-semana com pontes e feriados. A aviação é um negócio de grandes quantidades e margens reduzidas e reage muito mal a quebras.