Dia da Cidade do Funchal “sui generis” com pouca assistência mas contestação em discursos proferidos e não proferidos

 

Fotos: Rui Marote

A sessão solene que assinalou hoje o 512º aniversário do Funchal processou-se em moldes pouco habituais, dados os cuidados impostos pela pandemia da Covid-19. Celebrou-se no Teatro Municipal Baltazar Dias, com pouca assistência, e ficou marcada pelo apelo do edil funchalense à oposição, nomeadamente PSD e CDS, para que deixe trabalhar o executivo, sem colocar entraves.

Garantindo apoio aos funchalenses numa altura de fortes dificuldades económicas, Miguel Silva Gouveia não se coíbe, porém, de sonhar alto e, consequentemente, já foi referindo que o Funchal almeja candidatar-se a Capital Europeia da Cultura no ano de 2027. Em seu entender, a nossa urbe está em condições de disputar, taco a taco com outras cidades do país, a honra desse reconhecimento.

Fazendo o discurso da resiliência dos madeirenses e, neste caso, em particular dos funchalenses, Miguel Gouveia rejeitou as estratégias pessoais e partidárias que não beneficiam a cidade e preferiu colocar a ênfase aos profissionais de saúde e às forças de segurança que têm actuado neste contexto de pandemia, ajudando as pessoas e procurando manter a lei e a ordem, além da saúde pública.

Ao longo de uma cerimónia que se prolongou por cerca de duas, horas, e que registou uma assistência de 116 pessoas, entre as personalidades presentes no palco, plateia e camarotes, também se ouviram, naturalmente, críticas.

O PTP, por exemplo, pela voz de Raquel Coelho, invocou o filme “Batman”, ao qual, referiu, assistiu durante o confinamento. Tudo para comparar a cidade do Funchal com a mítica “Gotham” onde o “cavaleiro das trevas” combate o crime. Pretexto para considerar o Funchal, como a dita “Gotham”, como “uma cidade maravilhosa, mas capturada pelos ricos e poderosos, mergulhada na corrupção, com vilões e super-heróis à mistura”. A grande diferença, referiu, “é que uma é apenas ficção e a outra a dura realidade de uma cidade que precisa de ser salva, mas a que os heróis escasseiam”. No Funchal, defendeu,  prevalece “a política medieval do “pão e do circo”, pelas doses cavalares de festas, divertimento e muito assistencialismo” e onde vive “um povo que se torna presa fácil de discursos populistas, extremistas e de ódio por partidos e indivíduos que se alimentam da revolta daqueles que já não acreditam em coisa alguma”.

“Parabéns aos donos disto tudo. Vergaram os gestores públicos ao seu intento e, os que não conseguiram controlar, expulsaram do espectro político. Restam apenas alguns resistentes para denunciar os seus desmandos”, lamentou, perante as entidades civis, militares e religiosas presentes.

Por seu turno, e também a título exemplificativo, o RIR, de Roberto Vieira, considerou que a autarquia “não tem sido um exemplo digno do seu estatuto, da sua história e dos pergaminhos que acumulou. A gestão catastrófica do anterior Presidente, deixou marcas difíceis de corrigir. Não foi apenas o facto de ficar conhecido como o político que faltou a palavra aos Funchalenses. Não foi apenas por ficar conhecido por um indivíduo de discurso superficial e sem ideias ou projectos.

Não foi apenas por revelar uma tamanha incompetência, sempre ocultada, por centenas de notícias e fotografias
para abrilhantar o monte de lixo que criou na autarquia do Funchal. Foi também porque fugiu às responsabilidades, não podemos esquecer a queda da árvore no Monte, que matou gente de carne e osso que nunca viu a solidariedade
da autarquia; foi porque enganou os munícipes e fugiu no início do mandato; foi porque abandonou munícipes que
contavam com a ajuda da autarquia para viverem melhor; foi porque nunca soube construir um projecto de consenso
com os partidos que o apoiaram”. Em seu entender, actualmente “os dinheiros da autarquia continuam a servir para alimentar uma máquina de propaganda sôfrega e agora dedicada a dar a conhecer um Presidente cinzento, que não foi eleito pelos Funchalenses e que não está preparado. O reflexo deste delírio governativo é a situação da Empresa Frente Mar: acumulam-se escândalos atrás de escândalos”, denunciou.

Já o deputado independente Orlando Fernandes apontou também o dedo à empresa municipal Frente MarFunchal, considerando que os atropelos “têm sido mais que evidentes e basta para isso perder poucos minutos lendo os
relatórios de Certificação Legal de Contas emitidos pelos Revisores Oficiais de Contas dos últimos anos que colocam reservas aos reais resultados contabilísticos apresentados. Olhando tecnicamente para os referidos relatórios sou levado a concluir que nos últimos anos os prejuízos apresentados foram de 1 milhão e duzentos mil euros
quando deveriam ser de 2 milhões e quinhentos mil. É difícil de aceitar que nesta empresa tenham sido injectados cerca de 8 milhões de euros, valor sempre ocultado pelos vários executivos camarários, sem qualquer divulgação pública. Sem esquecer que para a sua extinção ainda será necessário mais de 2 milhões de euros”, acusou.

A estas e a outras críticas assistiu Pedro Calado. O vice-presidente do Governo Regional representou na cerimónia o Executivo madeirense, sem direito a intervenção. Porém, no final distribuiu aos jornalistas um discurso que tinha pronto, caso lhe tivesse sido dada a possibilidade de falar. E nesse discurso, a par de saudar os funchalenses pela “firme determinação”, e depois de tecer elogios à beleza do Teatro Municipal e relembrar textos do historiador Gaspar Frutuoso sobre a urbe, deixava “uma palavra de agradecimento ao executivo camarário, a todas as forças políticas com assento na Assembleia Municipal e na Junta de Freguesia e sobretudo aos funcionários (…)” Por outro lado, voltava a reiterar “a vontade e o compromisso do Governo Regional na prossecução de um bom relacionamento interinstitucional, continuando a trabalhar com a CMF e com todas as autarquias regionais em moldes iguais de cordialidade e realização (…)”. Tudo porque, afirmava no papel e teria afirmado de viva voz, “o que nos une é muito mais do que aquilo que nos divide”.

Porém, ia aproveitar o momento para invocar o interesse público, acusando a autarquia de, apesar de apregoar uma boa gestão financeira, não cumprir com os seus compromissos financeiros para com as empresas públicas governamentais, “colocando em xeque a sua sustentabilidade e o emprego de várias centenas de trabalhadores”.

Calado, através do seu discurso não-oficial e não-proferido, mas dado à comunicação social, refere que o GR investiu mais de 10 milhões no Funchal, para reabilitar escolas do concelho, investiu 12 milhões na saúde e canalizou 34 milhões de euros através da Direcção Regional de Estradas; e além disso, o Orçamento Regional reserva 92 milhões, afiançou, para o concelho, para “obras muito ansiadas”.

 

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