Redes antissociais

1 – Já tudo se disse sobre o vandalismo no Porto Santo. Já se proferiram todas as acusações, já se fez o julgamento, ditou-se a sentença e até se aplicou a sanção. A mais votada foi a do trabalho comunitário. Nessa eu também votaria.

E também já muito se cuspiu para o ar. A ver se não chove…

Que são recorrentes os episódios do género? São? Que têm escalado em gravidade? Penso que sim. Que pode ser revelador de um esvaziamento ou inadequação do estilo de educação atual? Provavelmente.

Mas será necessário tanto rancor? Ler alguns comentários nas redes sociais assemelha-se a ler um manual abreviado de tortura da Alta Idade Média. Uma espécie de introdução à tortura para totós.  Se a criatividade dantesca pagasse imposto não precisaríamos mais do turismo.

Tanto ódio.

Uma das acusações que se repete ad infinitum tem um lugar especial no meu coração. A minha preferida. Aquela em que a culpa é do Governo. O Governo que, pelos vistos, não só decide como será a atuação da polícia, como ainda tem responsabilidades parentais na educação de jovens betos com necessidade de afirmação e atenção. O que será exigido do Governo a seguir? Que nos venha limpar a casa e engomar a roupa?

2 – Dizia a parangona que “Isabel Borges recebe 53.500 euros para decorar a Placa Central”. Veio a visada esclarecer que ganhou um concurso público que engloba três projetos, Placa Central, Largo do Chafariz e Promenade do CR7, patentes ao público de 1 a 27 de setembro.

E lá vem novamente o Carmo e a Trindade por ali abaixo nas redes sociais.

O título inflamatório e a notícia incompleta não ajudaram, com certeza.

É só escolher. “Os mamões de sempre”. Sempre com os “mamões”. Das palavras mais feias da língua portuguesa. O complot das rosas da Quinta de Santana. Quinta que agora até é do Pestana. Outro “mamão”, pelos vistos. Que a Festa da Flor em Setembro é um disparate, pois só poderia ser na Primavera. Que é uma vergonha gastar-se tanto dinheiro nisto quando as pessoas estão a esticar o salário para chegar até ao fim do mês.

Tanto ódio.

Eu gosto de organizar festas. Coisas pequenas para os de casa e cheias de pormenores que ninguém vê. Sei o trabalho que dá, as horas de pesquisa, os cortes, costuras e colagens que faço pela noite dentro, as pessoas que aborreço (ou chantageio) para me ajudar. Sei o que gasto com isso. Sempre mais do que deveria.

Nem imagino o que será montar uma coisa desta magnitude. As dores de cabeça, a gestão de pessoal e recursos e a constante pressão de surpreender e superar-se.

Eu não conheço a Isabel Borges. Acho que somos amigas de Facebook. Não a conheço, portanto. Mas sou uma fã acérrima do seu trabalho. É uma esteta, uma perfecionista e dona de um gosto irrepreensível. Coisas bonitas fazem-me feliz e a Isabel Borges já me fez muito feliz.

Principalmente este ano precisamos de um bocadinho de beleza, de flores, de cores. De leveza. De felicidade.

Se era melhor ter sido na Primavera? Pois claro. Também eu queria. Acho que é por demais óbvia a razão porque não o foi. Se é difícil esticar o salário? Claro que sim. Mas este é um cartaz turístico de excelência e a sua realização quer-se como claro indicador que estamos bem, a fazer o que fazemos melhor, que é receber o turismo. O mesmo turismo que paga parte dos salários que têm de ser esticados.

Deixemo-nos de tanta mesquinhez. De tanto ódio destilado nessas redes antissociais. Tiremos o chapéu florido a quem tanto o merece.

Resolução de ano novo a meio do ano: deixar de ler comentários nas redes sociais.