Milenarismo, teorias do desmoronamento ou a relevância da “colapsologia” (em tempos de SARS-CoV-2)

O que foi voltará a ser,

o que aconteceu, ocorrerá de novo,

o que foi feito se fará outra vez;

não existe nada de novo debaixo do sol.
Eclesiastes 1:9

 

Cada nova ideia depende das ideias do passado

Owen Chamberlain, Prémio Nobel da Física, 1959

 

Parêntesis

 

Nos idos anos oitenta, li um livro de Norman Cohn que me tem convidado a uma releitura. Na senda do Milénio (The pursuit of the millenium, no original de 1957) tinha, então, sido traduzido para português, a partir da edição inglesa de 1970. Entretanto, e mais recentemente (mesmo antes do surto pandémico) o milenarismo tem “ressuscitado”. Vale a pena pensar nisso.

 

Palimpsesto: Na senda do milénio

Na ideia do fim do milénio radica uma boa parte do medo que as pessoas sentem acerca de fenómenos como tempestades naturais, terramotos, pragas e/ou a possibilidade (sentida como inevitável) da destruição catastrófica do mund

O cativante (mas difícil) livro de Cohn viaja entre as correntes milenaristas que floresceram, na Europa Ocidental, entre os séculos XI e XVI. O autor percorre uma significativa “amostra” de seitas e de movimentos revolucionários e anárquicos, da Europa medieval, visando demonstrar o modo como as profecias de uma luta final entre as hostes de Cristo e do Anticristo se fundiram com a (natural) ambição dos mais pobres e desenraizados no sentido de melhorar as suas condições de vida, sobretudo materiais. As “fantasias” milenaristas, consubstanciadas em Na senda do milénio, recordam-nos como, num quadro sociopolítico onde dominam condições favoráveis a manifestações de ansiedade e inquietação, as crenças tradicionais passam a servir de alavanca para ambições e animosidades sociais.

 

De acordo com Norman Cohn, o milenarismo não era um conceito vago, ou amplo, na sua origem. Para o autor, e cito, o Cristianismo sempre teve uma escatologia, no sentido de uma doutrina sobre os ‘últimos tempos’, os ‘últimos dias’ ou ‘o estado final do mundo’” (Ed. Portuguesa de 1980, p.11). Assim, o milenarismo cristão fundava-se nos escritos do Apocalipse (XX, 4-6) que refere a segunda vinda de Cristo, à Terra, com o intuito de estabelecer um reino messiânico, com a duração de mil anos, até ao Juízo final. No entanto, refira-se, as perspectivas fatalistas da temporalidade eram comuns a muitos outros povos (AC), nomeadamente os egípcios, mesopotâmicos ou, até, os indo-arianos.

As concepções acerca do milénio, apresentadas por seitas e movimentos milenaristas variaram, ao longo da História e, sobretudo no período descrito por Cohn, entre o que se pode caracterizar, em linguagem actualmente mais compreensível, como utopias e distopias. Ambas serviram para um eficaz exercício do poder, tendo desencadeado, não raras vezes, “movimentos” revolucionários, executados por pobres sem esperança, incentivados pelos detentores dessas “promessas futuras”. A par dos movimentos milenaristas profundamente violentos, surgiu, entre outros, um a quem o autor dedica particular atenção: o do Livre espírito. Esta tradição mística e herética, fundava-se na crença de uma especial relação dos seus membros com Deus, libertando-os dos constrangimentos sociais e morais de um mundo obscuro (no sentido de inculto) que os tornava numa “elite de super-homens amorais”: “eles eram, de facto, gnósticos voltados para a sua salvação individual; mas a gnose que eles atingiram, era um anarquismo quase místico – uma tão temerária e incondicional afirmação de liberdade que resultou numa total negação de qualquer espécie de constrangimento ou limitação” (Ed. Portuguesa de 1980, p.123). Com as suas “derivas” subsequentes, que enveredaram por uma missão no sentido da restauração da Idade de Ouro, fundaram comunidades cujo paradigma se reproduziu, séculos mais tarde, no quadro do movimento hippie dos anos sessenta, por exemplo (e com as devidas diferenças). Cohn associa o pensamento apocalíptico da Idade Média, sobretudo na sua variante do Livre Espírito, aos fundamentos da filosofia Nietzschiana e, posteriormente ainda, aos movimentos intelectuais-radicais e filosóficos da década de sessenta, na Europa.

John Gray, autor de uma análise crítica à obra de Cohn, refere que “há uma linha de pensamento que preconiza que as ideologias totalitárias foram moldadas pelo pensamento apocalíptico e utópico”.

Recorro, novamente, a Cohn, não no sentido de consubstanciar uma análise à obra (impossível, no quadro destas linhas) mas no de deixar clara a ligação existente entre os movimentos estudados pelo autor e algumas propostas actuais: “esses prophetae encontravam os seus discípulos de preferência onde residisse uma população dispersa, desorganizada, rural, urbana ou mista” (Ed. Portuguesa, 1980, p.231). No sentido de ilustrar, se possível, o argumento que pretendo defender cito, uma vez mais, Norman Cohn: “O milenarismo revolucionário tira a sua força de uma população vivendo à margem da sociedade: camponeses sem terra ou cuja terra não chega para a subsistência, jornaleiros e trabalhadores sem qualificação vivendo sob a ameaça constante do desemprego; pedintes e vagabundos –  de facto a massa amorfa do povo que além de pobre era incapaz de encontrar um lugar assegurado e reconhecido na sociedade. A essa gente, faltava o apoio material e emocional garantido pelos grupos sociais tradicionais” (Ed. Portuguesa,1980, p. 232).

Ainda no capítulo da Conclusão, o autor afirma que “a maior vaga de entusiasmo milenarista, que atravessou toda a sociedade, foi precipitada pelo mais universal desastre natural da Idade Média, a Peste Negra: e aqui ainda, foi nos estratos mais baixos que o entusiasmo foi mais duradouro e se exprimiu com mais violência e massacres” (Ed. Portuguesa, 1980, idem).

 

Antropoceno, desmoronamento e colapsologia … e depois?

No mais recente número da Revista Science & Univers (julho/agosto/setembro 2020) é citado um estudo da Fundação Jean Jaurés (em parceria com o Instituto IFOP) do qual emana uma visão catastrofista do tempo actual, sustentada em marcadores societais e ambientais tais como, e cito, alterações climáticas, aumento das catástrofes naturais, extinção massiva de espécies e sobre-exploração dos recursos naturais, tensões geopolíticas conducentes a possíveis conflitos generalizados, crescimento democrático massivo e poluição do ar, dos mares e dos solos. A esta perspectivação do devir do mundo acresce, neste ano de 2020, a grave pandemia SARS-CoV-2. Ainda de acordo com a publicação, a História tem demonstrado o desaparecimento cíclico de algumas civilizações. Refere, a título de exemplo, o caso da ilha de Páscoa, ou da civilização Maia. Estes desaparecimentos, alguns súbitos, registaram-se em áreas relativamente restritas. No entanto, em tempos de globalização, um possível “desmoronamento” civilizacional teria repercussões e ondas de choque que atingiriam o globo, indiscriminadamente.

O catastrofismo, para além das fontes históricas já assinaladas, ficou associado à publicação, em 1972, do livro The Limits to Growth, também conhecido como Meadows report. Este estudo, foi elaborado por investigadores associados ao MIT, através de um sistema computacional (World3): “o nosso modelo foi construído especificamente para investigar as cinco maiores tendências de preocupação global: a industrialização acelerada, o rápido crescimento populacional, a disseminação da malnutrição, o desgaste de recursos não-renováveis, e um ambiente em deterioração” (in Versão abreviada do estudo, disponível na Internet, tradução minha). Os resultados, entretanto, re-avaliados e actualizados, ficaram conhecidos como um dos mais agudos contributos para as mais recentes construções de uma teleologia do colapso.

Uma das vozes mais activas do movimento colapsologista, nos últimos tempos, é Pablo Servigne, biólogo, autor do neologismo “colapsologia”, que consubstanciou os seus argumentos numa publicação em co-autoria com Raphael Stevens (especialista em resiliência dos sistemas socio-ecológicos):  Como tudo pode desmoronar-se: pequeno manual de colapsologia para uso das gerações presentes (Le Seuil, 2015). Este movimento, “recruta” adeptos entre figuras com impacto e capacidade de influência sobre grandes públicos (principalmente nas áreas da Arte e do espectáculo) e tem meios de difusão privilegiados como o jornal Le Monde. Atinge, de forma crescente, as camadas mais jovens e a sua notoriedade está fixada como sendo de perfil de importância global, gradual.

Antes de apresentar as críticas que lhe são endereçadas, e registadas na publicação à qual me reporto, convém relembrar os chamados “marcadores do desmoronamento”, a saber, as crises: a) climática; b) ambiental; c) da biodiversidade; d) social e e) sanitária, acompanhadas de um clima de eco-ansiedade. Assim, são desenhados três cenários possíveis: a) um desmoronamento progressivo; b) um desmoronamento em cascata e c) um desmoronamento apocalíptico. Colapsará o Antropoceno?

Para os menos atentos à literatura colapsologista, mas atraídos pelas propostas audio-visuais, não será difícil reconhecer, nos títulos de algumas séries e filmes recentes, de grande impacto público, um veículo privilegiado dos seus fundamentos. Cito, ainda de acordo com a Science & Univers, The walking dead, The road, The leftovers e o muito celebrado Take shelter. A revista refere, também, o jogo de vídeo The last of us.

Enzo Lesourt, autor do livro Sobreviver ao antropoceno (PUF, 2018), critica Servigne no âmbito da antecipação do declínio das civilizações, referindo que a História não pode constituir um dispositivo de previsão. Uma outra voz crítica de Servigne, a da jornalista ambiental Agnès Sinai, citada pela Sicence & Univers, afirma: “esse ‘lamento’ cansa-me, há uma espécie de fascínio pelo pior”. Sinai alude, igualmente, a uma dimensão nada despicienda na análise geopolítica actual e que é a da “despolitização” da questão do desmoronamento.

Os historiadores Jean-Baptiste Fressoz e Christophe Bonneuil, ambos investigadores no CNRS e autores do livro L’évènement anthropocène (Le Seuil, 2013), acusam os fatalistas de inconsistência, incoerência e facilitismo no raciocínio.

Jacques Bouveresse (outro crítico) reconhece que, no início, o movimento se apoiava em dados recolhidos com rigor e de forma séria, mas depois evoluiu no sentido de um profetismo (mais do que de uma ciência).

A esta visão teleogicamente catastrofista do mundo, opõe-se uma outra designada como “sobrevivencialista” no sentido da crença nas possibilidades de garantir, ainda e por mais séculos, uma qualidade de vida global fundada na entreajuda e no respeito pelos eco-sistemas. Para Fressoz, a quem aludi umas linhas acima, o “desmoronamento” não significa o fim do mundo, mas o fim de “um” mundo: “isto permite o florescimento das utopias”. Entende que é preciso agir rápida e eficazmente no sentido de prevenir alguns dos efeitos mais penosos desse mesmo colapso. Tornar o mundo melhor, ou evitar que fique pior, não é – neste caso – a mesma coisa. É o que divide os ecologistas e os sobrevivencialistas.

O mundo pós-SARS-COV-2

 Uma das “porta-vozes” das novas teorias milenaristas do colapso tem sido Greta Thunberg que, em pleno Fórum Mundial de 2019, zurzia contra o mundo a sua (?) tese promotora da eco-ansiedade: “Eu não quero que você fique cheio de esperança, eu quero que você entre em pânico. Quero que, como eu, você fique com medo todos os dias. E então quero que você aja”. Este neo-armageddonismo disfarçado e enfeitado com decorações de natureza ambiental (uma das constatações de Servigne) agora, como então, emana de um quadro sociopolítico onde dominam as tais “condições favoráveis a manifestações de ansiedade e inquietação, onde as crenças tradicionais passam a servir de alavanca para ambições e animosidades sociais” que Cohn refere no seu livro. Instalado o medo, torna-se fácil difundir a teoria do desmoronamento e convencer jovens sem esperança (porque essa, também, é a agenda do novo milenarismo) a obedecer às “vozes dos novos donos” (não deixa de ser patético, o rasto de lixo, em especial o não-reciclável, deixado pelo chão das cidades onde esses jovens se manifestam).

Ao contrário da Idade Média, o recrutamento dos adeptos das correntes e seitas neo-milenaristas, em pleno século XXI, é feito através de uma arma muito eficaz, a “facebooklogia”: a confusão (deliberada) entre verdade e mentira, a diluição de conceitos tradicionais como o Bem e o Mal, a despolitização do activismo, o recrutamento silencioso e atractivo, faz com que seja difícil destrinçar um pensamento estruturado sobre o mundo de uma amálgama de propostas manipuladoras.

Em plena pandemia SARS-CoV-2, instalado o medo e desencadeados os mecanismos para o regular, parece ser iminente um outro colapso, o da Democracia e dos sistemas políticos ocidentais tal como os conhecemos, sobretudo os que integram a União europeia, ela própria vítima de um processo de desmoronamento, com o Brexit, por exemplo.

Regresso a Norman Cohn: “O milenarismo revolucionário tira a sua força de uma população vivendo à margem da sociedade”. Actualmente, e segundo dados obtidos pela ONU, perspectiva-se que a luta por um bem como a água se agudize. 2,1 biliões (uso o neologismo para simplificar) de pessoas, no mundo, encontram-se sem acesso a água potável. Esse mesmo número de pessoas usa, diariamente, pontos de acesso a água contaminada. 900 milhões não têm acesso a saneamento básico. 821 milhões de pessoas vivem em regime de subnutrição crónica. 1 bilião vive em favelas. A UNICEF tem sublinhado o impacto pandémico sobre a Educação: 1,6 biliões de crianças sem acesso à Educação durante a pandemia. Não sabemos, por agora, qual será o impacto da pandemia nesses, como nos outros povos mais “afortunados”. O que sabemos, presentemente, é que todos os milenarismos se consubstanciaram em formas opacas de exercício do poder e de poder não-democrático.

O medo, sabemos, reduz.