
José Viale Moutinho festeja setenta e cinco anos de vida e mais de cinco décadas de publicação intensa.
O trajecto literário de José Viale Moutinho é diverso, quer em termos genológicos, quer em termos de captação de públicos. Da narrativa breve à poesia, das recolhas de literatura popular ao ensaio sobre personalidades marcantes da cultura portuguesa contemporânea, da escrita dramatúrgica à que resulta de investigação sobre a Guerra Civil Espanhola, passando pela literatura infanto-juvenil, o escritor tem uma obra amplamente reconhecida a nível nacional, bem como a nível internacional. A título de exemplo, recordamos o Prémio Literário Edmundo Bettencourt, o Prémio Pedrón de Honra, bem como a atribuição do Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco, em setembro de 2019, ao livro Monstruosidades. Tempo do Infortúnio, pela Associação de Escritores Portugueses. Prémio que o escritor ganhou pela segunda vez, já que em 2000 o livro Cenas da Vida de um Minotauro também fora premiado.
Não nos podendo alongar sobre tão extensa obra, registamos aqui uma proposta de leitura: Romanceiro da Terra Morta, cuja terceira edição, com a chancela da Editora Afrontamento, apresenta ao leitor quinze narrativas breves.
Esta reedição reúne livros já publicados, nomeadamente Cabeça de Porco (Lisboa, Forja, 1978), Apenas Uma Estátua Equestre na Praça da Liberdade (Porto, Nova Crítica, 1978), o conto “Torre de Menagem” (1988) e alguns inéditos. Editado pela primeira vez em 1988 (Editora Caminho), reeditado em 2001 (pela Ed. Agostini), o Romanceiro da Terra Morta apresenta-se na proposta editorial da Afrontamento com um belíssimo pormenor do trabalho de escultura de Jaime de Azinheira. Recordemos que se trata de uma parceria muito bem conseguida, como acontecera com a republicação do livro Destruição de Um Jardim Romântico.
Em Romanceiro da Terra Morta, as figuras da capa moldam-se pelas mãos do artista, como se modelam nos textos os protagonistas moutinianos. Pelo olhar irónico e parodístico do escritor, as personagens vão dialogar com o imaginário colectivo português, recordando a barroquização das épocas pretéritas, dando a entender que todo o funcionamento disfórico pode ser transversal a épocas, tempos e destinos.
Com prefácio de António Carlos Cortez, significativamente intitulado “Romanceiro da Terra Morta. Singularidades de uma prosa viva”, estes “micro-contos” de “canto e de desencanto”, como os classifica o prefaciador, desvendam o diálogo que a escrita moutiniana estabelece entre tradição e modernidade. Por sua vez, Cristina Cordeiro Oliveira na recensão para a revista Colóquio Letras, aquando da primeira edição da colectânea (Caminho, 1988) refere que a escrita de Viale Moutinho: “inscreve-se numa tradição poética antiga, como exercício de uma memória que se não quer ver perdida, de uma voz, anónima ou colectiva, que conta a sua história – a história de um povo, feitas de mágoas e de alegrais”. Essa memória, à semelhança do que se espraia pela obra de José Viale Moutinho, recupera “tempos de infortúnio” que a História permitiu e a escrita dita, assim, a urgência de recordar.
Trata-se de registos que atestam a veia crítica e denunciadora do escritor. Nesse sentido, não são apenas textos de desesperança, mas antes textos de assombro e de renovados sentidos de leitura. O repositório apresentará ao leitor “toadas antigas e actuais”, uma curiosa galeria de personagens, intrigas peculiares, de uma ironia rangente, bem como apreciações cáusticas, enredos repletos de dinamismo e contraste. Através da eficácia do seu discurso narrativo, Viale Moutinho regista marcas de um património identitário e cultural português, questões de poder e de contrapoder, bem como problemáticas ligadas à patrimonialização e à turistificação.
Desde os seus primórdios, o romanceiro pretende recolher inúmeras situações. Da tradição oral à forma escrita, atestam-se múltiplas formas de teor histórico, cultural, entre outras possibilidades. O Romanceiro da Terra Morta espraia-se por representações ficcionais, onde não falta o toque poético-popular, em particular nas quadras colocadas no interior da narrativa, lembrando-nos assim que o escritor é um colector nato da literatura popular portuguesa. Note-se que a canção de intervenção também marca presença nos textos, sublinhando que a escrita de Viale Moutinho dialoga com a actualidade da década de sessenta e setenta do século XX. A modernidade literária do escritor assenta nesse jogo em que se (con)fundem épocas, situações e linguagens. Nos quinze contos descrevem-se várias localidades, pertencendo, regra geral, o espaço do conto à geografia sentimental do escritor, uma cartografia nortenha como acontece, aliás, com o mapa literário e afetivo de Camilo Castelo Branco.
A compilação de textos coloca a tónica em dissonâncias da sociedade portuguesa através de uma notória capacidade de efabulação. Urbano Tavares Rodrigues observou que José Viale Moutinho “é um narrador irónico, estuante de fantasia, notável pela economia de processo e capaz de atingir, por vezes, os pontos fulcrais da vida da sociedade portuguesa” (cf. Contra-capa).
É através da ironia, de algum sarcasmo e do tom parodístico que Viale Moutinho nos propõe observâncias de uma época que marcou a sociedade portuguesa: os tempos do silenciamento forçado e dos esbirros, a perseguição política e as gentes martirizadas, os exilados espanhóis e as vivências da raia, os fenómenos migratórios ou guerra colonial, os tempos incertos da década de setenta, o medo em contexto de guerra fria, mas também elenca o que foi a vontade de mudança social e política, a informação do poder e do contrapoder, emergência de novos paradigmas culturais, as políticas ligadas à salvaguarda do património português. Ao inventário dessas inúmeras situações acresce um repertório de tipos sociais que atravessam, regra geral, a obra moutiniana onde não podem faltar frades, professores e militares.
Acresce um rico intertexto presente nas múltiplas epígrafes que atravessam a obra. O diálogo com o cânone da literatura portuguesa, bem como o que se estabelece com uma literatura-mundo revela-nos a voz de Almeida Garrett, Júlio Dinis, Camilo Castelo Branco, Teixeira de Pascoais, Miguel Torga, Ramos Rosa, entre outros, como a de Victor Hugo ou a de Miguel Garcia Marquez.
Neste Romanceiro, importa destacar a coerência de temas, a intencionalidade simbólica dos mesmos, os discursos saborosos dos protagonistas, a vertente denunciadora da escrita, o insólito que envolve cada texto, o fantástico que irrompe a cada momento. Ao reeditar o seu Romanceiro, o escritor luta contra a precariedade de um género literário, (re)afirma a sua vitalidade e reaviva períodos sombrios que não deveriam voltar.
Em suma: nestas fusões de tempos e de espaços, o conto, ao qual se liga a lenda, a quadra popular, a canção, adágio, etc., vem recordar, quase sempre, épocas de inquietações. Às manifestações de algum desencanto que atravessam as narrativas, acrescem os diálogos saborosos das personagens, a escrita polifónica que o autor domina com mestria, o rico intertexto que perpassa no livro, as ambiências insólitas e os cenários fantasmagóricos. Caraterísticas que vão, certamente, desafiar o leitor.
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(Leonor Martins Coelho
Docente da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira
Investigadora no Cluster “Viagem e Utopia” do Grupo LOCUS do Centro de Estudos Comparatistas (CEC) da Universidade de Lisboa)
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