Confinada que tenho estado por motivos de saúde (o sismo deixou-me sequelas de fundo), o que me tem mantido há cerca de 2 meses no Hospital Dr. Nélio Mendonça, o espírito divaga feliz nos tempos de menina na Ponta Delgada. Horácio Bento de Gouveia, meu Pai, que em jovem, ainda na “velha casa” tão querida, aprendera música – houve o piano de meia cauda que meu avô Francisco Bento tocara e um bilhete postal dirigido a meu Pai a pedir o envio do piano de barco.
Meu Pai aprendeu música pelos sempre actuais livros de aprendizagem de música e solfejo. Essa herança musical vem de Francisco Bento que aos 16 anos (há uma foto da época) pertencia a um grupo musical em São Vicente. Meu Pai tocava guitarra e rajão, e fez parte do Orfeão Académico de Lisboa que em 1924 foi em digressão ao Brasil (país irmão).
Na minha infância em Ponta Delgada ouvia-o trautear cantando estes versos: “Olhos negros/negros olhos/ são gentios, são gentios da Guiné. / São gentios por serem negros/ gentios por não ter fé.”
Talvez por recordar ainda as idas ao Brasil e as brasileiras (há vários postais delas que lhe foram dirigidos) então ele dizia: “Os olhos negros são falsos/ Os azuis são lisonjeiros/ Os olhos acastanhados são leais e verdadeiros”.
Durante toda a juventude, com os jovens poetou entre 1919-1920 sob o pseudónimo de Ceres e Trevo, e publicou uma série de poesias sobre cada uma das Freguesias da ilha, mas mais sobre Ponta Delgada.
Ao deixar a ilha para prosseguir os estudos em Lisboa dedicou à avó materna (a “mamã”) um lindo soneto de despedida que sempre o comovia. Na verdade, desde o início toda a sua escrita foi poética, romântica, como se pode ler em “Escritos da Juventude” com prefácio da minha muito amiga, a grande Agustina. Tenho também uma toalha de mesa bordada por minha mãe para o enxoval e em que, em cada canto, há uma quadra do meu Pai. Essas quadras estão metidas em corações.
Nos seus últimos tempos, o seu livro de despedida – Luísa Marta encerra o repositório de recordações que me comovem cada vez que o leio. Ao terminar a colecção de “Escritos – n.º 6” inclui os últimos versos dele. Sinto-me muito feliz e orgulhosa, pois, durante 16 anos (apenas em férias de Verão na Madeira) consegui concluir, reunir, pesquisando e investigando em jornais, revistas, folhetos, tudo o que havia e o que o meu Pai escreveu, graças à abertura do Arquivo Regional, na pessoa da Dr.ª Fátima Barros.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





