
O Estepilha é íntimo do humor. Mas neste Dia do Trabalhador dá folga ao humor negro por uma causa maior: o Trabalhador e convida a uma reflexão desapaixonada sobre a ilustração de José Alves que, de forma magistral, resume a situação de milhares de trabalhadores do nosso país.
A pandemia, além de ter saqueado a nossa liberdade, está a matar a dignidade de milhares de trabalhadores, atirados para o desemprego e outros para um eufemismo semelhante como o “lay off”. Com que espírito podem os trabalhadores viver o Primeiro de Maio se regressaram a casa com uma guia de marcha que hipoteca a sobrevivência das suas famílias? Quase meio século após a conquista de Abril, Portugal, como o mundo, regride décadas com a espada de uma crise económica insólita, surda e certeira.
Não é possível calar quando o direito à dignidade que o trabalho proporciona a todos está seriamente ameaçado. Valerá a pena acreditar nos bouquets de palavras com que os políticos embrulham esta crise? A resposta estará, certamente, nos lares de numerosas famílias que, além do castigo de semanas de confinamento, deixaram de ter horizontes porque lhes falta ou lhes foi diminuído o pão nosso de cada dia.
Quando as palavras deixam de fazer sentido, será preciso deixar falar mais alto a poesia de Sophia de Mello Bryner Andresen.
Este é o Tempo
Da selva mais obscura
Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura
Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura
Este é o tempo em que os homens renunciam
(Sophia de Mello Breyner Andresen)
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