Velha escola. Novos hábitos.

A telescola pertence àquele mundo onde rebobinávamos cassetes com um lápis e queimávamos a pestana a jogar Pacman no Spectrum. Na minha cabeça, pelo menos.

Nunca, em momento algum, nem na minha deambulação mais desvairada, imaginava que iria dizer à minha filha senta-te no sofá e fica atenta que a aula vai começar.

#EstudoEmCasa. Podem pôr-lhe os hashtags que quiserem. Continua a ser telescola.

Vestida com as melhores roupagens do Reino. Os mais modernos tecidos, as mais nobres sedas e os acessórios mais reluzentes. Mas irá o Rei nu?

Sentei-me também a ver. Tenho visto algumas coisas, aliás. E aprendido outras tantas. Apesar de já estar com a mosca fosca e o sapo larapo pelos cabelos.

A verdade é que a coisa se dá. E até se dá bem.

Inevitavelmente choveriam críticas. Que os professores não estão à vontade, que se enganam nas câmaras, que a professora de ginástica é gorda e desajeitada, que a música do lava as mãos é patética e a do cocó é estúpida.

E que bom que é criticar no aconchego do lar.

Faço teatro há muitos anos. Isso não me impediu de, na missa de finalistas do Liceu, ao falar para uma Sé cheia até à torre, ter congelado, balbuciado qualquer coisa ininteligível enquanto tremia como varas verdes. Até hoje não sei o que disse. Nem sequer o que queria dizer.

Aquelas pessoas que ali estão são professores. Não são atores. Não estão habitados a falar sem ser para os seus alunos, alicerçando-se na proximidade. Nos laços. Na presença física.

Aquelas pessoas não estão habituadas a tantas luzes, a tantas câmaras, a tanta gente. E a tanto vazio.

Aquelas pessoas não estão habituadas àquele espaço, àquelas tecnologias, àqueles quadros. Não é o seu espaço, criado, habitado e modelado por eles.

Aquelas pessoas saíram da sua zona de conforto para servir. Para ensinar, nos moldes possíveis.

Aquelas pessoas estão nervosas e não têm pejo em admiti-lo. Dizem-no algumas vezes. Sem complexos. Numa lição de humildade, mas também de resiliência.

Aquelas pessoas são extraordinárias.

Aqueles professores são extraordinários.

Tal como são os outros. Os que tiveram de se adaptar a plataformas que desconheciam, os que passam horas a planear trabalhos, a fazer tabelas e quadros interativos. Os que têm trabalhado das 8 às 20h.

Os que filmam vídeos e os que fazem aulas síncronas diárias. Síncronas. Uma palavra que aprendi à custa disto.

E a paciência que têm de ter. O programa que vai abaixo, o aluno que não consegue entrar e as distrações. As sempiternas distrações.

Se eu fosse o professor da minha filha mais velha, na sua infinita paciência, e tivesse de ouvir mais uma vez um professor posso ir fazer xixi, as aulas passavam todas a ser assíncronas. Outra palavra que aprendi.

Estes professores são extraordinários.

Todo o esforço à volta desta adaptação é extraordinário.

Acontece que todos nós somos pessoas ordinárias.

E muitos desses professores também são pais. De filhos que também estão nesta escola da nova (a)normalidade.

Como estão muitos outros pais em teletrabalho. Com um só computador. Ou nenhum. Com refeições para fazer, roupa para lavar. Com filhos mais pequenos que necessitam de atenção.

Sabem quão assoberbados estão alguns pais?

A quantidade de trabalho que têm de apresentar no final de um dia de trabalho, enquanto ouvem chamar mãe ou pai a cada 2 minutos?

Mesmo aqueles que não estão em teletrabalho têm de vestir tantas peles, de mãe e pai, claro, mas também de educador, professor, cozinheiro, empregado doméstico, animador e psicólogo, num loop incessante, que se esquecem de se sentir na sua própria pele.

Há crianças que têm trabalhos para fazer a sair das orelhas. Algumas ainda sem autonomia para os fazer sós. Aulas a todas as horas, com horários incompatíveis com os dos irmãos.

Pior, há crianças de creches e infantários com trabalhos diários para serem apresentados em grupos de WhatsApp. Adivinham quem acaba por os fazer? Mais uma peça no eterno jogo do eu sou melhor mãe que tu.

Abençoada a educadora da minha filha mais nova, que na sua eterna sapiência, envia individualmente sugestões de atividades, sem que seja necessário expô-las em qualquer montra de vanidade.

E as assimetrias. Isto, ao contrário do que se pretendia, exacerba-as. As diferenças nos acessos às tecnologias, nas metodologias e empenho dos professores que lhes cabem em sorte, na disponibilidade dos próprios pais tomam proporções colossais.

Valerá a pena? Termos pais à beira da loucura? Pais que se deitam exaustos impedidos de adormecer porque não conseguiram fazer o essencial e mesmo assim não conseguiram ser os pais que queriam e sabem ser. Enquanto se preocupam como vão pagar as contas e se terão trabalho no próximo mês.

Valerá a pena? Termos adolescentes, que além de espoliados do que deveria ser a sua vida, nessa idade tão propensa às hormonas da revolta, terem de lidar com este tipo de pressão sem precedentes?

Valerá a pena? Não sei.

Alguma coisa teria de ser feita, dirão.

Mas seria assim tão terrificante parar? Ou abrandar, ao menos.

Aproveitar para consolidar o que já foi aprendido este ano. Com a telescola e com a ajuda dos professores, mas sem correrias malucas contra o tempo. Sem a pressão dos exames, das avaliações.

Para o ano voltar ao mesmo, com tempo para aprofundar matérias e acabar mesmo os extensos programas, o que só de si é por vezes tarefa hercúlea.

Dar este ano por perdido. Ou ganho.

Eu sei que é utópico. Que traria problemas logísticos de difícil resolução. Difícil, não impossível.

Eu sei que não estamos programados para parar ou abrandar. Mas, mesmo correndo o inenarrável risco de parecer o Gustavo Santos, não deveríamos ter desprogramado um pouco com este vírus?

Cada vez mais se dá como certa uma segunda vaga do vírus. Quando ainda estamos a meio da primeira.

Acontecendo, significa que para o ano voltamos ao mesmo e teremos não um, mas dois anos letivos cambados. Com todas as implicações.

E isso, valerá a pena?

Sugestão: Ler este texto ao som da música do cocó da telescola dos Açores torna-o infinitamente menos aborrecido. Música que é, afinal, dedicada aos valores fonológicos da letra O e que é a prova cabal que o humor escatológico não tem idade. Aqui em casa será o hit do Verão.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.