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No momento em que escrevo, Portugal já superou os 20.000 infetados e já ultrapassou os 700 mortos. No momento em que escrevo acabou de ser decretada uma cerca sanitária à freguesia de Câmara de Lobos, depois de se terem detetado dez novos casos positivos do Covid-19 e outros 40 suspeitos. Muito “inocentemente” e de forma muito “respeitadora” do “Fiquem em casa”, um convívio pascal de uma família numerosa forçou a confinamento 18 mil habitantes, durante 15 dias.
Igualmente em período pascal, há registo de pelo menos dois lares de idosos no norte de Portugal terem organizado, contra as recomendações da Direção-Geral da Saúde e da Igreja Católica, celebrações do “beijar da cruz“, tradicional do domingo de Páscoa, entre os utentes. Um dos casos ocorreu num lar de idosos em Freiriz, concelho de Vila Verde, que promoveu no domingo a celebração do compasso pascal, dando o mesmo crucifixo a beijar a um grande número dos idosos que ali residem. Isto apesar de a própria Igreja Católica ter recomendado a suspensão desta tradição do tempo da Páscoa do beijar da cruz devido às medidas de prevenção do contágio do coronavírus e de os idosos constituírem o principal grupo de risco para esta doença. Afinal, a decisão de interditar visitas a lares, no sentido de proteger os mais idosos, medida muitíssimo bem adotada, inversamente, e para mal dos nossos pecados, acabou por ser agravada, em pleno período da Páscoa, por pessoal dos próprios lares, com beijos no Cristo crucificado, e com a agravante da presença de um sacerdote que entrou no lar acompanhado por algumas funcionárias, todos munidos de máscara cirúrgica, dizendo as orações tradicionais da Visita Pascal e, continuando: “Com a cruz devidamente desinfetada, vamos então beijar Cristo ressuscitado enquanto cantamos.”. Caso para dizer, com amigos destes para que precisam os idosos de inimigos? Ou seja, os potenciais contaminadores não estavam do lado de fora, estavam do lado de dentro.
Cá na Madeira, infelizmente, para não destoar com estes comportamentos moral e eticamente inqualificáveis também se registou, embora há mais tempo, o insólito de um sacerdote celebrar missa na Sé e, outro ainda, com intenção, entretanto adiada, de celebrar um batizado no Porto da Cruz. Não fora a pretensão devidamente referenciada, e travada, e teríamos “arraial”! Entendamo-nos, ninguém questiona o livre exercício da fé. Porém, numa altura em que a Diocese decide encerrar preventivamente as igrejas aos crentes (e bem), haver quem se ache acima das leis dos homens e dos máximos representantes da Igreja não parece ser próprio de “bom pastor” nem de quem tem a missão de guiar o “rebanho” de Deus que lhe confiaram. Só para estabelecermos um termo comparativo, convém saber quantos familiares são permitidos na celebração de um funeral. Ainda, em período pascal, houve notícia filmada de sete pessoas envolvidas numa celebração, no domingo, numa rua em Vermoim, Vila Nova de Famalicão, com direito a beijos na cruz e a champanhe. Os “celebrantes” já foram convidados a apresentar-se no posto da GNR de Joane, sendo devidamente identificados e elaborado um auto de notícia com os factos que serão remetidos ao tribunal. Num vídeo divulgado nas redes sociais vê-se uma mesa colocada na rua e uma mulher a dar uma cruz a beijar a cerca de 10 pessoas ali presentes.
Claro que também não me passou despercebido, neste tempo de distanciamento social, o “bacalhau” do Primeiro-Ministro ao Ministro da Educação e o inevitável pedido público de desculpas posterior. Calhou que por muito pouco não se dançava uma música romântica “face to face”… Afinal, a única coisa que se provou foi que o Presidente da República, não só deixou de poder distribuir afetos a tudo quanto mexe, mas perdeu, até ver, o exclusivo “dos afetos”. Ora, precisamente no seguimento do desrespeito pelo cumprimento das medidas de confinamento e isolamento social, gostaria de dar testemunho de algumas situações de desrespeito reiterado, desafiador e abusivo a que tenho vindo a assistir. Outros (muitos como eu, calculo) terão assistido, e assistem ainda, a situações paralelas.
Cá em casa basta-me apenas sair ao quintal para assistir a uma variedade de atividades lúdico-turísticas, desde os treinos de atletismo e caminhada para “mínimos olímpicos”, passando pelos cães que levam os donos a passear, alguns quase de arrastões, e com a curiosidade (sinais dos tempos) de os açaimos estarem em ordem inversa. Estava eu habituado a ver vizinhos a fazerem o seu passeio higiénico, a sua caminhada, o passeio aos seus animais de estimação, mas, para meu espanto, de dia para dia amplificado, vejo pessoas que não sei bem de onde surgiram, com ar de turistas, sem GPS, a fotografar a paisagem para Instagrams e Faces, em amenas cavaqueiras e “amistades peligrosas”. A continuar assim, não tarda vamos ter organização de excursões e piqueniques de paróquia. Tal como em Portugal, também na Áustria, nem todos respeitam as restrições de movimento. Por isso, a polícia foi chamada a intervir de forma contundente para conter a propagação do vírus. A não ser em casos excecionais, é proibida a entrada em espaços públicos. Em Portugal, mais particularmente num conhecido bairro de habitação social do Funchal, houve mesmo uma espécie de “concerto ao vivo”, com músicos empoleirados numa carrinha de caixa aberta para animar a vizinhança, que logo acudiu à rua para matar saudades da folia de um evento chamado “invento”. A improvisada “rave” só não deu, sabe-se lá, em “flash-mob” porque as autoridades policiais foram chamadas, forçando os músicos “a meter a viola no saco”, e os espetadores, de embevecidos a “abanar o capacete”, a desconsolados e a ter de recorrer à música caseira. Uma pena! Está muito “mal injusto”!
Voltando ao espaço em que me movo, devo acrescentar que, depois da situação de emergência, os meus olhos já viram muita “malhação” para manter a forma ou subtrair adiposidades, mas receio bem que o peso dos passageiros e passageiras frequentes que me passam à porta (e, atenção, pode ser só impressão minha!) seja invariavelmente o mesmo ou, variavelmente, ainda mais avantajado. Atribuo (mas é só um suponhamos) ao pão e bolinhos dietéticos de todos os feitios confecionados, filmados e gravados online na cozinha pública das redes sociais. Tomando, novamente, a Áustria como termo comparativo, as autoridades continuam a alertar a população para as consequências da violação das novas normas. Caminhar sozinho ou com pessoas da mesma casa é permitido, mas o mesmo não se aplica a agrupamentos de pessoas. O tempo ameno dos últimos dias tem atraído muitos austríacos para a rua e o número de multas acabou por disparar. O exército também ajuda agora a manter a ordem no terreno. O caso é que as multas já superaram as 800, podendo chegar à módica quantia de 3600 euros. No canal do Danúbio, a polícia verifica a cada 30 minutos que a distância social está a ser respeitada. Algumas pessoas ignoram esse facto e recebem reprimendas ou até multas. Porém, a maioria da população austríaca está a respeitar as regras e aprova as ações do Governo.
O Governo Regional, na pessoa do Presidente do Governo, bem como o Secretário Regional da Saúde, há que reconhecê-lo e louvá-lo, têm pautado a sua ação pelo apelo ao bom-senso, mas igualmente a um endurecimento gradual das medidas de firmeza, reconhecendo que baixar a guarda não é opção, razão pela qual há que manter a disciplina pessoal e fazer acatar escrupulosamente as orientações das autoridades de saúde sobre as regras sanitárias e de distanciamento e isolamento social. Não obstante, haverá sempre aqueles que não sabem o significado de “Fiquem em casa”, talvez porque nunca antes tinham “ficado com o respetivo traseiro à porta” ou conheçam a casa apenas como dormitório, vá. Alguns, imagine-se, descobriram que não vivem sós e que até há por lá gente que afinal é família!!! Relativamente ao futuro mais próximo, temo que o número de infetados e de mortos venha a crescer galopantemente, sobretudo porque, mal o sol convide a uma praia, veremos sair um banhista debaixo de cada pedra. Sendo assim, urge perguntar se serão as forças policiais e o exército suficientes para travar o ímpeto de exércitos de banhistas em delírio? Tenho sérias dúvidas, para não dizer mesmo que nem com as praias infestadas de tubarões brancos se controlará o ímpeto de um mergulhinho de chapa, de umas braçadas, como se não houvesse amanhã, ou de um invejável bronze à Caribenha. A desobediência civil, prevejo, irá atingir “picos” e “planaltos” dignos do Guiness! Já para não falar das famílias, com avós, pais, filhos e netos, incluindo crianças de colo e bebés de carrinho, amigos e conhecidos a confraternizar em bandos, à distância social de dois dedos mindinhos, trocando amistosos perdigotos. Claro que não faltarão estudantes irmanados em férias, namorados a fazer updates das relações, divisão de sanduíches, aguinhas, sumos e outras beberagens, soninhos e jogos de cartas debaixo do mesmo guarda-sol ou em cima da mesma toalha familiar, entre outros comportamentos recomendavelmente “profiláticos”. Será precisamente antes dessa corrida desenfreada às praias que os responsáveis políticos têm de impor regras e condições, equilibrando o direito a gozar o verão com o dever de não colocar-se em risco ou colocar em risco o direito do outro à segurança. Ou seja, deixar à consciência de cada um, mas intervir com firmeza quando haja atropelo dos normativos que salvaguardam o bem comum.
Avançando ainda mais nas expectativas relativamente ao futuro, urge perguntar: então, o que se espera do “novo mundo” que aí vem? Para ser muito franco, da minha parte, não espero grande coisa. A memória curta, a avaliar por anteriores situações críticas, muito rapidamente vai fazer esquecer a tragédia e tudo voltará a ser como era, “Tudo com dantes, no quartel de Abrantes”. Lamento confessar que, depois da pandemia e dos seus trágicos efeitos, não me acode a ilusão ou ingenuidade de que o “novo mundo” seja mais doce e menos duro, que as pessoas deem mais valor às pequenas coisas, que comuniquem mais, que o essencial seja a saúde, os momentos que passamos em família, com os nossos entes mais queridos, que as pessoas, maioritariamente, percebam que isso, sim, é a maior riqueza que podem ter e levar no nosso coração. Não, não será o tempo “do homem novo”! Temo que o sonho de Martin Luther King, que ajudou a construir, mas nunca viu corporizar-se, seja o mesmo sonho de mudança que ora alimentamos, mas, por força do atavismo humano, culminará em pesadelo “déjà vu”.
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